Mudar o que mesmo? Há um exagero no clamor por mudanças

Há algo de errado com a premissa de que é preciso transformar tudo radicalmente o tempo todo

São Paulo – A mudança é filha da insatisfação, dizem. E o que não falta são motivos para querer mudar, pois a modernidade trouxe a velocidade como uma de suas marcas, e aquilo que nos satisfazia há pouco já não atinge seu objetivo com facilidade.

Clientes só ficam satisfeitos quando percebem melhoria no serviço, chefes só se satisfazem com funcionários que evoluem, e até namoradas preferem namorados que continuam surpreendendo-as. A vida é difícil.

Essa percepção chegou ao mundo da gestão das empresas com intensidade redobrada, pois há negócios e carreiras em jogo. Mudar passou de bispo a rainha no xadrez corporativo. Afinal, um mundo mutante exige ação, velocidade de resposta, novas propostas. Mudanças. Mas — perguntam os mais cautelosos — mudar o que mesmo?

Perguntas simples costumam ser desconcertantes, pois elas são feitas por alguém que teve a coragem de dizer que não está entendendo, enquanto a maioria não quer admitir que está perdida na discussão, apesar do semblante inteligente.

O grande problema das mudanças inovadoras que elevam o patamar de competitividade é que, em geral, não estão no lugar para onde olhamos.

Na imensa maioria das vezes, o que precisa ser mudado não é o quê, mas o como. Observe como a maioria das tentativas frustradas de inovação propunha mudanças radicais, grandes demais para não desestabilizar o negócio ao ser implementada.

Os esportes costumam ser bons exemplos de alto desempenho, pois os treinos estão criando novas gerações de atletas contra os quais os campeões de antigamente não teriam a menor chance. Entretanto, as regras desportivas mudam muito lentamente. Não é o jogo que muda, mas a maneira como se joga.

Antigamente, por exemplo, os jogadores de basquete plantavam os pés firmes no solo para efetuar o arremesso. Até que Hank Luisetti, do time de Stanford, começou a lançar a bola com uma mão só enquanto seu corpo ainda estava no ar.

Nenhuma regra dizia que não se poderia jogar assim, apenas parecia errado. De lá para cá, o que assistimos foi uma evolução desse estilo. Ele não mudou o que fazia — colocar a bola no aro —, apenas mudou o jeito de fazer isso.

Na próxima reunião de turnaround (que pode ocorrer só entre você e seu travesseiro), pense se é necessário mudar o que você está fazendo, ou apenas aprimorar o estilo. A surpresa pode ser grande.