Mudança de rota

O mercado está se abrindo para contratar profissionais vindos de outras áreas de atuação, mas é preciso saber em que circunstâncias a mudança vale a pena

São Paulo – A paulista Andrea Rufino, de 38 anos, assumiu há três meses o cargo de gerente de marketing da Amadeus, multinacional de TI que fornece software de gestão de passagens áreas e reservas. Depois de quase dez anos de carreira em cargos de tecnologia em organizações como Varig e Nike, a mudança de área é uma injeção de ânimo na trajetória da profissional.

“Meu trabalho tinha ficado fácil demais e sentia que meu potencial podia ser mais bem aproveitado se eu mudasse de área”, diz Andrea, que é formada em desenho industrial e pós-graduada em turismo e gestão de projetos. A mudança de mercado foi planejada. Andrea começou a fazer, em 2009, um MBA em marketing.

Este ano, viu num site de empregos a vaga que ocupa atualmente e resolveu se candidatar. “O fato de o anúncio não perguntar a formação me chamou a atenção.” O que a empresa exigia — experiência em mídias sociais e turismo —, Andrea tinha graças a suas realizações anteriores, quando atuou no planejamento de ações de web 2.0 para corporações e entidades governamentais.

Na entrevista de emprego, precisou detalhar um planejamento estratégico de marketing. As respostas rápidas e objetivas impressionaram os recrutadores. “Acho que conquistei a vaga com os detalhes e a objetividade nas respostas”, diz Andrea. 

Mudanças radicais de carreira, como a de Andrea, são cada vez mais comuns. Isso tem ocorrido porque existe uma limitação no número de profissionais disponíveis no mercado de trabalho e as empresas estão sendo mais criativas na hora de escolher seus funcionários, extrapolando a análise fria do currículo com base na formação.

Além disso, existe uma avaliação corrente entre executivos de recursos humanos de que é preciso olhar, com a mesma importância que é dada à formação, o “pacote” de competências que uma pessoa tem ou pode desenvolver (veja a reportagem de capa As 8 Atitudes de Sucesso). 


Essa mudança de mentalidade ocorre em companhias de gestão mais avançada, que investem no resultado que o profissional pode vir a produzir no médio prazo. “Tenho visto cada vez mais a empresa buscando profissionais para ela formar, considerando o segmento, o foco, o tipo de negócio e a cultura dela”, diz Adriana Prates, presidente da Dasein, que faz seleção de executivos, com sede em Belo Horizonte.

“A organização tolera uma demora para ter mais agilidade no começo em nome de uma consistência de resposta mais à frente.” Para Marcelo de Lucca, diretor da empresa de recrutamento Michael Page, de São Paulo, essa visão ainda tem limites. “Essa tendência está em desenvolvimento, pois a maioria das companhias ainda vê risco nesse tipo de contratação.

As áreas mais receptivas a essa movimentação são as de marketing, recursos humanos e vendas, que não demandam tanto conhecimento técnico”, diz Marcelo. “Porém, havendo paridade entre a vaga e a competência, a habilidade e a atitude do profissional, pode ser um ótimo negócio para ambas as partes.”

As decisões de carreira envolvidas são: quando vale a pena fazer uma mudança drástica de área? O que deve ser levado em conta em termos de crescimento e remuneração, por exemplo? Numa mudança desse tipo, salário deve contar pouco. Afinal, parte-se do princípio de que existe um investimento mútuo da organização e da pessoa na experiência.

A companhia está apostando que o profissional se desenvolverá e o indivíduo está priorizando uma mudança na carreira em busca de maior realização. “O salário raramente dá um salto. Há situações em que recua um pouco, até mesmo para aumentar depois quando o funcionário já estiver adaptado”, diz Adriana, da Dasein. Em quanto tempo a mudança produz resultados? A

conta é imprecisa. A reconquista da credibilidade e o reconhecimento que já se tinha na carreira anterior levam dois anos só para serem retomados, estima Adriana. Num cargo gerencial, a incorporação da nova carreira pode levar menos tempo. “Geralmente, o profissional passa a ter uma visão tanto sistêmica quanto global do negócio e é capaz de responder com mais velocidades aos desafios da área”, calcula Adriana.


Antes de mudar, porém, é preciso avaliar se é uma fuga ou um desejo de revelar novas potencialidades e se lançar a novos desafios. Mudar somente porque está numa fase infeliz da carreira tende a dar errado. Também não vale cada vez que se desentender com o chefe ou quando achar que o amigo está se dando bem em outro lugar.

Esse tipo de mudança torna a carreira instável e, como consequência, pode-se contrair a fama de profissional alpinista, sem comprometimento, que só se importa em aumentar o salário. Marcelo De Lucca, da Michael Page, alerta para a importância de conversar com quem já tem experiência na área.

“Não se pode mudar com uma visão romântica da nova área, pois toda profissão tem prós e contras que só quem exerce conhece.” Um bom conselho é se planejar antes de dar o salto, tanto em termos de preparação profissional quanto de poupança financeira.

“Como nunca havia trabalhado com RH, achei importante fazer uma pós-graduação para compensar a falta de experiência na área”, diz o engenheiro Harley Vieira, de 38 anos, gerente nacional da Weatherford, do segmento de petróleo, do Rio de Janeiro, que trabalhou com projetos de saneamento e consultoria de qualidade ambiental antes de largar tudo para estudar na Espanha. 

Voltando às origens

Se a experiência não der certo, há sempre a possibilidade de voltar às origens. E com um currículo aprimorado. O engenheiro eletricista Leandro Planca, de 28 anos, sabe o que isso significa. Logo ao sair da faculdade, começou a trabalhar na LSI, empresa de logística do Grupo Manserv, com sede em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo.

Empolgado pela onda de amigos que lidavam com tecnologia da informação, decidiu participar de um longo processo seletivo da consultoria Accenture e se especializou em melhoria e customização de sistemas de TI. A experiência não deu certo e pouco mais de um ano depois Leandro retomou a antiga trajetória de carreira.

Atualmente, é planejador de materiais na área de logística da Siemens. “Percebi que a carreira de TI não combinava com o estilo de vida que eu buscava e não hesitei em voltar”, diz Leandro. Aliás, se a mudança não deu certo, volte mesmo. “Engana-se quem pensa que a tentativa frustrada prejudica a trajetória profissional”, diz Marcelo, da Michael Page. Pelo contrário, um grande erro pode ser convertido em um grande aprendizado.