Milionários brasileiros contam como montaram grandes empresas do zero

Histórias de fundadores de companhias como Habib's, Localiza, Atacadão e Inpar mostram que o Brasil é um dos países com maior mobilidade social

Muito antes dos cursos que propõem atividades inusitadas a executivos, para ensiná-los estratégias de gestão, uma parcela dos empresários mais prósperos do país já se baseava em experiências bem radicais de vida para aprender a tocar seus negócios. Nesse grupo de empreendedores que partiram do zero e construíram empresas bilionárias há casos como o de Alberto Saraiva, dono da rede de comida árabe Habib’;s. Aos 20 anos, ele foi obrigado a assumir a velha padaria de bairro que pertencia à família, depois que seu pai foi assassinado num assalto ao próprio local. Teve que mergulhar no negócio e transformou um lugar quase falido na melhor padaria da região.

Nessa época, conseguiu tirar a família do sufoco financeiro em que viviam e aprendeu a estratégia que se tornou fundamental no seu negócio atual – vender a preços “extremamente baratos”. Hoje, no comando de uma empresa com faturamento de 900 milhões de reais, ele é um exemplo da amplitude da mobilidade social no Brasil – termo capaz de resumir o fato de que, apesar do enorme fosso entre ricos e pobres, o país é um dos que oferecem melhores condições de ascensão econômica, mesmo em comparação com nações desenvolvidas.

A conclusão já aparece em trabalhos acadêmicos, como o do sociólogo Carlos Ribeiro, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Num estudo comparativo, o pesquisador aponta que a possibilidade de um brasileiro ter melhores condições de vida do que a de seus pais é 4,5 vezes maior do que a de ele ter decaído, índice bem à frente do alemão e equivalente a mais que o dobro do registrado nos Estados Unidos.

Conheça a seguir um pouco da história de seis empresários que representam esse Brasil da mobilidade.

* Alberto Saraiva, dono da rede de comida árabe Habib’;s (leia aqui entrevista completa)

“Nasci em Veloza, uma aldeia no norte de Portugal. Meus pais viam que ali não tinham futuro e queriam uma coisa melhor. Vieram para São Paulo sem emprego garantido, com uma mão na frente outra atrás, sem dinheiro. Vieram sonhando com um futuro melhor. Fomos morar na Freguesia do Ó (zona norte paulistana), numa casa muito humilde, mas meu pai me carregava, ia comigo nas vendas. Ele às vezes fazia eu ir na frente para vender os doces, sempre me puxou para esse lado comercial”

“Em 1983, meu pai comprou uma padaria velha, ruim, com forno à lenha que demorava duas, três, quatro horas para fazer pegar fogo na lenha. E ele comprou na esperança de transformar a padaria numa padaria melhor. No 19º dia que ele tinha comprado, dois assaltantes roubaram e mataram o meu pai dentro da padaria. Foi uma tragédia. Depois, tranquei a matrícula da faculdade e assumi a padaria. Foi muito difícil. Teve até um momento em que pensei desistir. Ficava lá, via o buraco dos tiros, não tinha clientela, os padeiros me largavam na mão. Às vezes eu chegava de manhã e não tinha pão, tinha que buscar na padaria concorrente. Entrava pelos fundos e os clientes me viam chegar com o pãozinho. Passava uma vergonha desgraçada.

“Um dia decidi que ia mudar a minha vida. E aí parece que eu ganhei uma força extra. Fui para dentro da padaria e virei padeiro. Aprendi a fazer pão, a mexer no forno. Acordava e acompanhava o trabalho do padeiro. Comecei a entender de pão e nessa época, com as dificuldades da padaria, aprendi a maior filosofia que tenho que é vender a preço acessível, que é vender barato. A padaria começou a melhorar, eu entendia do assunto e comecei a trocar cara os equipamentos. A padaria acabou sendo a melhor do bairro. Nasceu ali essa parte comercial. Pensei comigo: quando eu tiver alguma dificuldade na minha vida já sei como resolver. Com o preço. Não barato, extremamente barato. Não justo, extremamente barato. Nunca mais esqueci disso aí e hoje aplico essa filosofia em todos os meus negócios.”

“O nosso país tem essa vantagem. Ele tem muitas opções de coisas. Na Europa está tudo feito, tudo planificado. É difícil ter chance, tem que trabalhar de emprego para subir na carreira. Aqui, é um país novo, que tem força, que tem oportunidade. Hoje a maior dificuldade de crescimento da minha empresa não é o dinheiro, é encontrar pessoas qualificadas para exercer os cargos de liderança. Eu tento qualificar as pessoas para ver se encontro 30, 40 pessoas que se destacam e que têm a mesma garra, a mesma vontade que eu.

 

 

 

* Afonso Celso de Barros Santos, dono das locadoras de carros Avis e Budget (leia aqui entrevista completa)

“Eu tive uma infância muito pobre. Vou ser honesto com você: perdi a conta de quantas vezes a minha família foi despejada por falta de pagamento de aluguel. Eu tinha uns 10, 12 anos. Desde que eu me lembro por gente vi que meus pais lutavam muito para pagar as contas de casa. Mas a luz de casa era difícil não cortar.”

“Cada irmão fazia uma coisa. Cada um foi para um lado para se virar um pouco. Mas ainda assim era insuficiente para complementar a renda. Aí a minha mãe me colocou para trabalhar no Bradesco como office boy. Eu lembro que não passei em nenhuma questão da prova de admissão. Acho que levei zero de matemática.”

“O maior problema para começar a Avis foi o capital inicial. Até aquela época eu só havia juntado 100 000 dólares. Era o único dinheiro que eu tinha. Se desse errado eu estava complicado. É muito pouco depois de 23 anos de serviço. Montei uma locadora com 21 carros e apenas quatro funcionários. Um anos depois, já tinha 200 carros. Este ano, vamos terminar com 18 000 carros.”

“Me considero uma pessoa que tem ambição. Sou um eterno descontente. Se você me perguntar se eu me considero realizado, respondo: “nem um pouco”. Infelizmente. Lembro quando eu atingi 100 carros e a minha mulher falou: “agora tá bom, né, Afonso?”. Eu respondi que não, que precisaríamos crescer mais um pouco. Quando cheguei em 1 000 carros ela falou: “agora, tá excelente”. Eu respondi que não, que ainda não estava bom.”

 

 

 

* Salim Mattar, dono da locadora de carros Localiza (leia aqui entrevista completa)

“Nasci em Oliveira, Minas Gerais, mas aos 17 anos eu mudei para Belo Horizonte, onde fui morar numa pensão. Eu era office-boy: buscava sanduíche, pagava título no cartório, ia ao banco. O salário mínimo era 84 moedas e eu ganhava 100 moedas. Não lembro qual era a moeda da época. Era 1,2 salário mínimo.”

“Um dia, ao pagar uma conta, como office-boy, fui ler a ota fiscal que me entregaram. Num bilionésimo de segundo eu fiz uma conta. Estava escrito ali: número de diária de Volkswagen tanto. Fiz uma regra de três se um dia custa x, 365 dias são 365x. Em voz alta, balbuciei na frente do dono da locadora: vou abrir um negócio desse para mim. Falei aquilo instintivamente porque seria mal-educado da minha parte falar aquilo. Eu jamais faria aquilo, que fluiu de mim. Ele perguntou: o que foi que você disse? Eu respondi que o valor do recibo estava correto. Não esqueci mais aquele negócio, eu tinha 17 anos de idade. A loja ficava numa avenida e, aos sábados, sentava num banco para ver os clientes chegar e sair. Para mim era alucinante.”

“Aos 21 anos fui transferido para uma outra empresa do grupo. Apesar da pouca idade, era gerente dessa mineradora e tinha 240 pessoas subordinadas a mim. Aos 23 anos, abri a Localiza com um sócio. A gente pensava muito grande, embora tivéssemos apenas seis carros comprados a crédito. Quando abrimos a empresa, a gente já trabalhava 24 horas. Imagine uma locadora 24 horas há 33 anos. Hoje Belo Horizonte não tem nenhuma locadora 24 horas, nem a Localiza”

“Naquela época a gente precisava de cliente, cada semana um de nós dormia no escritório. A gente se barbeava lá, tomava banho lá, almoçava lá. Na hora do almoço ia para uma outra sala, comia alguma coisa e continuava. Era eu que lavava os carros junto com o meu sócio. O cliente devolvia o carro, a gente recebia o carro. Quando o cliente saía a gente lavava o carro e depois colocava a gravata de novo para atender cliente. Quantas vezes fui motorista da Localiza. Às vezes algum cliente pedia carro com motorista e eu ia lá. Como eles não sabiam que o motorista era o dono, eles muitas vezes davam até gorjeta”

“Oportunidade existe em qualquer parte. Não importa se a pessoa abre uma pequena sorveteria e tem sucesso. Porque sucesso não é tamanho, mas ligado a realização. Às vezes ter a melhor padaria da região é um sucesso. Em todos lugares do mundo existem oportunidades. Vide o que tem de novos milionários e bilionários na China e na Rússia. Aqui na Localiza, estamos no meio de uma trajetória onde nós construímos uma grande base de um negócio”.

 

* Lírio Parisotto, dono da fabricante de CDs e DVDs Videolar (leia aqui entrevista completa)

“Quando eu era criança, não tinha muitos sapatos. O sapato era para domingo. Eu usava para ir para a missa, para ir ao baile. A gente tinha a roupa da roça e a roupa do domingo. Domingo era dia de ir para a capela, para a igreja. Fui para o seminário dos 13 aos 18 e depois fiquei um ano trabalhando na roça”

“Fui mandado embora de todos os empregos que eu tive. Em Brasília eu fui mandado embora porque o meu tio foi embora e eles me demitiram. Depois teve o frigorífico e em seguida um concurso do Banco do Brasil que eu prestei, mas aí eu já queria ser médico. Me disseram para ir na cidade e pedir transferência depois de seis meses e você consegue mudar para a cidade onde tem a universidade. Cheguei lá e todos os funcionários estavam esperando a mudança. Pensei comigo: não sou mais bonito que ninguém, não tenho ninguém para me ajudar e fui embora. Essa foi a decisão mais difícil da minha vida e só faltou o pessoal me internar.”

“Fui trabalhar como vendedor de toca-fitas. Eu deixava o rádio com as lojas, eles instalavam, vendiam e iam me pagando. Só que os donos da loja começaram a me dever dinheiro. O meu pequeno capital de giro começou a ficar comprometido porque eles me deviam 10, 15 toca-fitas. Até que um dia um deles me perguntou se eu não queria ficar com a loja dele. Eu pensei: que loja, que nada! Quero ser médico. Aquilo ali era para me sustentar. Como vi que não ia receber o que ele me devia, acabei ficando com a loja. A entrada foi o valor dos toca-fitas e o resto em 24 vezes. Veja bem: quando falamos de loja estamos falando de uma pequena instaladora de rádio com apenas dois funcionários.”

“Na verdade, nunca coloquei como objetivo de vida onde chegar. Porque eu não sei onde estou, se cheguei a algum lugar. Acho que estou começando, me sinto um eterno iniciante. Agora que eu resolvi dar uma parada para começar uma segunda parte da minha vida. A partir de primeiro de janeiro de 2008 a empresa vai ter um novo presidente. Estou saindo da companhia e vou estudar em Nova York.”

 

* Élio D’;Ávila, dono da agência de turismo Flytour (leia aqui entrevista completa)

“Sou o 14º filho de uma família de 15 filhos. Sou de Esteio, no Rio Grande do Sul. A minha mãe morreu no 15º filho de parto. Naquele momento, meu pai começou a dividir, a dar os filhos. Um dia ele me deixou, com três anos, na casa de uma irmã que havia se casado aos 14 anos. Ela me cortou o cabelo, me deu banho (dizem que eu andava atrás do meu pai todo cagado) e começou a me criar. Como ela havia se casado muito cedo, ela tinha problemas com o marido. O marido dela bebia muito. Aos oito anos, comecei a vender pastéis no período da tarde.”

“O marido da minha irmã chegava às 5, 6 horas da tarde e mandava buscar uma garrafa de pinga para ele, que tomava com laranja espremida. Aí ele maltratava a minha irmã, a mim. Foi quando eu fugi de casa pela primeira vez. Meu cunhado chegou em casa e eu sabia que ele ia beber de novo. Ele me deu a garrafa e o dinheiro para pegar pinga, como sempre. Joguei a garrafa fora e fugi com o dinheiro. Fui para o centro de Porto Alegre, só que eu tinha muito medo de ser preso pelo juizado de menores. De certa forma, eu já era um moleque de rua porque ficava a tarde toda vendendo pastéis numa caixa de marmelada, de goiabada.”

“Eu dormia na praça XV, na praça da Alfândega. Vendia o Última Hora (que depois mudou para Zero Hora) e usava o dinheiro para comer. O resto eu dormia no banco da praça. Até que fui preso, mas eu não queria voltar para casa. Fiquei lá uns três meses até que um dia o meu pai foi lá e gritou meu nome. Olhei para trás e me entreguei. Ele me levou embora para casa. Fiquei uns 3, 4 meses e fugi de novo. Só que eu não poderia ficar lá porque eu seria preso de novo, voltaria para casa e ia apanhar de novo. O que eu fiz? Fui para São Paulo, pegando carona.”

“Aos 12 anos, uns amigos me chamaram para ir ao Rio de Janeiro. Desci às seis horas da manhã e fui para a praia. Nunca tinha visto praia na minha vida. Dormi na areia até às cinco da tarde. Passei 14 dias num pronto-socorro em Botafogo por causa de queimaduras no corpo todo. Voltei para a pousada onde estávamos hospedados. Lá, meus amigos tinham dito para o dono que eles ainda não tinha pago a conta porque o dono do dinheiro estava no hospital. Quando eu voltasse resolveria tudo. Fugimos à noite pelo telhado e fomos para Copacabana. Não falava com a minha família, meu único mundo eram os dois. Comecei a lavar e guardar carro em frente ao Copacabana Palace. E fui fazendo amizade com os porteiros. Fiquei uns três meses lá, até que comecei a dormir numas habitações do hotel que são usadas pelos funcionários que chegam muito cedo ao hotel. Uns funcionários começaram a me apresentar para os guias turísticos que faziam os grupos. Eu cuidava das vans, dos carros. Até que um desses guias, Paulo Geraldo Silveira Tavares, me apresentou para a dona Stella Barros. E ela me convidou para ser office boy dela.”

“Falei com a dona Stella e ela resolveu me ajudar. Arrumou meus dentes, me ensinou a falar, comer, beber. Eu era daqueles que falava “muito mais melhor de bom”. Ela me ensinou tudo, era terrível. Eu já estava muito bem quando voltei para São Paulo, aos 17 anos. Já tinha ido para Porto Alegre umas dez vezes para visitar essa minha irmã. Trabalhei na Stella Barros de quase 13 anos de idade até os 17 anos. Isso foi em 1967. “

“Sei que não sou egoísta ou ganancioso. Sou um cara de fazer, gosto de realizar. O mais importante é terminar e recomeçar. Todo dia eu tive que recomeçar na minha vida. Nunca me vi como um cara de poder, mas sim como um cara de fazer. Recomeçar é isso: ter a visão no dia anterior. Eu tinha só um desafio de vencer, e não uma sede de poder. Sempre me apresento como office boy de luxo.”

 

* Alcides Parizotto, dono da imobiliária Inpar e fundador do atacadista de alimentos Atacadão (leia aqui entrevista completa)

 

“Na infância, eu tinha tudo o que precisava, mas as coisas mais simples. Como morávamos no interior, teve época em que meus irmãos mais velhos trabalharam na roça. Quando a coisa evoluiu, eles vieram para o comércio.”

“Eu sempre trabalhei com atacado, nunca tive varejo. Desde o primeiro dia, desde o começo. Aí eu recebi um caminhão de peixe. O meu depósito tinha uns 60 metros quadrados e eu estocava o queijo de um lado e o peixe de outro. Era peixe salgado, em caixa. O cheiro que exalava era horrível e eu dormia nos fundos. Tinha uma abertura no depósito para eu poder ver se acontecia alguma coisa. Eu quase dormia agarrado aos queijos porque eu tinha um compromisso de pagar aquela mercadoria, o quanto antes possível. Cuidava daquilo com o maior carinho do mundo.”

“No começo, eu encontrava os representantes das indústrias e dava um cartão meu. Contava o que estava fazendo e falava que queria comprar deles. Aí a pessoa fazia o meu cadastro e via que eu não tinha nada, não tinha bens. Nessa época eu tinha 25 anos e era muito jovem, tinha cara de menino. Um dia fui a uma das cooperativas filiadas à União, fazer uma visita. O presidente, que não me conhecia, perguntou se o meu pai estava satisfeito com os produtos que estava recebendo. Eu disse que ele estava feliz e me mandei, preocupado em que ele descobrisse que eu era o Alcides Parizotto. Hoje o jovem é prestigiado mas naquela época não era assim. Tinha que ter bigode, ser meio gordinho, casado e com filhos para merecer crédito.”

“A festa de inauguração da nossa primeira grande sede, em 1985, foi tão linda que congestionamos a Marginal Tietê. Tínhamos mais de 3 000 pessoas do Brasil inteiro, clientes e fornecedores. A mercadoria era tão bem estocada, que se chegasse no armazém e soltasse um prumo nas pilhas, não tinha diferença nenhuma embaixo. Não tinha bituca de cigarro, o piso brilhava. Imagina aquela pessoa que dormia no depósito de queijo e peixe lá em Maringá inaugurando um empreendimento desse. Foi um deslumbre. Outra mudança foi que colocamos 40 balconistas e, assim, também inauguramos a primeira loja de auto-serviço de atacado. O grande sucesso do Atacadão e da Inpar deve-se ao fato de o dono colocar a barriga no balcão.”

“- O senhor acha que teria chegado onde está se tivesse nascido num país que não o Brasil?

Não creio. O Brasil oferece oportunidade para quem se sente capaz de realizar alguma coisa. O que tem de coisa para ser feito pelo Brasil afora. Acredito que não teria o mesmo sucesso.”