Luz, câmera, empregos

Paulínia, no interior de São Paulo, é uma cidade com vocação para a atividade petroquímica, mas hoje abriga o mais completo polo cinematográfico do Brasil

São Paulo-  Como um profissional antenado nos movimentos do mercado de trabalho, certamente você já ouviu falar de Paulínia, uma cidade a pouco mais de 100 quilômetros de São Paulo, onde está instalado um imenso polo petroquímico que abriga empresas como Exxon, Shell e a maior refinaria da Petrobras do Brasil, companhias cobiçadas por muitos profissionais graças aos empregos, salários e benefícios que oferecem.

O que você talvez não saiba é que esse município de 85.000 habitantes está se tornando um novo polo gerador de trabalho num segmento bem diferente. Em vez de óleo e gás, Paulínia vem produzindo sonhos em seus estúdios de filmagem. A meta da cidade é se tornar o maior centro cinematográfico da América Latina.

Desde 2006, parte da arrecadação de impostos do polo petroquímico é transferida para o Fundo Municipal de Cultura. Em quatro anos, a indústria do cinema já recebeu mais de 100 milhões de reais, dinheiro que foi investido na construção de cinco estúdios de porte internacional — o maior deles com 1.200 metros quadrados e pé-direito de 12 metros.

O complexo inclui oficinas, estúdios de tevê e animação em stop motion, uma film commission (órgão responsável por oferecer suporte técnico, logístico e de pessoal para as equipes de produção) e a escola Magia do Cinema, que forma mão de obra técnica para as produções.

“Uma estrutura que gera divisas diretas de 25 milhões de reais por ano, com chances de crescer até 10% nos próximos dois anos”, diz Emerson Alves, secretário de cultura da cidade.

Com um investimento de cerca de 20 milhões de reais por ano em produções, Paulínia se transformou em uma das principais forças do cinema nacional, atraindo cineastas como Daniel Filho, do blockbuster Chico Xavier. “Divulgamos dois editais anualmente, com dez filmes a cada semestre.


Os estúdios sempre estão a todo vapor”, diz Marcos Kimura, diretor da Paulínia Film Commission. O segundo edital de 2010 irá distribuir 9,3 milhões de reais para filmes que sejam parcialmente ou totalmente rodados em Paulínia — uma das contrapartidas para levar o patrocínio. Os recursos vão beneficiar dez longas-metragens e dez curtas.

Opção para os jovens

Hoje existem dois filmes sendo rodados na cidade: A Última Estação, de Márcio Curi, e O Homem do Futuro, de Claudio Torres, estrelado por Wagner Moura. Há outras duas películas em fase de pré e pós-produção. Todo esse movimento significa demanda por mão de obra qualificada.

Segundo Marcos Kimura, algumas necessidades básicas dos cineastas estão nas áreas de direção, produção e arte. “Para cargos técnicos e de nível gerencial, como assistentes de arte, por exemplo, os salários iniciais oscilam entre 1 500 e 2 000 reais por semana”, diz.  

Há dois perfis bastante distintos de pessoas envolvidas no mercado cinematográfico da cidade: jovens de 18 a 25 anos, que estão em vias de escolher uma profissão, ou acabando de se graduar em áreas ligadas a TI, design, comunicação, publicidade e cinema.

Há também profissionais mais experientes, de até 45 anos, formados em diversas áreas e com expertises necessárias a esse segmento, como cameramen, engenheiros de som e administradores de empresa. “Há oportunidades para todos”, diz Marcos Kimura. 

Em Corações Sujos, superprodução inspirada no livro homônimo de Fernando Morais, foram recrutados profissionais de produção, arte, direção e elenco. De acordo com o produtor executivo, Caíque Ferreira, ter graduação em cinema ou publicidade ajuda, mas não é essencial.

Outro detalhe importante para se integrar ao mundo do cinema, à parte do óbvio amor pela arte, é ter um alto grau de desprendimento por uma carreira convencional. Para a consultora de RH Andrea Delmanto, quem trabalha nesse mercado está acostumado a ser remunerado por projeto, sem direito a férias, 13º e plano de carreira. Nem todos têm esse perfil, porém, muitos profissionais podem descobrir um nicho de oportunidade e abrir a própria produtora.


Foi o que aconteceu com o publicitário Thiago Ming e seu sócio, o cineasta Ricardo Picchi, ambos de 27 anos. Depois de atuar por alguns anos em seus respectivos mercados, em São Paulo (SP) e Curitiba (PR), eles decidiram abrir uma produtora na Hollywood paulistana.

“Nos especializamos em logística de produção e making of dos filmes”, diz Ricardo. Para Thiago, embora o investimento inicial tenha sido alto  em equipamentos e tecnologia, o empreendimento valeu a pena. “Temos uma boa carteira de clientes”, diz.

Caíque Ferreira, de Corações Sujos, faz uma ressalva importante: “A atividade de cinema é itinerante. Não importa muito de onde você é ou onde está fixado, mas sim o seu talento e sua capacidade de trabalho”. Para os prestadores de serviços, diz Caíque, a demanda existe. “Não faltam boas oportunidades.”