Lugar vago

Uma comparação entre os dois filmes Wall Street mostra que em 20 anos o modelo do líder absoluto desapareceu e nenhum outro surgiu para substituí-lo

São Paulo – No final dos anos 80, não havia melhor personificação do executivo de sucesso do que Gordon Gekko, o personagem principal do filme Wall Street: Poder e Cobiça (1987), dirigido por Oliver Stone.

Em um de seus papéis mais emblemáticos, o ator Michael Douglas era o retrato de uma época em que os fins justificavam qualquer meio, o politicamente correto não imperava e a ambição era fundamental para triunfar no mercado (e na carreira).

Milhares de executivos, inclusive brasileiros, adotaram a camisa azul de colarinho branco, inspirados no personagem. Gekko era o modelo a ser seguido por aqueles que desejavam ser os melhores, mesmo que, para isso, fosse preciso colocar a ética e a humanidade em último lugar.

Era ele, também, quem representava um estilo de liderança que, por muito tempo, ficou na moda: chefe arrogante, altamente especializado, despudorado e que não dava a mínima para o sentimento de seus subordinados — no filme, o corretor Bud Fox, interpretado por Charlie Sheen, que o diga.

Vinte anos depois, Gekko está de volta em Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme. Na sua versão século 21, recém-saído da prisão por fraude de valores e uso de informação privilegiada, Gekko usa sua fama e experiência nos bastidores do mercado para lançar um livro no qual mostra como os bancos e os corretores da bolsa agem e, quem diria, passa a dar conselhos e palestras a jovens profissionais que, com os certificados de MBA em mãos, estão à procura de um modelo de líder para seguir.

Jake Moore (Shia LaBeouf) é um deles. Inexperiente e brilhante, ele é um retrato da geração de profissionais nascidos entre o final dos anos 80 e 2000: idealista (aposta em uma empresa de energia limpa porque crê que pode fazer bem ao mundo), une a profissão às crenças pessoais e só consegue trabalhar bem quando atua com um chefe que realmente admira. O que não é fácil de encontrar no mundo financeiro. 

Crise de cifrões e de líderes  

Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme passa-se em 2008 e mostra os antecedentes que culminaram na última crise financeira americana, com bancos pedindo ajuda ao governo, instituições centenárias prestando socorro a concorrentes e a bolha do mercado imobiliário estourando


. O filme é, também, a representação de outra crise, a de liderança. Em um mundo em que os valores parecem mudar tão rapidamente quanto a cotação das ações, não há mais um modelo clássico de gestão a ser seguido. “O estilo de liderança é situacional, muda de acordo com os humores do mercado”, diz Anderson Sant’anna, professor de comportamento organizacional da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte.

Jake sente isso na pele quando perde seu mentor, Louis Zabel (Frank Langella), um corretor e chefe da velha guarda que ainda perdia tempo ensinando os detalhes da profissão aos jovens talentos de sua companhia e, o mais chocante, um profissional que realmente acreditava em seu negócio.

A crença era tão forte que, quando a crise o atingiu, Louis sucumbiu pessoalmente e afundou com o seu banco falido numa atitude drástica, o suicídio. Um caso raríssimo hoje em dia, tão incomum que Gordon Gekko chega a dizer que Louis era o último exemplar de sua espécie.

“No século passado, era comum que os empresários apostassem todas as fichas, até as pessoais, em seus negócios”, diz Anderson. “Por isso conseguiam motivar com mais facilidade os subordinados”, diz. 

Jake tem um sentimento comum a muitos profissionais: a solidão. Sem ter com quem compartilhar as dúvidas, inquietações e ansiedades, o corretor passa a buscar, desesperadamente, alguém que possa orientá-lo. Mas encontrar uma pessoa assim é tarefa árdua.

“Há cada vez mais subordinados órfãos de líderes, empregados que ficam sem saber como agir dentro das empresas”, diz Vera Costa, consultora executiva do Instituto EcoSocial. É isso o que acontece com Jake. No mercado, ele só encontra gestores que estão mais preocupados com eles próprios do que com suas equipes.

“Os líderes têm carreiras múltiplas, dedicam-se mais a parecer atraentes para o mercado do que a chefiar os anseios de seu time”, explica Anderson.


Quando Jake finalmente encontra um novo chefe, ele tem exatamente esse perfil. Bretton James (Josh Brolin) é um especulador ambicioso e individualista e é, segundo Oliver Stone, baseado em Jamie Dimon, diretor executivo do banco de investimentos JP Morgan Chase, um dos protagonistas da crise de 2009.

Na vida real, Dimon se deu muito bem. O JP Morgan foi um dos poucos bancos que passou pelo auge da crise sem sofrer grandes perdas e, de quebra, adquiriu o Bear Sterns, banco de investimento fundado em 1923 e um dos ícones de Wall Street. Voltando ao filme, interessado em conseguir mais dinheiro, mais parceiros e mais clientes, Bretton não se preocupa com a ética que deveria nortear seus negócios e suas atitudes.

E, tampouco, esforça-se para disseminar valores e harmonizar sua equipe. Para ele, quanto mais competição, melhor, tanto entre os subordinados quanto entre chefia e liderados. Numa cena emblemática, Bretton convida Jake a disputar uma corrida de moto para deixar bem claro que é ele quem manda, mesmo quando fica alguns segundos atrás de seus funcionários. 

Bretton representa o que há de pior dentro das organizações. Líderes pouco interessados em criar laços de confiança e que não se preocupam em agir com coerência. Isso ocorre, fundamentalmente, pela ausência de modelos — bons ou ruins — que indiquem caminhos de gestão a serem seguidos.

“Muitos chefes vivem o imediatismo das metas e não se importam mais em desenvolver valores pessoais e estilos de chefia”, diz Vera. E esse comportamento acaba sendo reproduzido pelos subordinados, que, com vontade de crescer na carreira, pensam que o melhor a fazer é dedicar-se apenas aos resultados e deixar de lado os problemas interpessoais, como seus chefes fazem.

“Os liderados normalmente copiam as atitudes de quem está acima deles”, diz Anderson. Por isso, a crise de modelo de liderança perdura e se transforma num círculo vicioso dentro das organizações. 

Quem não se deixa contaminar por essa falta de valores, como Jake, acaba buscando mentores fora das empresas. “É cada vez mais comum a projeção da figura da liderança ideal em amigos ou em profissionais admirados pelos liderados”, diz Vera. É o que faz o jovem investidor de Wall Street. Jake dá a Gekko a função de mentor.

Essa atitude, apesar de ser compreensível, pode levar a uma crise de valores se a escolha for precipitada. “Os subordinados precisam encontrar alguém com a ética semelhante para que a inspiração aconteça”, diz Vera. A crise é tamanha que, muitas vezes, o mentor escolhido não tem tempo, paciência ou disposição para ajudar o profissional órfão.

Jake que o diga. Ao eleger a ave de rapina do mercado como seu conselheiro, ele sente na pele que não há mais valores universais — a não ser, talvez, a ganância de se destacar no mercado a qualquer custo.  A grande lição de liderança aprendida por Jake é que, em Wall Street e em diversas corporações, os resultados ainda justificam os caminhos tortuosos para alcançá-los. Será que um dia isso mudará?