Lições para a felicidade

Padma Samten, o primeiro lama budista ordenado no Brasil, diz que somos bem diferentes do que está escrito em nosso cartão de visita

Durante muito tempo, ele foi Alfredo Aveline e ensinava física e filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Um dia caiu a ficha: o professor descobriu sua vocação espiritual, deu uma guinada surpreendente em suas atividades e tornou-se discípulo do budismo. Sua busca o levou até os grandes mestres, aqui e no exterior, culminando em 1996, aos 47 anos, quando se tornou o primeiro lama ordenado no Brasil (lama é a distinção reservada aos “sacerdotes” desse conhecimento, uma posição importante que apenas três outros brasileiros alcançaram). Surgiu, então, Padma Samten, um ativista da paz e do diálogo inter-religioso, amante do futebol, com endereço em Viamão, município a 30 minutos de Porto Alegre, mas que circula por todo o país e pelo mundo difundindo as idéias transformadoras de Buda. São princípios muito simples, que falam sobre trazer benefício a todos os seres, buscar a felicidade e afastar o sofrimento. Mas, como você vai ver nesta entrevista, servem também para entendermos melhor o dia-a-dia no trabalho, os desafios da profissão e da carreira e, com as bênçãos de Buda, aspirar a um lugar sob a árvore da economia no futuro.

Como o senhor define o budismo?

Vou lembrar de Sua Santidade o Dalai Lama, dizendo que todos os seres desejam a felicidade, desejam afastar-se do sofrimento. Esse é o ponto central de nossos movimentos. Quem trabalha, o faz porque deseja a felicidade, deseja afastar-se do sofrimento. Quem não trabalha, por opção, também deseja isso. Esse é o ponto central da nossa vida. E o budismo é um veículo para que a gente possa atingir esse objetivo.

É possível manter-se em outra tradição religiosa e praticar o budismo ao mesmo tempo?

Sim, não é necessário trocar uma pela outra. Isso é uma grande abertura. E não há dúvida de que a religião do futuro será assim — uma religião na qual o mais importante não seja a denominação, mas, sim, o conteúdo, a capacidade de produzir liberação. Um analista de marketing diria: “Essa postura é interessante”. Mas isso não brota como o “marketing do Dalai Lama”. Isso é o budismo, a essência do budismo.

O budismo pode ajudar alguém na profissão ou na escolha da carreira?

Tenho minha história pessoal. Muitas vezes pensei em me tornar um profissional, no sentido de ganhar dinheiro. Mas decidi pelos caminhos mais elevados, sempre. Abandonei muitas coisas — e não porque elas andassem mal. Eu apenas percebia possibilidades diferentes e ia seguindo. Essa foi, inclusive, a razão pela qual eu deixei a universidade. Eu achava que a física poderia me oferecer respostas sobre a natureza última das coisas. Quando vi que a física não tinha essas respostas, tive uma grande decepção. E a forma de ultrapassar isso encontrei na espiritualidade. A partir dessa descoberta, pedi uma licença na universidade e passei dois anos e meio fora, amadurecendo minha escolha.

Onde está, afinal, a tal da felicidade?

Veja, recentemente voei com a delegação do Santa Cruz [time recifense da Primeira Divisão], que na noite anterior havia perdido de 1 a 0 para o Grêmio aos 38 minutos do segundo tempo. Olhei o rosto dos jogadores e não sabia o resultado, mas adivinhei. Ninguém conversava com ninguém, estavam com cara de desgraça. O time estava próximo do rebaixamento, era uma situação difícil. Isso acontece com todo mundo. Fazemos um grande esforço de concentração, de organização, de recursos financeiros, mas de uma hora para a outra aquilo se fragiliza e perdemos tudo o que investimos. Temos de ter muito cuidado — esse é o ensinamento do Buda. Se investirmos em fontes de felicidade transitórias, nossa felicidade sempre será frágil. Não é que o problema do Santa Cruz fosse o Grêmio, ou o juiz, ou a bola que desviou. O problema do sofrimento dos torcedores e dos jogadores do Santa Cruz estava ligado ao tipo de universo, à forma como eles viviam a vida. As fontes de felicidade deles são muito incertas.

Isso deve valer também para os torcedores do Internacional…

Vale para todo mundo. O que acontece é que nenhuma de nossas identidades é verdadeira. Por exemplo, hoje você é advogado, mas em essência não é advogado. Você talvez reconheça que tem de fazer um esforço para se manter advogado. E existe uma energia por trás desse esforço. Quando você diz “vou fazer um esforço”, significa que vai canalizar sua energia, que vem do arroz e do feijão que você come, mas que é uma energia sutil também. Uma energia que necessita de foco. Nós somos, portanto, os construtores de nossas identidades.

Como fica o funcionário que veste a camisa da empresa, que se sente fazendo parte de uma família no trabalho?

É importante que ele perceba não ser aquilo que está escrito no cartão de visita. Ele é o que gerou aquilo. Ele é o brilho que sustenta aquela identidade — ele não é aquela identidade. Essa liberdade diante das nossas identidades é essencial para podermos passar pelas dificuldades. Porque elas nunca dizem respeito a nós mesmos: dizem respeito às nossas identidades. Nós nos associamos às identidades, e elas um dia entram em colapso. Mas nós não somos essas identidades.

Alguém é repentinamente demitido. O mundo cai. Isso é uma oportunidade de se ver diante de si mesmo, longe da ciranda das identidades?

Muitas vezes, sim. Mas, em geral, a pessoa simplesmente sente-se afogando. E vai se debatendo, debatendo gravemente, até o ponto em que consegue se agarrar a outra raiz — outro emprego. Aquilo funciona por um tempo. Mas depois ele de novo perde a força. Enfim, vamos estar sempre dentro de um rio de redemoinhos. Não há propriamente a possibilidade de escapar, a não ser que a pessoa vá para a margem.

É possível conseguir nadar até o fim?

Sim, mas em certo momento a pessoa vai confrontar-se com o seguinte questionamento: “O que fiz da minha vida? Comprei muitas coisas, vendi muitas coisas e nada me trouxe um sabor verdadeiro”. Então ela vai se lembrar das ações positivas que fez. No momento em que a vida cessa, só vamos nos lembrar daquilo que, no momento em que a gente o vivia, talvez não fosse o mais importante. A gente vai lembrar que deixou de fazer uma viagem para ficar com uma criança, de que usufruía de certa coisa e então a deu a alguém… E aquilo, finalmente, se revelará muito importante para nós. Então, as ações positivas são o que realmente a gente leva da vida.

Não corremos o risco de nos tornar bonzinhos demais num mundo onde uns passam por cima dos outros, puxando o tapete?

No budismo a noção de “bonzinho” também é uma identidade. Ser sempre sorridente, sempre concordar com os agressores, não é interessante. Aparentemente, esse é o único recurso dos bonzinhos. O problema é que eles ficam presos a uma identidade, começam a se crer bonzinhos, e aí são manobrados pelo agressor. E, às vezes, concordar com os outros e tranqüilizá-los também não é suficiente. Precisamos ter o desprendimento para nos colocar em marcha e ajudar os outros efetivamente — o que é bem mais do que apoiar e dar tapinhas nas costas para manter a identidade de bonzinho. Hoje, no mundo, temos muitas ONGs, muitas entidades e empresas trabalhando nessa dimensão. Essas organizações não só apóiam as pessoas como se voltam para promover uma transformação na vida delas.

Existe alguma técnica simples para enfrentar os desafios cotidianos?

Acalme sua vida. Não cause prejuízo aos outros, porque se você fizer isso eles vão persegui-lo. Quando, por exemplo, você sentir má vontade ou aversão em relação a alguém, sempre que encontrar essa pessoa você vai se sentir mal. Você pensa que está sendo esperto, porque tem aversão a esta ou aquela pessoa e tenta evitá-la ou ignorá-la. Mas, justamente porque tem essa aversão, cada vez que você encontra esse outro, você está sob seu domínio. A mera presença dele lhe estraga o humor, a energia. Então, faça uma listinha de todos os seres que lhe causam aversão e trate de não eliminá-los. Tente, sim, eliminar a aversão por eles. Às vezes confundimos isso. Alguém nos traz um sentimento negativo e a gente diz: “Preciso eliminar aquele ser”. Não é assim. Tente primeiro eliminar a aversão, o sentimento negativo.

O senhor vislumbra alguma carreira com boas chances de sucesso no futuro próximo?

Diria que todas as carreiras têm chances de sucesso. Nosso desafio hoje, em qualquer que seja a atividade, é manter a mente sintonizada em um contexto amplo. Em outras palavras, temos de reconhecer nossa atividade limitada como parte de uma grande rede. Os ecologistas já há bastante tempo dizem que é necessário pensar globalmente e agir localmente. Esse é o ponto.

Mas deve haver algum setor propenso a se privilegiar do momento histórico ou das mudanças econômicas.

Claro. Um nicho que não está sendo explorado é o de produção para o bem-estar das pessoas — e não apenas para aumentar escala. Por exemplo, a comida. É cada vez mais necessário saber quem produz o que comemos, de que forma aquele alimento está vindo até nós. No entanto, estamos avançando em outra direção, que é a de criar transgênicos para poder produzir em grande escala. Isso parece irresistível, mas não é necessário.

Isso parece um tanto simplista.

Mas é simples mesmo. Por exemplo, todos gostaríamos de contar com uma conexão social e humana em cada coisa que compramos. Quando vamos a um lugar turístico como Gramado, ficamos fascinados com o artesanato. Se visitamos as ladeiras de Salvador, nos deliciamos de ver pessoas fazendo sapatos de forma artesanal. Aquilo dá um sentido humano aos produtos, ao consumo. Então, existe hoje uma aspiração de que a economia volte a ter uma face humana. Quem perceber isso primeiro vai andar mais rápido, não há dúvida.