A hora dos profissionais de finanças é agora

O Brasil é o segundo país com mais contratações previstas para este ano — cargos nas áreas contábil e fiscal devem liderar a geração de vagas

São Paulo – O ano de 2014 deve ser movimentado para os profissionais da área financeira no país, segundo levantamento da Robert Half, empresa mundial de recrutamento especializado. Dos executivos financeiros brasileiros ouvidos pela pesquisa — ao todo, 2 535 profissionais de 17 países —, 63% pretendem aumentar seu quadro de funcionários ainda no primeiro semestre.

O país ficou atrás apenas da China, onde 69% dos entrevistados planejam expandir sua equipe de finanças. As principais justificativas para a ampliação da área financeira nas empresas brasileiras foram a presença de novos projetos ou iniciativas (81%) e a expansão de produtos ou serviços (51%).

“Apesar do rebaixamento do rating do país (em março, a Standard & Poor’s, uma das três principais agências de classificação de risco, baixou a nota do Brasil), os investimentos continuam aportando por aqui para a abertura de novos negócios ou a compra de empresas. Esse movimento faz com que surjam novas posições a todo momento”, diz Alexandre Attauah, gerente de finanças e contabilidade da Robert Half. “Este ano deve ser melhor em termos de contratação de pessoal da área financeira do que 2012 e 2013”, diz. 

Outro aspecto explica o bom momento vivido. A área de finanças, que engloba auditoria, controladoria, tesouraria, contabilidade e planejamento financeiro e estratégico, vem ganhando destaque nos últimos anos dentro das empresas.

“De uns cinco anos para cá, a área de finanças passou do simples papel de cuidar de despesas e custos para ser percebida como parte estratégica da geração de receitas ou, pelo menos, da busca por resultados”, diz Alexandre.

Um dos impulsos para o desenvolvimento da área no país foi a crise econômica mundial de 2008, segundo o diretor executivo da Michael Page, Henrique Bessa. “As multinacionais começaram a olhar com mais atenção para o Brasil. Grande parte das empresas nacionais que estavam sendo adquiridas não tinha as áreas tributária e contábil estruturadas e, muitas vezes, o executivo financeiro não falava inglês e não conseguia se reportar para fora.

Isso gerou uma demanda por profissionais qualificados”, diz Henrique. Na Michael Page, no primeiro trimestre deste ano, o volume de vagas abertas de finanças foi 15% maior do que no trimestre anterior.

Num ano atípico como 2014, com Copa do Mundo, eleições e uma previsão inicial de crescimento pouco acima de 1,6%, segundo o Boletim Focus, do Banco Central, posições voltadas para controle interno, riscos e processos capazes de melhorar a eficiência dos gastos estão em alta.

“Há uma apreensão quanto à economia brasileira, e isso leva as companhias a tentar melhorar seus índices de cobrança e recebimento. A busca por profissionais com esse objetivo deve continuar crescendo até o fim do ano”, diz Paulo Moraes, gerente executivo de finanças da Talenses.

Os favoritos

Para quem busca uma colocação em finanças, há vagas para todos os níveis, principalmente nas áreas fiscal e contábil (veja quadro). Os setores com maior oferta de empregos são serviços, com ênfase nas operadoras de cartão de crédito e internet; infraestrutura; bens de consumo e de capital; indústria farmacêutica; e agronegócio.

A Resource IT Solutions, empresa com 3 000 funcionários em 18 escritórios (quatro deles no exterior), teve uma expansão de 15% na área financeira nos últimos 18 meses. “A empresa tem crescido 20% ao ano, o que aumenta o risco operacional e traz uma preo­cupação maior com a governança corporativa.

Precisamos ter mais agilidade na informação para tomar decisões, eficiência de custos e competitividade”, diz o vice-presidente executivo, Solemar Andrade. Para os próximos 90 dias, a empresa projeta um crescimento de 10% na equipe de finanças.

Os profissionais selecionados vão trabalhar com auditoria interna, análise de processos, controladoria, gestão de custos e planejamento. Também serão recrutados profissionais com conhecimento nas questões fiscais e trabalhistas de outros países da América Latina.

O momento é especialmente positivo para profissionais juniores ou de base. “É grande a oferta para posições de analista, coordenador, especialista e os primeiros níveis de gestão, assim como para posições gerenciais”, diz Alexandre, da Robert Half. Além da facilidade para encontrar vagas, esses profissionais têm boas perspectivas salariais.

Segundo o Guia Salarial 2014 da Robert Half, a remuneração para o cargo de analista con­tábil, por exemplo, aumentou 25% em relação ao ano passado. “Esses profissionais não eram muito valorizados e estavam sub-remunerados. Como o mercado tem uma demanda grande e há um movimento de estruturação da área, ocorre esse aumento maior dos salários, principalmente na base”, explica Alexandre.

Um novo perfil

Apesar da alta procura, há dificuldade na contratação desses profissionais. A pesquisa Escassez de Talentos, realizada pelo ManpowerGroup no ano passado, apontou finanças em terceiro lugar entre as dez carreiras com maior dificuldade para o preen­chimento das vagas, atrás apenas de técnicos e operadores industriais.

“Não é fácil achar esse profissional porque ele não pode mais ser um simples contador ou controller, que apura os dados e dá uma visão analítica. Ele deve enxergar a operação como um todo e fazer leituras de como os custos e a eficiência impactam o resultado final.

Além das competências financeiras, ele precisa saber lidar com formação de preços, algo que já está na esfera comercial”, detalha Márcia Almström, diretora de recursos humanos do ManpowerGroup no Brasil.

Fica o alerta para quem quiser aproveitar as oportunidades da área: terão vantagem profissionais versáteis e atualizados quanto às novas demandas do mercado.