Gestão fome zero

As grandes decisões nascem em almoços de negócio

A situação da empresa era grave. E gravidade requer decisões urgentes. Por isso, o CEO decidiu convocar a diretoria para uma reunião emergencial. E o local escolhido não poderia ser mais apropriado: um restaurante. Era uma maneira de aliviar a enorme carga de estresse que vinha pairando sobre os ombros dos diretores. Uma vez juntadas oito mesas para acomodar os 13 diretores presentes, fez-se aquele silêncio reverencial, e o CEO prontamente deu início aos trabalhos:

— Vamos tentar não perder tempo. Todos vocês estão a par do momento crítico pelo qual estamos passando. Mas não viemos hoje aqui em busca de justificativas. Viemos para encontrar respostas adequadas. Vamos então começar pela grande questão…

— Aperitivos?…

Era o garçom. O CEO abominou a interrupção, mas recuperou a compostura ao perceber que aquela seria uma excelente oportunidade para dar à reunião o tom de despojamento que a situação exigia:

— Se todos concordam, sugiro que aproveitemos ao máximo nosso tempo. Pedimos duas garrafas de uísque e vamos nos servindo nós mesmos.

O assentimento foi coletivo, numa demonstração de que o grupo estava unido pelos mesmos propósitos. E as palavras seguintes do CEO resumiriam com perfeição o pensamento geral:

— Chivas, 12 anos.

— Sim, senhor.

— Muito bem… Continuando, os resultados do último trimestre foram desastrosos. Como todos sabem, tínhamos um plano operacional que previa uma lucratividade líquida de 12% este ano. Mas aconteceu exatamente o contrário do que esperávamos e… O que você está fazendo aí parado, garçom?

— Couvert?…

— De jeito nenhum! Estamos aqui a trabalho. Traga só umas porções de azeitonas gregas. Graúdas.

— Certo.

— E queijo gruyère.

— Pois não.

— E agora, se você nos permite, temos assuntos relevantes para tratar.

— Sim, senhor. Com licença.

Foi quando o diretor de marketing solicitou permissão para falar em nome da equipe:

— Podemos acrescentar um patê de foie gras e umas torradas dinamarquesas?

— Sem dúvida — concordou, magnânimo, o CEO, que havia feito um curso de gastronomia motivacional. E aí, sem mais delongas, solicitou ao diretor financeiro que informasse a primeira medida constante no “Programa de Gestão Contingencial de Curto Prazo”.

— Os caros colegas de diretoria não vão acreditar, mas minha área fez um levantamento exaustivo e descobriu que nossa empresa gasta quase 18 000 reais por ano com café para os funcionários! Vou repetir. Dezoito mil reais!

Foi um choque. Realmente, ninguém tinha idéia de que o desembolso em café fosse tão vultoso. Até os demais clientes do restaurante ficaram estupefatos. Estupefação que seria abruptamente interrompida por uma pertinente observação:

— Os senhores querem ver a carta de vinhos?

Aquela nova investida do garçom permitiu ao CEO comentar que, se uma política de austeridade estava começando a ser implantada naquele momento, ela tinha de valer para todos, a começar pelos presentes. Por isso, evitou pedir o vinho mais caro da carta. Pediu o segundo. Com ênfase na pronúncia do francês. A medida teve um efeito psicológico imediato, tanto que, por unanimidade, os diretores votaram por cortar o café dos funcionários.

O assunto seguinte era uma tesourada na verba de treinamento e desenvolvimento. A empresa vinha gastando uma fortuna em cursos de aperfeiçoamento profissional. Não que aquilo não fosse necessário, muito pelo contrário. Mas há momentos em que certas decisões se tornam inadiáveis. E era exatamente o caso daquele momento, porque o garçom começara a distribuir os cardápios. O CEO, para dar o exemplo, pediu um frugal carpaccio de salmon e um mísero suflê de camarão, no que foi acompanhado por todos, exceto pelo diretor de sistemas, que tinha problemas gástricos quando ingeria frutos do mar, razão pela qual todos concordaram em cortar em 75% os gastos com treinamento e desenvolvimento.

O tópico seguinte dizia respeito ao desligamento de todos os estagiários e ao cancelamento do programa de trainees. Como bem ponderou o diretor financeiro, um trainee custava quase 700 reais por mês para a empresa, algo incompatível com as medidas austeras que estavam sendo consideradas. Ao ouvir tal cifra, o pessoal quase engasgou com as trufas au liqueur que haviam sido servidas como sobremesa, motivo mais que suficiente para que todos os estagiários e trainees fossem defenestrados.

E foi então que se iniciou a parte mais delicada da reunião: a terceirização de algumas funções ocupadas por funcionários efetivos. Aquilo geraria uma economia substancial, é verdade, mas, por outro lado, resultaria na demissão de várias pessoas com longos anos de casa. A polêmica atingiu tal nível de pressão que o diretor industrial mal tocou em seu digestivo de apricot. Apenas após 40 minutos de ardentes argumentações foi possível chegar a uma conclusão, já que dois diretores tinham pontos de vista discordantes e não queriam abrir mão de suas convicções. Mas, finalmente, prevaleceu a opinião do diretor de marketing, que fez uma veemente e apaixonada argumentação de 38 minutos defendendo a degustação dos charutos Montecristo. A outra decisão, a das demissões, foi tomada nos 2 minutos restantes.

O encontro se encerrou com uma última e importante decisão: a próxima reunião de diretoria, dali a um mês, na qual haveria a avaliação dos primeiros resultados práticos das medidas tomadas, também seria feita num restaurante. Só que num restaurante mais próximo do escritório, o Summit. Porque — como sabiamente ponderou o CEO:

— Nos momentos de grande austeridade, os funcionários da empresa tendem a ficar mais sensíveis. Por isso, o exemplo deve vir de cima!

E essa era a vantagem do Summit: ele ficava na cobertura do prédio.