Fumantes e obesos: vai ficar mais difícil

Manter fumantes e gordinhos sai mais caro para a empresa. Esses dois fatores serão levados em conta na hora de contratar

São Paulo – Nos últimos anos, a gestão de custos nas empresas se tornou uma obsessão. Para obter resultados ainda melhores, as organizações enxugaram suas estruturas, investiram em tecnologia e melhoraram a produtividade. Agora, executivos de finanças e recursos humanos passaram a examinar as despesas de saúde com maior rigor.

Gordinhos e fumantes entraram no radar deles. Há uma estatística com a qual as seguradoras de saúde e previdência trabalham que mostra que 20% dos empregados de uma companhia consomem 80% do orçamento para a saúde. Nesse grupo dos gastões estão justamente os que fumam e os obesos — ambos estão mais propensos a desenvolver doenças crônicas, cardíacas e pulmonares.

Por isso, há quem acredite que as empresas vão ficar mais criteriosas no processo de seleção quando depararem com candidatos acima do peso ou fumantes contumazes. É o que diz o presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), Alberto Ogata.

“Calcula-se que o Brasil possa chegar aos níveis americanos de obesidade em dez anos e isso trará impactos enormes na produtividade e nos custos com saúde das organizações”, diz. Em 2009, três em cada dez americanos adultos eram considerados obesos. No Brasil, atualmente, um em cada dez adultos está acima do peso. 

Algumas empresas já sentem no caixa o alívio trazido pelos investimentos feitos na redução da obesidade e do tabagismo. A ArcelorMittal Tubarão, no Espírito Santo, por exemplo, economizou 30 milhões de reais com despesas médicas depois de reduzir de 30% para 0,10% o número de fumantes entre os seus 4.900 funcionários, de 1992 a julho deste ano.  

“A empresa não deixa de contratar quem fuma, mas no processo de seleção o candidato é avisado que é proibido fumar em qualquer área, mesmo aberta”, diz Fernando Ronchi, gerente de medicina e saúde. Uma pesquisa publicada em outubro pela sociedade médica American College of Occupational and Environmental Medicine, dos Estados Unidos, mostra que funcionários com sobrepeso podem custar adicionais 322 dólares anuais à organização, no caso dos homens, e 797 dólares, no caso das mulheres.

Esse custo extra sobe para 6 087 dólares anuais entre os homens com obesidade mórbida e 6 694 dólares entre as mulheres. Um fumante custa em média 600 dólares a mais por ano. Nesse cálculo estão contabilizados os afastamentos e as faltas relacionadas às doenças associadas à obesidade e ao tabagismo.

Mais gordinhos

Nos Estados Unidos, a nação mais “cheinha” do mundo, o tabagismo e a obesidade entre trabalhadores preocupam as entidades de defesa de direitos humanos. Elas temem que a saúde dos candidatos a uma vaga de emprego seja cada vez mais escrutinada pelas companhias, preterindo na seleção os adeptos do cigarrinho durante o expediente e os gordinhos.

Se depender da opinião dos americanos pesquisados pelo Instituto Gallup, isso não vai demorar a acontecer. O levantamento, feito neste semestre, mostra que um em cada quatro recrutadores estaria menos propenso a contratar alguém que fuma e quase um a cada cinco faria o mesmo no caso de uma pessoa obesa. A preocupação de Alberto Ogata, da ABQV, com a situação brasileira é embasada nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (veja tabela População Mais Obesa). 

Em 2004, cinco anos antes de aprovada a primeira lei estadual que restringiria o fumo em ambientes públicos, já havia pesquisas mostrando os custos extras para a organização advindos dos fumantes (leia mais sobre o assunto acessando pelo celular o conteúdo do site). Então, o que mudou nesses anos?

A preocupação com os custos está mais evidente, garante Ana Maria Beckmann, diretora da consultoria Executiva RH, que faz recrutamento de profissionais nas regiões Norte e Nordeste. “As companhias não querem mais fumantes”, diz. Ela afirma que cerca de 30% das empresas quando se deparam com um candidato muito acima do peso não contratam o profissional.

Isso fica mais evidente quando a companhia vende uma imagem saudável. É o que diz Vladimir Araújo, diretor de projetos da Ricardo Xavier Recursos Humanos, consultoria de RH, em São Paulo. Essa é uma questão que certamente provocará maior discussão à medida que os índices de obesidade do país continuarem subindo. “Acho que a tendência é que vençam os defensores de vida saudável, com o corte de custos como pano de fundo.”

Empresas como a Dow Química, que baixou 7% do número de fumantes e 18% do de obesos, garantem que continuarão recrutando sem distinção. “Buscamos melhorar efetivamente a saúde das pessoas”, diz Maria Lúcia Bechara, gerente médica.

“Não vamos diminuir o que é investido em saúde, portanto, não vejo sentido em falar em restrições a obesos e fumantes”, diz Luiz Carlos de Miranda Junior, gerente do departamento de segurança, saúde e qualidade de vida da distribuidora de energia CPFL, que, por enquanto, só tem uma restrição ao excesso de peso. Por segurança, os eletricistas não podem pesar acima de 120 quilos, carga tolerada pelas escadas de manutenção da rede elétrica.