Ser anjo de startup ficou mais fácil para executivos

A compra de pequenas participações em novas empresas, com aportes a partir de 80 000 reais, virou uma opção de investimento para executivos e profissionais liberais

São Paulo – A advogada Camila Farani, carioca de 31 anos, sempre teve boa parte dos investimentos em uma carteira de renda fixa. Mas isso contrariava seu perfil. Camila gosta de arriscar, e os CDBs, a caderneta de poupança e o Tesouro Direto não lhe diziam muito. Só deixava sua reserva em investimentos conservadores porque nada mais no mercado lhe agradava.

Nem a bolsa, que, apesar do alto risco, não vinha entregando bons resultados. Mulher de negócios, Camila toma decisões rápidas, fala com assertividade e não tem medo de errar. Sofre de insônia e aproveita as noites em claro para repensar estratégias, fazer contas e organizar as finanças. 

Camila se tornou sócia da empresa da mãe, a Boxx, especializada em alimentação coletiva, cafeterias e eventos na cidade do Rio de Janeiro. Ela poderia ser só mais uma herdeira no mundo dos negócios, mas resolveu investir e ousar nas aplicações.

Há três anos, chamou a atenção da rede de produtos naturais Mundo Verde, que a convidou para ser sua diretora executiva. Ao mesmo tempo, um amigo lhe ofereceu a chance de virar um investidor-anjo — a pessoa que investe em startups.

Camila achou a ideia interessante e foi ver como funcionava. “Aceitei o risco”, diz. De cara, ela investiu cerca de 300 000 reais em cinco empresas de pequeno porte, porém com grande capacidade de crescimento, em áreas como hotelaria e nutrição, cujo segredo era a inovação tecnológica. “Eu queria fugir da renda fixa, a bolsa está sem graça e acabei entrando no mundo dos profissionais que investem em pequenos negócios”, diz Camila.

 A advogada carioca está entre os mais de 6 300 investidores que procuraram uma alternativa às aplicações de mercado. O curioso é que há pouco mais de três anos era preciso pelo menos 500 000 reais para poder investir como anjo. Esse tíquete médio de entrada caiu sensivelmente, o que possibilita a entrada de mais gente. E as pessoas estão chegando.

Engenheiros, advogados, administradores, publicitários e até empreendedores resolveram apostar nessa história, mas sem abandonar sua profissão. O cenário incerto da bolsa, que apresentou crescimento de 1% em 2010, queda de 18% em 2011 e rentabilizou só 7% no ano passado, contribui para isso. Na impossibilidade de ganhar grana com a compra e venda de ações, a saída é buscar alternativas — com alto risco também, é certo — para ganhar dinheiro.


Há uma boa diferença entre o investidor-anjo e o investidor tradicional, conforme explica Cassio  Spina, fundador da ONG Anjos do Brasil, em seu livro Investidor-Anjo (Editora nVersos). O anjo é uma pessoa física que coloca parte de sua reserva em uma nova empresa. Ele aplica e acompanha o desempenho do empreendedor.

Pode ser mais ativo (participar de reuniões, prestar consultoria, acompanhar o balanço) ou passivo (apenas se informar por e-mail). Já o investidor tradicional, aquele que compra um título de banco, por exemplo, tem uma relação mais capitalista e distanciada da aplicação. Em geral, esse investidor atenta só para o resultado financeiro. Ele tem uma ideia de como a carteira é composta, mas normalmente desconhece o nome do gestor do fundo.

Nos últimos anos, cresce mais expressivamente o volume de dinheiro aplicado por essas pessoas no país. Segundo levantamento da Anjos do Brasil, profissionais liberais, executivos e alguns pequenos fundos injetaram 495 milhões de reais em empresas de pequeno porte no ano passado. Isso representou um crescimento de 10% sobre 2011.

Nos Estados Unidos, berço desse tipo de investimento, os números são bem mais gordos. De acordo com dados da Angel Capital Association, 225 000 investidores-anjo investem cerca de 20 bilhões de dólares por ano. A verba é destinada a 55 000 negócios que estão abrindo as portas ou em estágio inicial de operação. 

Foi por causa desse cenário que Camila optou por essa modalidade de investimento. Além do sobe e desce da bolsa, outro ponto contou a favor. “Gosto de acompanhar minhas empresas de perto. Sou uma investidora bem ativa”, diz a advogada. Camila também está atenta a pesquisas que mostram que, de cada grupo de cinco empresas pequenas, três quebram, uma oferece um retorno pífio e a quinta dá lucros surpreendentes, de até 50 vezes o que foi investido nela própria.

“E o melhor é que ninguém precisa injetar milhões de reais em uma operação. Vale a pena, ainda que o retorno demore cinco anos ou mais e o risco seja grande”, afirma. Hoje sua carteira está distribuída da seguinte forma: apenas 30% em renda fixa e o restante em empresas pequenas. E ela ainda encontra tempo para comandar a Boxx. “Faço as duas coisas que mais gosto: empreender e arriscar.” O que, no fundo, no fundo, é a mesma coisa.