Siga o exemplo de trainees vencedores em seleções

Esses trainees colecionam aprovações nos programas mais concorridos do país. Saiba como eles chamaram a atenção dos recrutadores e como se prepararam para as seleções

São Paulo – O que têm em comum os candidatos que saem vitoriosos das seleções de trainees, superando dezenas de milhares de concorrentes? O que fazem para conquistar a atenção de tantas empresas e ser disputados nos processos seletivos dos maiores programas?

Engana-se quem pensa que a resposta está num currículo perfeito, marcado por uma graduação numa faculdade de renome e conhecimentos avançados em outros idiomas. Depois de conversar com alguns desses trainees campeões, a VOCÊ S/A apurou que esses itens — quando presentes — tiveram algum peso, mas, na opinião unânime dos candidatos, não foram decisivos para a aprovação.

Em todos os casos, a atitude e a forma como se prepararam para a seleção parecem ter tido peso maior. A seguir, saiba o que os próprios candidatos consideraram decisivo para a sua aprovação e como eles se prepararam para a maratona de testes e entrevistas da seleção. 

“Conheça a fundo o processo seletivo”

Jarbas de Biagi, 24 anos, trainee de vendas da Nestlé

Aprovações: em sete programas, oferecidos por bancos, indústrias químicas, de papel e de alimentos. 

Diferencial: habilidade para lidar com a diversidade cultural. Formado em administração pela Universidade de São Paulo, campus de Ribeirão Preto, e com inglês avançado, Jarbas atribui o bom desempenho nos programas de trainee ao amadurecimento pessoal proporcionado por um intercâmbio de seis meses na Austrália.

“A experiência internacional contribuiu muito para o meu processo de autoconhecimento, me ajudou a colocar a cabeça em ordem”, diz. Ele também atribui o alto índice de sucesso ao fato de ter conseguido convencer os recrutadores de que era alguém preparado para lidar com a diversidade de pessoas e culturas.


“Já havia trabalhado num banco, atendendo pessoas diferentes, com problemas diferentes. Também trabalhei voluntariamente na recepção de intercambistas de uma rede internacional de estudantes”, diz. 

Preparação: conhecer a fundo a mecânica do processo seletivo. Quanto à preparação para o processo seletivo, Jarbas opina que é crucial conhecer a fundo a mecânica da seleção de cada organização para a qual se candidata.

“No meu caso, procurei conversar com ex-trainees para saber como funcionou o processo em anos anteriores e quais são os assuntos que eu poderia versar, analisando os negócios da empresa”, diz Jarbas. 

A dica: pesquisar artigos acadêmicos sobre as possíveis temáticas dos cases. Pensando nos possíveis assuntos que poderiam ser abordados nos cases (problemas de negócios apresentados aos candidatos a trainee), o jovem pesquisava na faculdade artigos acadêmicos publicados a respeito da temática.

“Um artigo que li sobre a logística de distribuição de alimentos perecíveis me ajudou a embasar e enriquecer meus comentários nas minhas apresentações”, diz. “É muito importante conhecer não só a empresa, mas as grandes questões do segmento em que ela atua, e até o que a concorrência tem feito.”

“Invista no marketing pessoal”

Carolina Nishiyamamoto, 27 anos, executiva de vendas da 3M

Aprovações: em quatro programas, entre bancos, empresas de comunicação e indústrias de papel. Também chegou à final da seleção de outros dez programas, que abandonou voluntariamente. 

Diferencial: bom marketing pessoal. Carolina não tem um currículo de elite. Também não tinha nenhuma experiência internacional quando decidiu se candidatar aos programas de trainee. Segundo ela, seu grande trunfo na seleção foi usar seus possíveis pontos fracos a seu favor.


Antes de se formar em engenharia química pela Unicamp, Carolina chegou a cursar comunicação na Universidade de São Paulo. “Apresentei isso aos recrutadores como sinal da minha interdisciplinaridade e versatilidade”, diz. A forma como aprendeu inglês (sozinha) também foi apresentada como um diferencial.

“Falei de minha origem japonesa e da cultura da dedicação e do esforço que existe em nosso meio.” Em sua opinião, também contou positivamente o fato de ter trabalhado desde cedo, a partir dos 16 anos, em áreas diferentes, como marketing e engenharia. “Muita gente chega às entrevistas com um currículo perfeito e muita teoria. Eu cheguei com muitas experiências e exemplos concretos para dar.”

Preparação: a preparação de Carolina para os processos seletivos envolveu muitas visitas a feiras de recrutamento de trainees. “Visitar os estandes, conversar com profissionais, conhecer de fato a organização, isso faz muita diferença”, diz.

Sua experiência de ter trabalhado em empresas juniores durante a faculdade, uma situação que a obrigava a dar palestras, também ajudou na autoconfiança nos painéis de negócios e nas entrevistas das seleções de trainees. “Ganhei desenvoltura para falar em público, o que me ajudou muito.”

A dica: use os pontos fracos a seu favor. Para ela, o grande conselho para aqueles que sonham com uma vaga de trainee é procurar se diferenciar dos demais. “Depois da dinâmica, todo mundo tem o currículo muito igual. E tende a dar as mesmas respostas ensaiadas, como dizer que os principais defeitos são ansiedade e perfeccionismo. Eu sempre me perguntava como poderia me diferenciar para ser lembrada positivamente”, afirma. “No meu caso, fiz dos meus possíveis pontos fracos minhas maiores qualidades.”

“Aposte no coaching e no autoconhecimento”

Luís Artur di Siervo, 25 anos, trainee da Rhodia

Aprovação: em dois programas, na indústria química e de mineração e metalurgia.

Diferencial: dinamismo. Do ponto de vista do currículo, Luís Artur acredita que pesaram a seu favor o fato de ter estudado boa parte da infância e da adolescência numa escola alemã e o de ter três idiomas fluentes: inglês, alemão e espanhol. A experiência de vida proporcionada por um intercâmbio na Inglaterra também contou positivamente.


Mas Luís ganhou os recrutadores ao demonstrar suas competências pessoais, apresentando-se a eles como um candidato proativo e dinâmico, capaz de assumir responsabilidades e se envolver em várias atividades ao mesmo tempo.

“Trabalhava na entidade que promove jogos e eventos esportivos na minha faculdade; participava do diretório acadêmico promovendo campanhas e palestras, e também trabalhei na comissão de formatura”, exemplifica. 

Preparação: um ano de processo de coaching. Quanto à preparação, o engenheiro de produção, formado pela Facamp, de Campinas, São Paulo, considera que seu diferencial foi ter tido a oportunidade de contar com um coaching no último ano da faculdade, período em que recebeu feedback personalizado sobre as habilidades que precisava trabalhar e desenvolver.

“Constatei, por exemplo, que sou impaciente. Para que isso não se transforme em mau humor, aprendi a investir no planejamento, evitando situações como reuniões longas e preparando uma pauta objetiva”, diz. 

A dica: buscar o autoconhecimento. Luís Artur acredita que o autoconhecimento proporcionado pelo coaching o deixou em vantagem em situações como as dinâmicas de grupo e os painéis de negócios da seleção. “

Quem se conhece bem fica mais confortável nesses momentos, está mais equilibrado, trabalha melhor em equipe e tem maior capacidade de adaptação. Os recrutadores percebem isso”, diz.

“As empresas buscam profissionais cada vez mais completos — que sejam líderes, tenham conhecimento técnico, boa capacidade de relacionamento. Quem passa por um processo de autoconhecimento consegue isso mais facilmente, porque identifica suas debilidades e tem a possibilidade de tentar se fortalecer nesses pontos”, afirma Luís Artur. 

“Saiba mais sobre a empresa do que seus concorrentes”

Sâmara Cardoso, 22 anos, trainee da Braskem

Aprovações: em três programas de organizações do setor químico e petroquímico. 

Diferencial: capacidade de trazer resultados. A engenheira química, formada pela Universidade Federal da Bahia, acredita que seu diferencial foi ter mostrado aos recrutadores que ela já havia trazido resultados concretos em outras experiências profissionais e que tinha condições de fazer a diferença como trainee.


Para isso, ela dava como exemplo um projeto do qual participou durante seu estágio, que permitiu aumentar a eficiência de sua área na companhia e lhe rendeu uma certificação em Seis Sigma, metodologia que prega redução de custos e de tempo para aumentar a eficiência. 

Preparação: conversar com colaboradores da organização para conhecer a fundo sua cultura e seus planos. Nas entrevistas, Sâmara procurou deixar claro que tinha foco e que aquela companhia em particular estava em seus planos. Para isso, sua preparação envolveu pesquisar a fundo o mercado, os desafios e os planos das empresas que lhe interessavam.

Se a maioria se limita à pesquisa na internet, Sâmara foi atrás de outras fontes. “Conversei com funcionários e ex-funcionários para ter uma percepção mais clara da cultura corporativa e do negócio. Também li reportagens em revistas. Assim, quando um recrutador me perguntava por que eu queria aquela empresa e não outra, eu tinha elementos para responder: ‘Porque foi eleita uma das melhores para iniciar a carreira e a melhor indústria petroquímica para trabalhar'”, diz Sâmara. 

A dica: Complementar a formação para contornar seus pontos fracos. A preparação da jovem também envolveu identificar suas fraquezas e procurar trabalhá-las.

“Nós, engenheiros, costumamos ser muito bons com números, mas não tão bons com relações interpessoais”, admite Sâmara. Para contornar essa debilidade, Sâmara está matriculada, desde o ano passado, numa pós-graduação em gestão de pessoas.

“Isso mostrou aos recrutadores que eu me conhecia e estava preocupada em melhorar minha habilidade de relacionamento. Afinal, dentro de uma organização não basta ter o melhor projeto; é preciso convencer as pessoas de que ele é bom, para que a ideia se concretize”, afirma.