Executivos de alugel

Pendurar as chuteiras? Ainda não. Cooperativa ajuda profissionais tarimbados a mostrar seu valor

Antonio Carlos da Silva é um executivo com grande experiência profissional. Formado em administração de empresas e pós-graduado em marketing, passou os últimos 20 anos em multinacionais do setor de autopeças. Reúne, em princípio, todas as condições para ser um talento cobiçado por muitas organizações. O problema é que Antonio Carlos enfrenta os preconceitos do mercado. Ele tem 54 anos. No final de 2000 foi dispensado da Plascar, empresa em que trabalhou por cinco anos e ocupava o cargo de diretor comercial. Para muitos que já viveram situação semelhante, a conclusão parece definitiva: é hora de pendurar as chuteiras.

Antonio Carlos, no entanto, recusa-se a ir para casa, vestir o pijama, sentar-se diante da televisão e esperar a vida passar. “Ainda tenho muita lenha para queimar e posso continuar ajudando as empresas com o meu talento”, afirma. Consciente de que uma recolocação nos moldes tradicionais, com carteira assinada e os benefícios garantidos pela CLT, seria algo muito difícil, ele optou por um caminho alternativo: tornou-se um profissional cooperado. Desde o começo de 2001 passou a fazer parte do time da Coopex, cooperativa formada exclusivamente por executivos que pretendem continuar na ativa, desenvolvendo projetos especiais ou trabalhos temporários para empresas de perfis variados.

Antonio Carlos fala com entusiasmo da nova fase em sua vida profissional. “Sinto-me valorizado porque agora consigo aplicar o que aprendi”, diz. Ao se associar à Coopex, ele passou a ter direito a alguns benefícios importantes: plano de saúde e odontológico, seguro de vida, seguro para cobertura dos dias não trabalhados por alguma incapacidade e convênios com farmácias e lojas, além de cartão de visita. Se quiser, pode usar a estrutura da cooperativa, como salas de reunião, computadores, telefones e internet para desenvolver seu trabalho. Seus ganhos já se aproximam do salário que recebia no último emprego. Atualmente, Antonio Carlos vem cuidando de quatro projetos, entre eles o planejamento estratégico de vendas do setor de hotelaria do grupo Accor e a captação de patrocínio para o parque temático Magic City, localizado em Suzano, na Grande São Paulo. “O preço do pessoal da Coopex é metade do cobrado pelas consultorias. Além disso, são pessoas experientes e capacitadas”, diz Estevam Cintra, diretor comercial da Accor.

Mais baratos

Há pelo menos duas cooperativas do gênero em São Paulo. A primeira é a própria Coopex. Fundada em 1999, conta com 70 profissionais com experiência em diversas áreas, como administração, finanças, marketing, recursos humanos e engenharia. A outra é a Copege, que surgiu em 1997 e tem 45 sócios em variadas especializações. As duas ainda são pouco conhecidas no mercado, mas começam a conquistar espaço. “As empresas estão descobrindo que o trabalho de executivos cooperados é uma alternativa interessante”, diz Arthur Pedro de Lima Neto, presidente da Copege. Uma das maiores vantagens, principalmente para as companhias que estão tentando reduzir custos, é a possibilidade de se livrar de pesados encargos sociais — a economia na contratação de um executivo cooperado pode chegar a 70% em alguns casos. Além disso, as empresas não precisarão gastar fortunas com headhunters. Elas podem definir o valor que pretendem pagar, e a cooperativa indica o profissional que preenche os requisitos e que topa a parada naquela faixa de remuneração. “Quem contrata um profissional nosso pode substituí-lo sem ônus caso ele não dê conta do recado”, diz Pedro de Souza Filho, presidente da Coopex. Na Copege, o associado acerta o valor de sua remuneração com a cooperativa e ela negocia com a parte interessada.

Outro atrativo para a empresa é a motivação do executivo cooperado. Como sua empregabilidade depende da qualidade de seu desempenho, ele procura dar sempre o máximo, para corresponder às expectativas. É a única forma de ser lembrado para futuras contratações. As cooperativas são uma opção atraente também para as empresas que querem fugir das consultorias tradicionais. “Somos muito mais em conta”, afirma Lima Neto, da Copege. Trabalhos de consultoria já representam 30% do faturamento da cooperativa — a locação de executivos responde pelos 70% restantes.

A maior dificuldade que o executivo enfrenta quando entra numa cooperativa é compreender que sua situação mudou. Ele não terá mais uma secretária à sua disposição nem carro com motorista, prêmios por desempenho ou bônus de fim de ano. Como profissional independente, receberá pelo trabalho prestado. E só. “O primeiro impacto ao entrar numa cooperativa é bastante negativo”, diz Gilberto Brasílio Cavalheiro, um dos fundadores da Copege. “Mas há também vantagens. Agora sou dono do meu tempo e não preciso dar satisfações a ninguém.” Cavalheiro, de 53 anos, é formado em administração de empresas pela PUC de São Paulo e tem pós-graduação na Fundação Getulio Vargas. Durante 14 anos foi gerente administrativo da Dür do Brasil, fabricante de cabines para pintura de veículos. Hoje diz estar completamente adaptado ao perfil de profissional cooperado. “Quando visito uma empresa, procuro vender o trabalho da Copege, e não somente o meu serviço especializado”, afirma.

Possibilitar que profissionais experientes continuem na ativa não é o único desafio das cooperativas de executivos. Elas enfrentam uma teia de problemas: preconceito do mercado, entraves na Justiça do Trabalho e a postura equivocada de alguns cooperados. “Muitos executivos associam-se acreditando que temos a obrigação de arrumar trabalho para eles”, diz Pedro de Souza Filho, da Coopex. “Na verdade, o cooperado é quem deve trazer sua rede de relações para a cooperativa e gerar trabalho para todos.”

O problema com a Justiça do Trabalho é um pouco mais complexo. O impasse maior é em relação à caracterização de vínculo empregatício, já que muitos cooperados trabalham meses a fio dentro de uma mesma empresa. “Temos enfrentado processos trabalhistas de alguns cooperados por causa disso”, afirma Lima Neto, da Copege. O maior obstáculo para o crescimento das cooperativas, no entanto, é a falta de visibilidade. “A proposta das cooperativas de executivos é brilhante, mas elas sofrem por não ter penetração no mercado”, diz João Marcos Varella, consultor da DBM, tradicional empresa de recolocação de executivos. “Falta, além de superar os problemas trabalhistas e tributários, uma estratégia de marketing elaborada que dê a essas entidades mais visibilidade. Quando isso acontecer, poderão realmente fazer sucesso.”