Quem é o executivo que fundou o MinhoQueens, um dos grandes blocos de SP

Conheça Fernando Magrin, gerente de negócios da companhia aérea, é drag queen e criou um dos maiores blocos de Carnaval de São Paulo

Quando o táxi estacionou para buscar a drag queen Mama Darling numa rua movimentada do centro de São Paulo, a peruca dela não passava na porta do carro. Para entrar, foi preciso tirar da cabeça o emaranhado de fios, com meio metro de comprimento e um enorme arranjo de frutas.

Mama Darling mede 1,81 metro e, no dia, usava sandálias de salto 15 centímetros. Eram quase 2 metros de altura tentando se acomodar no banco do passageiro sem rasgar a saia de tule, desfiar a meia-calça 7/8 ou perder umas das unhas postiças.

Bem-humorada, pediu ao motorista que ficasse tranquilo: “Está tudo bem, moço”. Depois, perguntou qual era a previsão de chegada. Ao ouvir que estaria no local oito minutos antes do combinado, disse: “Ufa, em cima” .

Naquela tarde de dezembro, em que era acompanhada por nossa reportagem, Mama, como ficou conhecida, participaria da comemoração de final de ano de uma tradicional produtora de cinema. Foi convidada para animar o evento e divertir os funcionários. E fez sua parte.

Por mais de três horas, manteve-se animada em cima do palco, dançando na pista e brincando com os convidados — especialmente rapazes bonitos, para os quais gritava “lindo” e perguntava “casa comigo?”.

Mandou dezenas de beijinhos, tirou fotos com crianças e soltou bordões como “Não é para assustar, é para se apaixonar” e “Menos nunca é mais”.

Quem vê a cena não imagina que, por trás das lantejoulas e das piadinhas infames, está Fernando Magrin, de 53 anos, executivo da maior companhia aérea do mundo.

Gerente de novos negócios da American Airlines, ele virou drag queen três anos atrás, em plena meia-idade, quando fundou o MinhoQueens, um dos grandes blocos do Carnaval de São Paulo.

O nome de Mama Darling foi inspirado na personagem de Drew Barrymore no filme Grey Gardens (2009). A atriz vive a prima decadente de Jackie Kennedy, uma jovem problemática que usa o tempo todo a expressão “mother darling” (querida mãe, na tradução para o português).

Segundo o executivo, como a drag queen é meio mãezona, o nome caiu como uma luva. “O bloco é frequentado por uma meninada e sou a mais velha. A mama é safada, mas tem uma coisa maternal ao mesmo tempo”, diz Fernando, que flexiona as palavras para o gênero feminino quando está se referindo ao alter ego.

Acolhimento corporativo

A virada inusitada lhe rendeu notoriedade no mundo dos negócios. “As pessoas adoram saber dessa história, ficam curiosas e admiradas.” Formado em artes cênicas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Fernando chegou à capital em 1993, aos 27 anos, para tentar a carreira de ator.

Enquanto ensaiava peças de teatro e fazia testes para comerciais, ele passou a trabalhar aos finais de semana como vendedor de joias da loja H.Stern, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, para manter a própria subsistência.

Lá, fez amizade com uma moça que trabalhava na sala VIP da American Airlines, que o avisou quando surgiu uma vaga de atendimento no lounge da companhia aérea. Precisando de dinheiro, resolveu tentar.

Com inglês fluente, fruto do intercâmbio feito na Califórnia aos 17 anos, e a desenvoltura adquirida no teatro, conquistou a oportunidade.

“Num primeiro momento, eu me encantei pelos benefícios de viagem. Nós não pagávamos nem taxa de embarque. Comecei a passar até final de semana em Nova Iorque. Íamos para os Estados Unidos comprar papel hi­­giênico. Era uma coisa absurda, porque o real valia mais doque o dólar.”

Fernando começou sua carreira ali no início do Plano Real, quando o governo Fernando Henrique Cardoso controlava a taxa de câmbio e a moeda americana chegou a valer 0,82 centavo de real.

Bloco MinhoQueens, no Vale do Anhangabaú em São Paulo: 200 000 pessoas em 2018 | Ananda Migliano/Futura Press

Mas o que mexeu com ele não foram só os descontos nas passagens, mas o fato de perceber, pela primeira vez, que ser homossexual não era um problema. Pelo contrário. Na American Airlines, descobriu um mundo novo.

Em 1994, a multinacional já tinha, entre outras coisas, um atuante grupo de funcionários LGBT+, chamado de Pride (orgulho, na tradução para o português).

“As pessoas falavam abertamente a respeito de sexualidade. Era natural. No final dos anos 90, quando ninguém tocava no assunto, conheci uma piloto trans que fez a transição trabalhando em nossa empresa. Foi esse o ambiente que encontrei e um dos motivos que me fez ficar até hoje.”

Para o menino de Nova Odessa, cidade de 50 000 habitantes no interior paulista, acostumado a esconder as bonecas do pai e a namorar garotas a contragosto, aquilo era um trunfo pessoal e profissional.

Colegas e chefes souberam desde o começo que ele era gay, coisa que a família levou anos para descobrir. “Só consegui falar disso com meus parentes cinco anos atrás, quando meu pai morreu”, diz.

Fernando trabalhou na área VIP por nove anos. Fazia o atendimento de passageiros importantes e embarcava nomes como Xuxa, Pelé, Sônia Braga e Naomi Campbell. Nessas ocasiões, não perdia a oportunidade de brincar — traço de personalidade que mantém ainda hoje, no escritório.

Com um dos maiores ídolos do futebol brasileiro, fez graça. “Disse a ele que minha primeira palavra não tinha sido nem papai, nem mamãe, mas Pelé.” Para Malu Mader, contou piada. “Quem é o pai da Malu Mader? Malu Fader!” O jeitão despachado o fez conquistar a simpatia dos passageiros.

De secretário a executivo 

No final de 2005, ficou sabendo de uma vaga para trabalhar como auxiliar do gerente-geral da área comercial no corporativo. Pegou a chance. Dois anos depois, foi promovido a agente de vendas, dando suporte aos representantes comerciais externos, auxiliando com planilhas, dados e revisão de números.

Em 2014, virou analista de vendas para a América Latina, passando a se reportar diretamente ao time comercial de Miami. “Essa fase foi difícil, porque mexia com números e tive de aprender na raça. Só consegui porque encontrei profissionais dispostos a me ensinar.”

Em 2017, após uma troca de comando em sua equipe nos Estados Unidos, outra promoção: executivo de novos negócios. “A nova chefe disse que gostaria de me ver na rua, buscando contas. Falou que a empresa abriria uma vaga e sugeriu que eu me candidatasse. ”

A missão de Fernando, agora, é fechar negócios com pequenas e médias empresas e convencê-las de que a American Airlines é a companhia certa para cuidar das viagens corporativas. Para isso, oferece programas de pontuação e tarifas com preços especiais.

A aérea faz voos diários saindo de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Manaus para quatro cidades americanas: Miami, Dallas, Nova York e Los Angeles.

A ascensão para gerente veio um ano depois de ter se tornado drag queen e fundado o bloco de Carnaval. Desde que criou a personagem também passou a ser chamado para ir a eventos, como a festa da firma que VOCÊ S/A acompanhou, a dar palestras e a comparecer a fóruns sobre diversidade.

Já falou, ora com o terno e a gravata do Fernando, ora com as fantasias da Mama Darling, para pessoas da Avon, Accenture e Câmara Americana de Comércio do Rio de Janeiro. “Não sou especialista nem intelectual. Meus depoimentos vêm do coração.” E Fernando afirma estar sendo surpreendentemente recompensado pela experiência.

“Após um desses eventos, recebi e-mail de um profissional com a mesma idade que eu. Ele escreveu: ‘Após ouvir sua história, decidi que vou chegar em minha empresa nesta semana e dizer que sou casado com um cara há 30 anos’.”

Quando questionado se um dia imaginou que seria referência LGBT+, diz que isso nunca havia passado por sua mente. “Jamais pensei. Sinto como se tivesse tido uma segunda chance de exercer meu lado ator, uma oportunidade incrível de me reinventar”, diz.

Sinto como se tivesse tido uma segunda chance, uma oportunidade de me reinventar | Germano Lüders

Sinto como se tivesse tido uma segunda chance, uma oportunidade de me reinventar | Germano Lüders (Germano Lüders/VOCÊ S/A)

 

Quando o Carnaval chegar

Para dar conta do posto de gerência e levar seus projetos pessoais adiante, Fernando se desdobra. De manhã e à tarde, cuida da rotina na American Airlines. À noite e aos fins de semana, dedica-se ao MinhoQueens e à Mama Darling. 

Quando conversou com a reportagem, no final de dezembro, ainda buscava patrocínio para colocar o bloco na rua. Segundo seus cálculos, serão necessários entre 50 000 e 70 000 reais para contratar trios, seguranças, gradil e cordeiros. “No ano passado, tivemos público de 200 000 pessoas”, diz.

O executivo conta que a muvuca era tanta que nem conseguiu aproveitar. Bebeu duas garrafas de água durante o trajeto e passou o tempo todo observando a movimentação de cima do caminhão.

“Eu me sinto responsável. Se vejo alguém brigar, mando parar. Se têm pessoas subindo em ponto de ônibus ou monumento, peço que a música seja interrompida até descerem.”

Da porta do escritório para dentro, Fernando lida com a empolgação dos colegas. “Eles querem me enfiar em tudo. Às vezes, preciso impedir”, conta.

Em 2017, foi vestido de Mama Darling para discursar numa importante convenção de vendas da American Airlines. “Pego o microfone e já vou logo dizendo: ‘Que empresa é essa que deixa o funcionário vir vestido assim para apresentar gerentes e diretores?’.”

Orgulhoso, o gerente de novos negócios diz que, em 24 anos de companhia, sofreu preconceito uma única vez — e de um passageiro. Havia uma fila grande e o homem queria passar na frente. Ao ter o pedido negado, xingou-o de “bicha”. “Chamei o supervisor e fiz aquele senhor pedir desculpas. Tenho a sorte de trabalhar num lugar que não me obriga a ser quem não sou.”

Seu conselho aos profissionais que passam por situações difíceis no mercado de trabalho é que procurem se impor. “Estamos nesta vida para ser feliz. Acho tão triste imaginar alguém que não pode ser quem se é no emprego. Com que vontade se levanta da cama?”

Fernando sabe que se assumir gay ou comunicar aos colegas uma readequação de gênero exige boa dose de coragem, por isso sugere que se fale primeiro com os mais próximos, formando uma rede de respeito.

Mesmo com o espaço que conquistou, o executivo não se considera um ativista da causa LGBT+ no mundo corporativo. “Por enquanto, me enxergo apenas como um exemplo possível. Alguém que mantém uma carreira sendo gay e drag queen.”

Entre seus planos está atuar de maneira mais significativa no Pride, o grupo de diversidade da American Airlines, e a criação de um stand up com Mama Darling para explorar esse universo. “Estou convicto de que, quanto mais nos posicionarmos, melhor. Um puxa o outro. No mundo corporativo, sou uma história de final feliz.”