Evitar assuntos sensíveis pode prejudicar a evolução das equipes

Ginka Toegel e Jean-Louis Barsoux falam sobre a dinâmica dos temas indiscutíveis nas empresas

Em 2008, o engenheiro da Theranos, Aaron Moore, criou uma publicidade falsa para um protótipo de um aparelho de exames de sangue de sua empresa. A ideia era fazer uma brincadeira com os colegas.

Seu anúncio descreveu o dispositivo como “muito funcional” e incluiu sanguessugas entre os acessórios para a coleta de sangue.

Podemos interpretar essa atitude não apenas como uma brincadeira mas como uma tentativa desesperada de levantar um assunto tabu: o dispositivo da empresa não funcionava e a liderança estava escondendo esse fato.

Esse era um “tema indiscutível” na Theranos, algo comum em muitas empresas. Na tentativa de evitar conflitos, ameaças e constrangimentos, muitos líderes evitam falar sobre questões incômodas.

Mas isso os impede de encarar os desafios para melhorar o desempenho e o aprendizado. E é exatamente a capacidade de discutir o que está impedindo a evolução que impulsiona os resultados de uma equipe.

Nós estudamos a dinâmica dos temas indiscutíveis nas empresas e em outros ambientes, como times esportivos, orquestras, equipes médicas e até um grupo de negociação de reféns.

Descobrimos que o padrão se aplica aos mais diferentes contextos e níveis: quanto mais tabus, mais difícil é para a equipe funcionar. Isso ocorre porque sem discussão coletiva os problemas não são gerenciados de maneira inteligente.

Maior do que parece

No entanto, os líderes tendem a superestimar os riscos de falar sobre os assuntos. Eles assumem incorretamente que abordá-los vai consumir a energia da equipe, revelar problemas que não podem ser resolvidos e expor a culpa dos gestores.

Mas ignorar aquilo que incomoda só faz com que as relações se tornem tensas e ineficazes. Esses temas indiscutíveis acabam contaminando o time, sufocando suas habilidades de resolução de problemas, de aprendizado e de adaptação às mudanças.

Quando se fala abertamente sobre os assuntos, há alívio, aumento da energia e fortalecimento do espírito de equipe. Claro que é preciso saber como abordar o tema.

Muitos executivos costumam achar que os “elefantes na sala” são todos iguais. Mas não são. É necessário ter uma visão multifacetada para tratá-los em suas diferentes complexidades — e para não torná-los maiores do que são.


Ginka Toegel é professora, facilitadora e pesquisadora nas áreas de liderança e comportamento humano do IMD Business School. Jean-Louis Barsoux é professor do IMD e especialista em liderança