ESTRELAS EM ASCENSÃO

Quem é a nova geração de profissionais que se prepara para comandar as empresas de amanhã

Liderança não é uma obra de arte. Não é formada por qualidades isoladas, como conhecimento, persistência ou faro para o mercado. É um conjunto harmônico de vários fatores. Alguns líderes aliam experiência internacional, capacidade de negociação, autoconfiança e flexibilidade. Outros se destacam pela disposição para enfrentar o desconhecido, pelo espírito de equipe e pela alta produtividade pessoal. Há quem consiga utilizar a tecnologia a seu favor, tenha uma visão humanista da empresa e saiba atrair e obter conhecimento. Também há o líder aberto para rever paradigmas, capaz de criar cenários e de desenvolver alianças estratégicas. Não é difícil saber, nas empresas de hoje, quais são os nomes poderosos que encarnam essas características. Maria Sílvia Bastos Marques, da CSN, Antonio Maciel, da Ford, e Marcel Fleischmann, do McDonald’s, são alguns deles.

Para quem se preocupa com o futuro, porém, sobram perguntas no ar. Quais são as faces que substituirão Maria Sílvia, Maciel e Fleischmann dentro de cinco a dez anos? Quais são os nomes que vão construir o modelo de gestão de amanhã? Encontrar a resposta a essas perguntas é a missão do projeto CEOs do Futuro, realizado por VOCÊ s.a. em parceria com a Korn/Ferry, a maior firma de headhunting do mundo, e com a Fundação Instituto de Administração (FIA), a escola de educação executiva da USP. Lançado em junho deste ano, o projeto recebeu cerca de mil currículos de candidatos. Depois de quatro etapas (veja quadro), foram selecionados os 20 profissionais apresentados nas páginas seguintes. Suas realizações no passado, seus planos para o futuro e o entusiasmo com que enfrentam os desafios de hoje foram decisivos na seleção.

Entraram nessa primeira edição dos CEOs do Futuro profissionais como Leonardo de Santis, de 28 anos, peça-chave na estratégia que colocou a Sol como a cerveja importada mais vendida no país. Elizabeth Peart, de 41 anos, hoje na Sodexho Pass, por três anos o nome nos bastidores do marketing da Nokia, empresa finlandesa de telefones celulares. Já Arthur Diniz, de 35 anos, hoje no grupo Santander Banespa, mostra-se um talento nato na gestão de pessoas.

Os CEOs do Futuro são estrelas em ascensão no mundo dos negócios. São talentos presentes na faixa intermediária do organograma hierárquico que estão ajudando a moldar o futuro das empresas brasileiras. Seus nomes certamente não esgotam a lista de talentos dentro das corporações atuais. São, porém, nomes nos quais você deve prestar bastante atenção. Ou porque há uma boa chance de eles virarem as estrelas dos cadernos de economia dos jornais num futuro próximo, ou porque são exemplos a ser seguidos. Muitos vêm de origem humilde. Marcos Littério, por exemplo, não passou no vestibular da Unicamp, a universidade pública de Campinas, no interior de São Paulo. Só foi aprovado na Escola de Engenharia Mauá, uma excelente faculdade, mas privada. Para fazer engenharia na Mauá, Marcos precisou de bolsa de estudos, conseguida a duras penas.

Littério, assim como seus colegas CEOs do Futuro, demonstra uma atitude diferenciada perante a vida e a carreira. Eles querem mais que sucesso no trabalho. Recentemente, Sergio Buniac interrompeu uma carreira vitoriosa na matriz da Motorola, nos Estados Unidos, porque a família queria retornar para o Brasil. Detalhe: para voltar, Sergio aceitou, na filial brasileira da Motorola, um cargo hierarquicamente inferior. Também está fora de cogitação ele viver longe dos dois filhos. “Sou louco por eles”, diz.

A qualidade de vida é outro tema presente no dia-a-dia dos CEOs do Futuro. O curitibano André Dias freqüenta academia de ginástica, faz escalada in-door e pilota sua moto pelas estradas do Paraná. Também faz aula de saxofone num conservatório local enquanto o filho estuda violão. “É uma forma de relaxar e passar mais tempo com meu filho”, diz. A disposição de André na busca por equilíbrio entre trabalho e vida pessoal é necessária ao CEO do Futuro. Pelo menos é o que mostra pesquisa realizada pelo Programa de Estudos do Futuro (ProFuturo), da FIA, cujos resultados nortearam a seleção dos executivos. A prospecção comandada pela FIA concluiu que há quatro grandes grupos de competências necessárias aos líderes de amanhã:

  1. Orientação permanente para resultados. Isso se traduz numa postura inovadora, em força de vontade, tenacidade e perseverança.

  2. Qualificação técnica e funcional. Eles possuem visão estratégica e global do negócio, sabem conduzir inovações com sucesso e gerenciar alianças internacionais.

  3. Inteligência emocional. São líderes de equipes, têm aura e presença, sabem comunicar com diplomacia e tato. Também são capazes de conciliar trabalho e vida pessoal.

  4. Capacidade de distinguir o que é relevante do que não é. A próxima geração de CEOs consegue antecipar tendências, reconhece competências e tem visão de futuro.

Atualmente, ainda existem líderes que são conservadores, autoritários, intimam os funcionários e mesmo assim obtêm sucesso. Como se vê nos resultados da pesquisa acima, não é o que se espera de um futuro CEO. Só terá chance de pertencer a esse seleto grupo o profissional que puder comprovar seu talento para gerenciar equipes. Esse critério foi fundamental nas entrevistas finais dos CEOs do Futuro, realizadas por headhunters da Korn/Ferry e jornalistas de VOCÊ s.a. A preocupação com as pessoas deveria fazer parte do discurso natural do candidato. Diante da pergunta “Com o que você se preocupa na hora de montar sua equipe”, a pior resposta de um candidato a futuro CEO seria: “Escolaridade, habilidade em computação e domínio de língua”. Ganhou pontos, por outro lado, quem respondeu coisas do tipo: “O potencial e as ambições da pessoa, o caráter e o bom humor, e se suas competências são complementares às da equipe”. “Os líderes de amanhã sabem compartilhar o poder, a informação e o compromisso”, diz Flávio Kosminsky, headhunter da Korn/Ferry, responsável pela seleção dos CEOs do Futuro.

Um dos caminhos percorridos pela próxima geração de presidentes de empresas é o da experiência diversificada. É o caso de Elizabeth Peart, a única mulher do grupo (apenas outra executiva chegou à etapa das entrevistas pessoais). Elizabeth começou a carreira na Ford, passou pela Chrysler, pela HIT Telecomunicações e pela Nokia. Atualmente é diretora de marketing da Sodexho Pass, empresa de gestão de benefícios e serviços. São cinco empresas em três setores diferentes. Seu sorriso largo não esconde a orientação para o cliente e para o resultado – competências indispensáveis para quem pensa em liderar as empresas do futuro.

Elizabeth estudou administração numa faculdade de Santo André, na Grande São Paulo. É um dos cinco administradores no grupo. A maioria — 11 — estudou engenharia, dois fizeram economia, um publicidade e o outro tecnologia da informação. Somente quatro não voltaram aos bancos escolares para um MBA, embora tenham feito outras pós-graduações. Entre os que encararam o mestrado em administração de negócios, cinco o fizeram no exterior e 11 no Brasil. Todos falam inglês fluentemente. Nove, espanhol. Dois, alemão. Mas também há os que surpreendem com japonês e chinês. Atenção: tudo isso com uma idade média de 32,4 anos. Com certeza, ainda podemos esperar muito deles (e dela).