Esta carreira paga até R$ 55 mil mas enfrenta muito preconceito

Profissionais de relações governamentais estão entre os mais bem pagos e lobby é a atividade principal. É aí que começa o preconceito. Entenda

São Paulo – A confusão começa no Google. Digite a palavra lobista e a primeira definição que aparece do termo já mostra como sua reputação é baixa por aqui. Lobista, segundo o primeiro resultado encontrado nas buscas, é a pessoa que “manipula as negociações” para benefício próprio e de seus aliados ou para prejudicar os adversários. Errado.

“Há um equívoco em confundir a atividade de lobby com corrupção”, diz Erik Camarano, vice-presidente de relações governamentais da GE para a América Latina. O executivo, que também é presidente do conselho do Instituto de Relações Governamentais (IRELGOV), explica que apesar de a má fama fazer com que muitas pessoas se afastem do “título” de lobista, a atividade de relações governamentais e institucionais nada mais é do que lobby e isso nada tem a ver com ilicitudes e maus feitos.

“Faço a interface da empresa com o governo em todos os níveis. Basicamente, é criar de forma transparente e estruturada a interlocução da companhia com o agente público, seja ele em qual nível estiver. Se você quiser chamar isso de lobby é lobby”, diz.

Andréa Gozetto, coordenadora do curso de MBA em Relações Governamentais da FGV-SP, explica que o principal “produto” que o profissional entrega é a influência na defesa dos interesses da empresa para que ele trabalha  por meio da construção de relacionamento com tomadores de decisão. “A moeda de troca é a informação que ele leva até esse tomador de decisão, membro do poder público”, explica a professora.

A questão é que há quem defenda os interesses de empresas de forma ilícita e não é de hoje que lobistas são flagrados em esquemas escusos. Mas, para ficar apenas com em exemplos recentes, há diversos lobistas envolvidos nos crimes investigados pela Operação Lava Jato

“Os fatos que aconteceram ali estão todos previstos no Código Penal, no Código Civil, no Estatuto do Servidor. Não era lobby o que ocorria, era crime: lavagem de dinheiro, formação de quadrilha”, diz o VP de relações governamentais da GE.

Camarano, obviamente, se incomoda com o preconceito que ronda a sua carreira, mas não sabe se é possível que algum dia o termo lobby perca o estigma. “Não é só uma incompreensão do cidadão comum e da imprensa.  Já cheguei a ver processos com despacho de juiz dizendo ‘fulano de tal praticou lobby, entre aspas, o que é crime’. Se uma pessoa que trabalha na área jurídica diz que é crime, então nós temos uma distância gigante para descriminalizar a expressão”, diz.

Regulamentação da profissão à vista

O consenso a que se chegou para o título da carreira é relações governamentais e institucionais. É esse o nome que consta no projeto de lei em tramitação no Congresso para regulamentar a profissão.

Segundo informações da Abrig (Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais) são 26 países no mundo que têm essa profissão de regulamentada,  sendo o Chile o único representante da América do Sul.

A regulação, esperada há mais de duas décadas por profissionais da área no Brasil, é importante na medida em que pode trazer mais destaque e transparência para a atividade, em um momento de maior preocupação das empresas com temas relativos a governança corporativa e políticas de compliance.

Embora a consolidação da importância da carreira de relações governamentais tenha começado há, pelo menos uma década, esse movimento se intensificou depois da Lava Jato.

“Para muitas empresas ficou evidente a necessidade de políticas claras de relacionamento com o setor público e também valorizou profissionais que têm boa reputação”, diz  Camarano.

Na opinião dele e da coordenadora do MBA da FGV-SP, a Lava Jato acabou dando mais destaque para a carreira. “Muitas pessoas tinham medo da área sofrer com os escândalos. Mas o que eu vejo é o contrário. A lei anticorrupção e a Lava Jato trouxeram luz à questão da governança corporativa”, diz Andrea.

Demanda em alta em diversos setores

Conhecer profundamente o setor e o negócio específico da empresa é o principal requisito do trabalho.“Tem que ser bem informado, antenado com o que está acontecendo e ter uma área de expertise definida, que é a área do negócio”, diz Camarano.

Promissora, a carreira está em alta sobretudo em setores que são regulados pelo governo como, por exemplo,de energia, de saúde, farmacêutico, químico, de telecomunicações, automotivo, financeiro, de óleo e gás e de tecnologia da informação (TI), segundo profissionais consultados.

De acordo com informações da consultoria de recrutamento EXEC, a demanda por profissionais de relações governamentais deve fechar o ano com 15% de crescimento, em relação a 2016. No ano passado, a procura por estes profissionais já tinha crescido 7% em relação a 2015.

Tadeu Gualtieri, sócio da EXEC, explica que a indústria farmacêutica responde por 68% das contratações destes profissionais feitas pela consultoria. “O mercado farmacêutico, apesar de ter sentido os efeitos da crise, sofreu bem menos que outros setores por fabricar e comercializar produtos essenciais”, explica.

As outras 32% das contratações, segundo a EXEC, vieram dos segmentos  automotivo, energia renovável, óleo e gás, químico e TI. “Empresas de equipamentos médicos também começam uma procura consistente por profissionais especializados na área”, diz Gualtieri.

Perfil dos profissionais é diverso

A atividade de relações governamentais é desempenhada por pessoas de perfil diverso. Pesquisa feita pelo IRELGOV com 157 profissionais mostrou que diplomas de direito, relações internacionais,  administração, comunicação social e ciências políticas eram mais comuns.

Pós-graduação é frequente, mais de 70% dos participantes tinham algum tipo de curso  lato ou stricto sensu no currículo. “Uma das formas de melhorar a reputação profissional é conseguir credenciais acadêmicas. Quanto mais profissionais com título de especialistas, maior a credibilidade e a reputação da atividade”, diz Andrea. De 22 alunos que terminaram o MBA da FGV dentro do prazo, 9 deles foram promovidos, segundo a coordenadora.

No curso, que é pioneiro na área e foi criado em 2015, Andrea diz que a maioria dos alunos é da iniciativa privada, mas há pessoas também de associações setoriais, movimentos sociais e alguns poucos funcionários públicos.

Pesquisa feita com 91 alunos das três primeiras turmas do MBA da FGV, em Brasília (DF) , São Paulo (SP) e Curitiba (PR), mostra que a maioria dos alunos (78%) tem menos de 40 anos.

Estas são as habilidades mais valorizadas pelas empresas

Levantamento da EXEC com base nas exigências das empresas que mais contrataram profissionais de relações governamentais em 2017 indica as habilidades mais valorizadas:

  1. Habilidades de comunicação, articulação, persuasão, negociação e empatia.
  2. Amplo conhecimento técnico.
  3. Capacidade de construir relacionamento e alianças (internas e externas).
  4. Conduta ética impecável.

Na opinião do VP de relações governamentais da GE, profissionais precisam ser flexíveis, resilientes e saber trabalhar sob pressão. “Não há rotina, os problemas são os mais diversos”, explica.

Ele também destaca um aspecto necessário a quem trabalha na área que é a capacidade fazer marketing interno já que não é rara a desinformação dentro da própria estrutura da empresa. “A realidade em muitas companhias é que o profissional precisa demonstrar para que serve a sua função de forma quase que permanente”, diz

Outra virtude que cai bem aos profissionais de relações governamentais é a paciência, segundo Camarano. “Tem que saber que os processos demoram. Vai ter uma dicotomia entre o tamanho da cobrança interna que você recebe e a sua capacidade de entrega”, diz.

A inteligência do profissional, segundo ele, é saber quebrar o resultado final em pequenas vitórias que podem ser apresentadas à liderança da empresa. “De um projeto de um bilhão de reais, por exemplo, é escolher os marcos que ele pode demonstrar para justificar que as coisas estão caminhando e que a empresa está dentro do prazo”, diz.

Os salários são altos

Levantamento produzido pela EXEC exclusivamente para o Site EXAME aponta que a posição foi uma das poucas que não sofreram queda de remuneração com a crise. “Apesar de vivermos um cenário mais confortável que há dez anos, ainda há pouca mão de obra qualificada disponível, o que aquece a disputa pelos bons profissionais e consequentemente inflaciona os salários e as políticas de remuneração variável”, diz o Gualtieri.

O salário de um diretor de relações governamentais varia entre 40 mil reais e 55 mil reais. Para os gerentes, os salários vão de 20 mil reais a 25 mil reais.

Pesquisa feita com 91 alunos das três primeiras turmas do MBA da FGV, em Brasília (DF) , São Paulo (SP) e Curitiba (PR) mostra que, entre aqueles que revelaram a remuneração (82% deles), quase 70% tinham salários anuais entre 60 mil e 240 mil reais. A maioria dos alunos é formada por coordenadores (31%). Diretores eram 21% e gerentes, 17%.

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