Agora se vai ao Nordeste para trabalhar, não só para passear

Com uma economia diversificada, os nove estados da região Nordeste continuam atraindo investimentos e gerando oportunidades de carreira para os nordestinos e profissionais de todas as regiões do país

São Paulo – Foi-se o tempo em que as praias de águas mornas impulsionavam quase sozinhas a economia do Nordeste. Hoje, boa parte dos forasteiros que desembarcam em um dos nove estados da região — Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Piauí, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe — está em busca não apenas de descanso e lazer mas também de oportunidades de carreira.

Isso porque, na última década, o aumento do poder aquisitivo da população e os investimentos públicos e privados em infraestrutura, na indústria e no setor de energia estão impulsionando o trabalho e os salários na região.

Essa transformação tem sido gradativa, mas com resultados expressivos. De 2003 a 2010, o produto interno bruto (PIB) da região cresceu 37,1% — acima da média nacional, de 32,2%. Em 2012, a economia local cresceu o triplo da brasileira. E na última década a classe média aumentou 20 pontos percentuais na região, incluindo 42% dos moradores.

Com 53 milhões de habitantes, se fosse um país, o Nordeste estaria entre as dez maiores economias da América Latina, à frente de Equador, Cuba, Paraguai e Uruguai.

Por tudo isso, a região vem atraindo o interesse de investidores e uma variedade de negócios está sendo instalada, gerando novas oportunidades em diversas áreas, como o setor de energia e as indústrias de alimentos, farmacêutica, automotiva, petroquímica e naval, além do óbvio impacto sobre o comércio e os serviços.

Em 2013, foram abertos 193 316 postos de trabalho na região, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). E 2014 parece ter começado melhor ainda no que diz respeito ao emprego. “Até março, já preenchemos metade do volume de vagas oferecidas em 2013”, diz Carlos Guilherme Nosé, presidente da consultoria de recrutamento Asap.

Segundo a consultoria, de cada dez postos abertos na região, seis são para empresas com sede em Pernambuco. O Ceará, com crescimento do PIB estimado em 4% em 2013, e a Bahia, com expansão de 2,7% no ano passado, completam o rol dos maiores empregadores da região.

Mas também há oportunidades espalhadas nas capitais e no interior dos demais estados (veja mapa). Nas próximas páginas, você encontra um guia para identificar os locais, os setores e as empresas que estão contratando e as carreiras e os cargos com as melhores oportunidades e salários na região.

Sede (e fome) de crescimento

Um dos segmentos mais favorecidos pelo aumento de renda no Nordeste foi a indústria de alimentos e bebidas, o que tem atraído empresas como Nissin Ajinomoto, Mondelez, Natto e Companhia Brasileira de Sorvetes. Só em Pernambuco, 22 grandes fabricantes desembarcaram nos últimos seis anos.

E oito novas fábricas ficarão prontas até o ano que vem — um investimento total estimado em 2,8 bilhões de reais, com a geração de mais de 6 500 empregos diretos. A pernambucana GL Empreendimentos — de massas e biscoitos — inaugura em julho sua nova indústria de alimentos, um investimento de 143 milhões de reais.

A expectativa, nesta primeira fase, é gerar 400 postos de trabalho. As contratações começam em maio. “Pernambuco está em pleno emprego e é difícil achar profissionais para algumas áreas”, diz Osvaldo Miranda, gerente administrativo da GL Empreendimentos.

Já a Mondelez Brasil, antiga Kraft Foods, está na quarta expansão da operação desde 2011. Para atender à crescente demanda por profissionais qualificados, a empresa levou para o Nordeste o modelo da Universidade de Alimentos, já usado no Sudeste. “Estamos fomentando o desenvolvimento dessa mão de obra com cursos específicos”, diz Elisa Silvestre, gerente de RH Norte e Nordeste da Mondelez Brasil. Cerca de 1 500 pessoas já foram formadas no centro.

A indústria de bebidas também está aquecida na região, onde o consumo de cerveja cresceu 10,2% desde 2010, ante 4,9% no resto do país. Na Bahia, a Heineken amplia a operação da fábrica de Feira de Santana, enquanto o Grupo Petrópolis, fabricante das cervejas Itaipava e Petra, abriu em novembro sua primeira fábrica nordestina em Alagoinhas.

Agora o grupo conclui a construção de uma segunda fábrica em Itapissuma (PE). A empresa já está contratando para os 600 postos que serão criados. No início do ano, a Ambev inaugurou uma nova fábrica na mesma cidade, um investimento de 725 milhões de reais que gerou 1 000 empregos.

A Brasil Kirin, ex-Schincariol, está ampliando a unidade de Igarassu, também na região metropolitana de Recife. A expansão ficará pronta no fim do ano e vai gerar 140 vagas, a ser preenchidas a partir de julho. “Queremos pulverizar a instalação dessas unidades para gerar emprego e renda em todo o estado”, afirma Silvio Leimig, diretor do Fórum Suape Global, responsável por atrair investimentos para Pernambuco.
oportunidades na indústria farmacêutica e da saúde

Um dos setores mais aquecidos na região é a indústria de produtos químicos e farmacêuticos. Em Goiana, a 60 quilômetros de Recife, no norte de Pernambuco, um novo polo farmacoquímico deve ser concluído até 2016. Numa área de 287 hectares, estão sendo instaladas 11 empresas de remédios e biotecnologia — um investimento total de 1 bilhão de reais que criará 1 443 novos empregos.

Entre as companhias que vão desembarcar na região estão Hemobrás, Normix, Vita Derm, Hair Fly, Rishon, Brasbioquímica, Luft Logistics, White Martins, Quantas Biotecnologia, Biologicus e Multisaúde. “Estamos em um trabalho proativo de captação de investimentos”, afirma Jenner Guimarães, diretor-presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (AD Diper).

A âncora do projeto será a fábrica de hemoderivados da Hemobrás, estatal do Ministério da Saúde que pretende tornar o Brasil autossuficiente na produção de medicamentos para hemofilia e para portadores de imunodeficiência genética, cirrose, câncer, aids e queimaduras.

A fábrica, que deve entrar em funcionamento ainda neste ano, recebeu aportes de 800 milhões de reais e vai gerar 362 empregos diretos e 2 270 indiretos.

“A instalação no Nordeste é uma estratégia do governo federal para descentralizar investimentos e estimular o desenvolvimento técnico-científico além do eixo Sul-Sudeste”, diz Romulo Maciel Filho, presidente da Hemobrás. Em breve, será aberto um concurso para preen­cher parte dessas posições.

Ainda em Pernambuco, em Jaboatão dos Guararapes, a suíça Novartis vai construir sua primeira fábrica de vacinas no Brasil. A unidade, que deverá iniciar a operação ainda neste ano, custará 300 milhões de dólares, o maior investimento já feito pela farmacêutica no país. Com a nova unidade, 120 vagas serão abertas.

A demanda por profissionais qualificados é tanta que a Novartis montou, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), um curso de pós-graduação em fabricação de medicamentos, oferecido gratuitamente à comunidade.

No Ceará, em Eusébio, região metropolitana de Fortaleza, começa a sair do papel o Polo Tecnológico de Saúde, com geração de 2 000 empregos e investimento inicial de 310 milhões de reais. No local, funcionarão empresas como Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), CTI Renato Archer e a cearense Isofarma, além de uma fábrica de vacinas.

Pesquisa e crescimento profissional

O cientista de alimentos e mestre em biotecnologia Matheus Mônaco, de 34 anos, saiu de Piracicaba, em São Paulo, para surfar a onda de oportunidades do Nordeste.

Há três anos, foi contratado pela pernambucana BioLogicus, empresa de pesquisa e desenvolvimento de produtos alimentares e cosméticos à base de probióticos. Hoje, Matheus é gerente de produção da empresa. “Aqui, consigo aliar pesquisa com crescimento profissional”, diz Matheus.

Indústria automotiva pisa no acelerador

A indústria automotiva decolou no Nordeste com o anúncio da instalação da fábrica da Fiat em Pernambuco, há três anos. Para garantir a produção de 40% da demanda de peças e componentes da montadora, está sendo criado o Parque de Fornecedores no Polo Automotivo de Goiana, na região metropolitana de Recife.

São 16 empresas — globais e nacionais — que ocuparão 12 edifícios nos quais serão produzidas 17 linhas de componentes. Em uma área construída de 270 000 metros quadrados, o Parque de Fornecedores ficará junto à fábrica da multinacional italiana, em um modelo integrado de produção.

Ao todo, o Polo Automotivo vai gerar 8 000 empregos diretos até o fim de 2015. Cerca de 4 000 dessas vagas serão criadas apenas nas fornecedoras de autopeças, que reúnem empresas como Magneti Marelli/Faurecia, Lear, Adler e Pirelli. A Fiat, por sua vez, vai contratar 600 profissionais de nível superior ainda neste ano.

“Como nossa fábrica é altamente automatizada, precisamos de pessoal qualificado, que possa operar máquinas e equipamentos de última geração”, afirma Adauto Duarte, diretor de RH da Fiat Chrysler Programa Pernambuco.

Engenheiros mecânicos, eletrônicos, eletricistas, de automação, de segurança do trabalho, químicos, ambientais, de produção, de materiais e civis serão requisitados para preencher as vagas geradas pela indústria automotiva.

Para dar suporte a essa grande demanda por mão de obra capacitada, foi desenhada uma estratégia de gestão única para todas as empresas que compõem o polo — Fiat e fornecedores.

“Nós nos reunimos semanalmente, algumas vezes até diariamente, para definir as políticas de recursos humanos, que serão integradas para todas as empresas. São questões como políticas de admissão, programas de treinamento, metodologias de planejamento, entre outros temas estratégicos”, diz Adauto, que também é coordenador de gestão de pessoas de todas as fases de implantação do Polo Automotivo de Goiana.

Na Bahia, Camaçari — primeira cidade fora do eixo Rio-São Paulo a receber ainda em 2001 uma grande montadora — se prepara agora para receber a chinesa Foton Motors, maior fabricante de caminhões do mundo. A fábrica ficará pronta em 2017 e deverá gerar 1 000 empregos diretos e 6 000 indiretos.

No ano passado, a cidade recebeu a fábrica de outra gigante chinesa, a JAC Motors, um investimento de 900 milhões de reais que permitiu a geração de 3 500 empregos diretos e 10 000 indiretos.

Vendaval de empregos

Com grande potencial de ventos, o Nordeste é o principal centro da produção de energia eólica no Brasil. Apesar de nova, essa é a fonte de energia que mais cresce no país. “Os investimentos só começaram há cerca de quatro anos, mas já cresceram 1 500%”, afirma Elbia Melo, presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica).

A região é responsável por 78,3% da capacidade de geração de energia eólica no Brasil, com 132 parques considerados aptos, em operação ou em testes.

Além deles, 58 parques eólicos estão em construção e outros 263 já foram contratados nos leilões energéticos. A previsão é que a energia eólica gere 80 000 postos de trabalho em toda a sua cadeia produtiva só no Nordeste. “A predominância da região se dá principalmente pelas características do recurso eólico.

Os ventos apresentam velocidade constante e uniformidade de direção, condições que maximizam a produção de energia, tornando os projetos mais atraentes para os investidores”, explica Mário Araripe, presidente da Casa dos Ventos, empresa cearense líder em produção de energia eólica.

A companhia já viabilizou — individualmente ou com estruturação de parcerias com empresas como CPFL Renováveis, ContourGlobal, Queiroz Galvão Renováveis e Grupo Eletrobras — mais de 4 000 megawatts de capacidade instalada. Esse volume representa aproximadamente um terço dos parques eólicos em construção ou operação no país.

Os empreendimentos da empresa no Nordeste, com início da operação entre 2015 e 2018, devem gerar cerca de 3 000 empregos diretos e 7 000 indiretos.

Na Impsa, empresa argentina dedicada ao fornecimento de soluções integradas para a geração de energia de fontes renováveis, 85% do quadro de 2 500 empregados está no Nordeste. E a companhia deve contratar cerca de 1 000 funcionários a cada 12 meses nos próximos anos. Os profissionais de nível superior mais demandados para o setor são engenheiros eletricistas, mecânicos, civis, de segurança e ambientais e arqueólogos.

“Muitas pessoas que trabalham no setor estão vindo do Sudeste”, diz José Luís Menghini, vice-presidente da Impsa. “Por ser novo, esse mercado enfrenta alguns gargalos, como a escassez de pessoas qualificadas. No início, profissionais foram trazidos da Europa e dos Estados Unidos para transferir conhecimento. De lá para cá, houve uma intensificação da formação de pessoas”, diz Elbia, da Abeeólica.

Indústria naval

Mas as oportunidades do setor energético não se restringem aos parques de energia eólica. A cadeia produtiva do petróleo também está aquecida no Nordeste, e a indústria naval é uma das que mais têm contratado. Com investimentos simultâneos ocorrendo em diversos estados, o setor deverá gerar cerca de 15 000 empregos diretos na região, com boas oportunidades para engenheiros navais, cujos salários estão cotados entre 5 000 e 14 000 reais.

O grande símbolo do deslocamento da indústria naval do Sudeste para o Nordeste é o Estaleiro Atlântico Sul (EAS), sediado no Complexo de Suape, em Pernambuco, desde 2008 e com uma carteira de investimentos de 8,1 bilhões de dólares. O estaleiro conta com 6 200 empregados e deve chegar a 7 000 até o fim deste ano. O estaleiro norueguês Vard Promar, também em Pernambuco, começou a operar no ano passado.

Hoje, a empresa tem 900 funcionários, mas até junho outros 800 devem ser contratados. Até 2015, o Vard Promar prevê chegar a 3 000 funcionários para atender à demanda crescente do setor.

Também em Suape, o CMO deve ficar pronto ainda neste ano e gerar 7 000 postos de trabalho. Mais três estaleiros devem ser construídos no local nos próximos anos. “Estamos dependendo da dragagem do porto para a operação ser concretizada”, afirma Silvio Leimig, diretor do Fórum Suape Global.

Na Bahia, em Maragogipe, está sendo construído o estaleiro Enseada do Paraguaçu, da Odebrecht, da OAS e da UTC em parceria com a japonesa Kawasaki. A obra deve gerar 4 000 vagas. O Enseada do Paraguaçu forma com o Estaleiro da Bahia (Ebase) e o Estaleiro São Roque do Paraguaçu o Polo da Indústria Naval do estado.

Outro empreendimento que está aguardando licença para instalação é o Estaleiro do Nordeste (Enor), em Coruripe, Alagoas. Com operação prevista para meados de 2017, o estaleiro de reparos navais Empresa de Docagens Pedra do Ingá (EDPI) vai se instalar na Paraíba.

Em Pernambuco, em Itapissuma, está sendo instalada a Cambel BR, subsidiária do grupo espanhol Cambel Europa, que vai produzir blocos e embarcações de apoio às empresas do setor naval. O investimento de 20 milhões deve gerar 500 empregos até o fim deste ano.

Grandes projetos e promoção

Natural do Paraná, o engenheiro eletrônico João Paulo Massignan, de 31 anos, passou no concurso da Petrobras em 2008. Depois do treinamento no Rio de Janeiro, ele pediu transferência para Ipojuca (PE) para trabalhar na construção da Refinaria Abreu e Lima.

“As unidades de outras regiões já têm quadro definido, sem muita possibilidade de movimentação de carreira”, afirma. A aposta foi acertada e João Paulo já foi promovido a engenheiro de equipamentos pleno. “Não penso em sair da região tão cedo”, diz ele.

Carnaval fora de época e turismo de negócios

Além das praias paradisíacas e da cultura regional, neste ano a Copa do Mundo aumenta o potencial turístico das cidades-sede do Nordeste — Recife, Salvador, Natal e Fortaleza. Para atrair os visitantes estrangeiros, a prefeitura de Salvador vai realizar até um Carnaval fora de época no dia seguinte à partida entre Holanda e Espanha, a ser disputada na capital baiana.

Numa região onde a contribuição do turismo ao PIB local supera a média nacional de 4% e se aproxima dos 10%, o aumento do número de viajantes tem impacto direto na geração de empregos. Por isso, os governos regionais têm apostado no turismo de negócios para manter os hotéis lotados o ano todo.

Em 2012, o Nordeste foi a região onde essa modalidade de turismo mais se expandiu, segundo o Ministério do Turismo. Para atender a essa demanda, a rede Accor inaugurou em novembro dois empreendimentos em Salvador que geraram 121 empregos. Os hotéis fazem parte do primeiro complexo empresarial de Salvador, o Hangar Business Park, que reúne quatro torres comerciais e um shopping center.