Como Nizan Guanaes se livrou da epidemia workaholic

Jornadas diárias de 12 horas, fim de semana com trabalho e falta de tempo para o lazer. Saiba como lidar com essa realidade e conheça as histórias de quem já superou a neura

São Paulo – No último ano, o publicitário baiano Nizan Guanaes, de 54 anos, presidente do Grupo ABC e notório workaholic, tomou uma série de medidas para melhorar sua qualidade de vida. Começou a correr, passou a se alimentar melhor e restringiu o número de viagens e de eventos sociais noturnos.

Animado com os resultados que obteve para a própria saúde, resolveu estimular os funcionários da Africa, uma das agências do grupo, a fazer o mesmo.

Em janeiro deste ano, baixou a seguinte medida: às 8 da noite, as luzes da agência se apagam e todo mundo tem de ir embora. Era de esperar que a medida encontrasse grande respaldo entre os empregados. Mas não foi exatamente o que ocorreu no primeiro instante.

“Ninguém achou ruim, mas também ninguém acreditou que fosse pra valer”, diz um profissional de planejamento acostumado ao ritmo frenético de Nizan. As reações à medida foram as mais curiosas.

Para concluir um projeto, uma equipe de criação foi parar na casa de um cliente — de acordo com esse pessoal, o desligar das luzes atrapalhava a execução do trabalho. Outro grupo, que aderiu à saída às 8, passou a chegar às 4 da manhã para dar conta do trabalho.

A reação mais estranha foi a de um funcionário que perdeu a noção do tempo que lhe sobrava. “Ele veio à minha sala para perguntar o que fazer, como se não tivesse família ou amigos”, diz Suzana Almeida, gerente de recursos humanos da agência. 

O caso da Africa ilustra bem duas situações que se tornaram corriqueiras no mercado de trabalho. De um lado, a empresa impõe um ritmo insano aos funcionários. De outro, o profissional assume cada vez mais responsabilidades e atribuições em nome de um crescimento profissional, de um ideal de eficiência e em busca de atualização contínua para acompanhar o mercado global. Os efeitos dessa dinâmica não têm sido benéficos nem para a organização nem para o profissional. A boa notícia: dá para reverter esse quadro.

Algumas empresas já descobriram isso. Na agência de Nizan, depois de quatro meses sob o novo horário, o clima de trabalho melhorou e o nível de estresse é menor. Há também casos de pessoas que já superaram essa neura, renegociando as prioridades com o chefe ou mudando de emprego.

Do lado do profissional, a mudança quase sempre vem depois de um grande baque: pode ser uma doença, a morte de alguém próximo ou qualquer outra coisa que leve a pessoa a fazer uma grande revisão da vida. Durante os últimos 20 anos, o médico Gilberto Ururahy, diretor do laboratório carioca de diagnósticos Med-Rio, examinou a saúde de executivos que lá realizaram mais de 50 000 check-ups.

Os números obtidos por ele são alarmantes. Hoje, 70% dos gestores brasileiros convivem com altos níveis de estresse, 50% são obesos, sujeitos a doenças cardíacas e diabetes, e 8% sofrem de depressão. Gilberto também resolveu investigar o que há por trás de um quadro tão negativo. Colecionando os relatos de pacientes, ele fez a seleção que está no quadro abaixo:

“Trabalho 60 horas por semana”

“Estou 24 horas plugado no meu smartphone”

“Eu preciso sempre conquistar mais”

“Não basta ser competente, preciso ser eficaz e inovador”

“Vivo em fadiga permanente”

Diante dessas frases (você provavelmente já disse algumas delas), Gilberto não tem dúvidas em afirmar: “A forma como se trabalha hoje promove um estilo de vida doente”. 

Para o filósofo francês e consultor empresarial Jean Bartoli, que há mais de 25 anos vive no Brasil, cresceu a percepção de que o dia ficou mais curto e a jornada, mais acelerada. “O perfil do workaholic, que nos anos 1990 ainda era exceção, se generalizou”, diz. A compulsão pelo trabalho virou uma epidemia.


Antes, eram casos isolados, de indivíduos que encontravam no trabalho uma fuga para as frustrações da vida, ou de determinadas pessoas dependentes de adrenalina que usavam o trabalho para obter a carga hormonal necessária para satisfazer seu sistema nervoso. Resumindo, o workaholic do passado era uma pessoa que usava o trabalho para mascarar um desequilíbrio pessoal. 

Esse quadro continua existindo, mas não explica totalmente o que ocorre hoje nos escritórios. Isso porque a sensação de trabalho excessivo acomete do estagiário ao presidente da companhia. As pesquisas de clima interno das organizações comprovam isso. No escritório do laboratório farmacêutico Boehringer Ingelheim em São Paulo, por exemplo, os funcionários têm a opção de trabalhar de casa uma vez por semana.

A carga elevada de trabalho, no entanto, tem impossibilitado que o pessoal usufrua o benefício. Prova disso é a sala de videogame da sede da Boehringer, que vivia vazia e agora foi transformada em sala de reunião. As queixas pela carga elevada de trabalho já chegaram aos ouvidos do RH, que defende que os funcionários precisam gerenciar melhor o tempo.

O número de profissionais insatisfeitos com a pressão e a carga de trabalho oscilou na casa dos 40% na última década no Brasil, segundo os dados da consultoria Towers Watson de São Paulo, que aplica pesquisas de clima em grandes companhias brasileiras e em multinacionais que atuam no país. Isso sugeriria que a neurose do trabalho está sob controle. Mas não é bem assim. Na felicidade dos profissionais há forças opostas agindo.

De um lado, as empresas melhoram benefícios e proporcionam mais conforto aos funcionários, com bons planos de saúde, massagem e academia de ginástica na sede ou horário flexível.

Mas essas vantagens apenas mascaram as atuais condições de trabalho: a pressão por desempenho aumentou, as equipes estão menores e são formadas por jovens inexperientes, e os salários estão mais baixos, levando em consideração o nível de responsabilidade.

“O índice permanece constante porque as organizações aprimoram alguns pontos para compensar a permanente busca por eficiência operacional”, diz Cyro Magalhães, consultor da Towers Watson. 

Negocie com o chefe

Como nada indica que as companhias mudarão essa lógica, cabe ao profissional negociar com a chefia e estabelecer limites saudáveis. Por mais dura que seja a conversa, essa é a única saída. “Existe uma crença entre os executivos brasileiros de que eficiência é dizer sempre ‘sim’ para não contrariar o chefe”, diz a coach carioca Eliana Dutra. “Mas é preciso saber aprender a questionar e negociar as ordens com argumentos racionais.”

Para a psicóloga Liliana Scheliga, diretora da Mind Solutions, clínica especializada em programas de assistência psicossocial, por mais que exista pressão o profissional deve assumir a responsabilidade apenas sobre aquilo que dá conta de fazer. “Cada novo compromisso terá impacto sobre sua saúde e vida pessoal e é preciso ter uma percepção de nossas limitações, para evitar frustrações”, afirma Liliana. “Por mais que nos sintamos sob pressão, sempre temos uma opção”, diz ela. 


Essas escolhas diárias deveriam ser norteadas por uma meta de carreira. É o que sugere o consultor José Valério Macucci. Para ele, é preciso ter claro qual é seu conceito de sucesso e depois questionar qual é seu ideal de felicidade. Em seguida, deve-se avaliar se esses dois conceitos estão alinhados. “Só assim o profissional poderá saber se tem assumido os compromissos certos para assegurar sua felicidade, ou se está comprometendo sua saúde em prol de um ideal que não é o dele”, diz.

Há alguns anos, Valério, que fez carreira em multinacionais de consultoria e auditoria e no Banco Itaú, onde foi executivo de recursos humanos, trocou a vida executiva pela carreira acadêmica e a cidade de São Paulo, onde morava, pela pacata Vinhedo, no interior paulista. Tudo isso em busca de maior qualidade de vida e tempo para a família.

O movimento de carreira de Valério ensina uma lição importante: para administrar bem o fluxo, a saída é ter clareza de seus objetivos no trabalho e na vida. Valério queria ter mais tempo livre para a família quando decidiu não retornar ao mundo executivo depois de sair do Itaú. “É preciso ter critérios claros para definir o que é realmente importante”, diz o filósofo Mario Sergio Cortella, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Do contrário, é muito fácil ser dirigido pela agenda do chefe ou por prioridades que não estão alinhadas aos seus planos pessoais. 

Angústia moderna

Atualmente, além dos desafios no trabalho, as pessoas têm dedicado boa parte do tempo para os treinamentos e cursos de atualização. “Há uma obsessão por atualização”, diz Cortella. Até a viagem de férias, o momento em que a pessoa deveria estar justamente esvaziando a cabeça, é tratada como uma oportunidade para fazer cursos rápidos, conhecer gente ou aprender coisas úteis para usar no emprego. “Temos a sensação de que precisamos nos qualificar permanentemente”, diz o filósofo.

Uma parte central dessa questão é que ela foi amplificada à enésima potência pela tecnologia e, mais especificamente, pelas redes sociais. Isso ocorre porque os sites de relacionamento aumentam o poder de comparação das pessoas. Se entrar no Facebook, um profissional encontrará uma série de coisas legais que seus amigos acabaram de fazer. Entrando no LinkedIn, ele tem acesso a milhares de currículos de gente de seu mercado, idade ou formação.

Com o Twitter, descobre as ideias de cada um e o que eles têm feito da vida ultimamente. Diante desse cenário, o profissional olha para seu currículo e seu tempo, que são limitados, e os compara com as infinitas possibilidades de formação, relacionamento e modo de vida que pipocam na tela à sua frente. Obviamente, o resultado é a angústia de não ter realizado quase nada.

Os americanos criaram uma expressão para definir esse sentimento: fomo. Um acrônimo de fear of missing out — traduzindo, o medo de perder algo importante. Em outras palavras, as redes sociais, que são ótimas para encontrar amigos e colegas, podem contribuir para a ansiedade profissional quando mal gerenciadas.


“As pessoas ficam angustiadas porque não conseguem processar esse volume de informação”, diz Christian Barbosa, especialista em gestão do tempo. O estrago emocional fica completo quando as redes sociais se somam a dois velhos conhecidos do mundo do trabalho: o e-mail e o celular, as duas tecnologias que foram as pioneiras na implosão das fronteiras entre vida profissional e pessoal.

“A tecnologia da informação virou tecnologia da localização”, diz Valério Macucci. Em outras palavras, você está acessível durante as 24 horas do dia, sete dias por semana. Portanto, é importante saber quando se desligar. Outro passo é admitir que fazer tudo e estar em todos os lugares é impossível. 

Encare a mudança

Muitos profissionais atribuem o ritmo alucinado às mudanças imprevistas do mercado: fusões e aquisições, concorrências, evoluções tecnológicas, reestruturações, mudanças de chefe. Todas causam estresse. Em diferentes intensidades, essas situações impactam os indivíduos. Os estudos sobre bem-estar classificam esse impacto em cinco esferas: profissional, financeira, física, social e comunitária. A operadora de telecomunicações Nextel, por exemplo, usa esse conceito em seu programa de qualidade de vida.

Segundo o Instituto Gallup, apenas 7% das pessoas estão bem em todas as cinco dimensões. Conquistar o equilíbrio no trabalho, onde se passa de 50% a 70% do dia, é o passo mais importante para ficar harmonizado em todas as outras. “Quem se sente bem na esfera profissional tem duas vezes mais chances de estar bem nas outras dimensões”, diz Alberto Ogata, da Associação Brasileira de Qualidade de Vida.

 A melhor maneira de superar o cenário de mudanças constantes é encará-lo e procurar os aspectos positivos que ele traz. Segundo David M. Herold, professor de comportamento organizacional do Georgia Institute of Technology, dos Estados Unidos, pessoas que resistem às mudanças experimentam sentimentos negativos, ficam doentes mais vezes e tendem a pedir demissão mais frequentemente.

A instabilidade também causa medo de errar e de não se adaptar ao novo cenário. A saída para administrar a insegurança em torno das mudanças é procurar informar-se ao máximo sobre elas. “Quem vê o cenário com maior clareza pode perceber novas oportunidades e tirar proveito da transição”, diz o coach João Mendes, da Vicky Bloch e Associados. 

“Depende de nós bloquear os padrões workaholics que as companhias tentam impor”, diz o escritor inglês Nigel Marsh. Uma coisa é certa: nos tempos atuais, esse movimento exige atitude firme. Descuidar desse item é abrir brechas para que o trabalho ocupe partes de sua vida que deveriam ser dedicadas a outras atividades. Uma mensagem final, do filósofo Jean Bartoli: procure encontrar sentido no trabalho, porque nem isso a empresa vai fazer por você. “É preciso ter um projeto que engrandeça a vida pessoal”, diz Bartoli. “A produtividade deve estar a serviço dessa obra, e não o contrário.”