A 89, a Rádio Rock, voltou de mãos dadas com o UOL

A história por trás do retorno da 89 FM, ícone paulistano dos anos 1990, mostra que uma equipe engajada é capaz de superar desafios considerados intransponíveis

São Paulo – Há cinco meses, a 89 FM – A Rádio Rock, de São Paulo, está de volta ao dial (agora com o nome UOL 89 FM), na mesma frequência (89,1 MHz) que a consagrou nas décadas de 1980 e 1990, e também na internet (radiorock.uol.com.br/site).

A história por trás do retorno da 89 FM mostra que uma equipe engajada é capaz de superar desafios considerados intransponíveis. Para entender o tamanho desse desafio é necessário retomar a história da emissora.

Fundada em 1985, a 89 FM atingiu seu auge durante a década de 1990, quando passou a promover grandes festivais de música, ao mesmo tempo que revelava para o público jovem profissionais como o médico Jairo Bouer, o apresentador Edgard Piccoli e até mesmo João Gordo, que era conhecido apenas pelos fãs da banda de punk rock Ratos de Porão, da qual foi vocalista.

À medida que foi ganhando audiência, até se tornar a número 1 em seu segmento, a rádio diversificou sua programação musical – tornando-se mais pop. No começo, a estratégia deu certo e trouxe ainda mais ouvintes para a 89 FM. Porém, os ouvintes mais fiéis se sentiram traídos.

Depois de seis anos tocando música pop – numa tentativa desesperada de fazer a empresa voltar a ter lucro – e de um 2012 moribundo, que quase culminou na venda da rádio para uma igreja evangélica, o diretor Junior Camargo conseguiu, em menos de um mês, dar uma guinada e evitar o funeral da consagrada marca. No dia 21 de dezembro do ano passado, a 89 FM voltou ao dial em sua versão original, só tocando clássicos e novidades do mundo do rock’n’roll.

Como parte desse retorno inesperado, estavam cinco nomes estrelados, que já tinham participado do time de locutores anteriormente: Cadu, Luka, P.H., Tatola e Eric Santos. Além deles, mais dois produtores da fase antiga foram recontratados. Ter nomes de peso, já conhecidos do público, era parte fundamental da estratégia para a volta da rádio.

Assim que assinou o contrato com o site UOL, o que permitiu a salvação de seu negócio, Junior já tinha dinheiro e argumento para ir atrás de seus antigos talentos. Com pouco tempo para ajeitar a casa antes da reestreia, o diretor sabia que aquelas cinco vozes ajudariam a trazer de volta o que ele chama de “DNA da rádio”.

Alguns deles, como Cadu Previero e Paulo Henrique Dragani (o P.H.), por exemplo, cresceram e amadureceram na 89 FM. “Eram os nomes fortes por trás do nome forte, e eu não tinha tempo para treinar ninguém”, conta Junior. “Eles já sabiam o que fazer.”


A devoção pela marca e o desejo de fazer novamente algo pelo qual os locutores eram apaixonados facilitaram o trabalho do diretor na hora das propostas. “Topei mais que na hora, chorei de emoção”, diz Luciana Salomão, a Luka.

A Rádio Rock, explica ela, foi a experiência mais marcante de sua vida. “Ela me transformou como pessoa, fazia – e faz – total parte do meu estilo de vida.” A mesma reação tiveram os demais. Principalmente porque a maioria estava fora do rádio.

Para a oferta ficar mais tentadora, Junior garantiu que eles poderiam continuar com seus outros trabalhos e projetos. João Carlos Godas, o Tatola, trabalha como gerente em um hotel e segue para a rádio no fim da tarde. Luka é coordenadora de eventos na Midas, produtora musical de Rick Bonadio, descobridor de grandes talentos da música nacional.

Eric faz locuções para comerciais e investe paralelamente na carreira de músico. Cadu foi o mais perseverante na trilha do rock. Passou pela já extinta Mitch.FM, que por um período curto atendeu à demanda dos ouvintes da 89 FM, e montou sua própria rádio virtual, a Green FM, em 2012.

“O Junior me ligou num dia à noite e às 9 h do dia seguinte eu já estava apresentando um programa”, diz o locutor, que estreou na rádio em 1995. Na 89 FM, que ele ouvia desde a estreia em 1985 (leia quadro), Cadu aprendeu a fazer rádio de uma maneira revolucionária para a época. “Era outro estilo de locução, era mais conversado, intimista, bem próximo do ouvinte.”

Fé no projeto

A negociação mais árdua de Junior foi com P.H. O locutor estava trabalhando na Band, cobrindo esportes. Como seu então empregador não o liberou para fazer parte da trupe da Rádio Rock, ele pediu demissão e, mesmo por um salário mais baixo, aceitou a proposta de Junior. Por causa disso, foi o último a se juntar ao time: só entrou no ar em janeiro.

Todos os outros voltaram em dezembro, em plena véspera de Natal e Ano-Novo. “Fui bem criticado, disseram que eu agi com emoção”, diz o locutor. “Mas se eu ficasse na Band, contrariado como estava, ficaria desmotivado e não renderia nada, mesmo amando esportes.” Quando P.H. entrou na rádio como estagiário, em 1996, só tinha experiência de assistente técnico de computadores.


Estava trabalhando na Nestlé e tinha de se vestir socialmente. No dia da entrevista na rádio, trocou de roupa no estacionamento da empresa: vestiu jeans e camiseta para ir de forma adequada ao processo seletivo.

P.H., assim como seus colegas, acreditou na volta da transmissora. Apostou todas as fichas na recepção que a agora UOL 89 FM (por causa da parceria, o nome do portal foi agregado) teria com o público antigo, de mais de 30 anos, que formava toda uma geração saudosa de uma rádio rock’n’roll.

A única dúvida era se a moçada mais jovem iria curtir. Para rejuvenescer a marca, Junior determinou que ao menos 30% da programação deveria ser de bandas e músicas novas, podendo aumentar para 50%.

O momento atual, com festivais de rock pipocando pelo país e com o surgimento de novas bandas no cenário nacional e internacional, deu o empurrãozinho que faltava. Resultado: em apenas cinco meses, a audiência aumentou 34% e a tornou líder no segmento.

A parceria com o UOL, o braço de internet, faz seu som tocar longe. “Todos os dias recebemos pelo menos dez e-mails do Japão”, diz Junior, que também se surpreendeu com a quantidade de ouvintes no Nordeste. Para o diretor de marketing do UOL, Ricardo Dutra, a aposta foi certeira. “Melhorou nossa imagem”, diz ele. “Acreditamos tanto na marca que a parceria foi fechada em quatro dias.”

Com o crescimento acelerado, e bem antes do imaginado, foi possível compensar financeiramente os locutores que abraçaram a causa. “A parte financeira realmente não foi o que me motivou”, afirma Luka. “A grande razão foi ser uma rádio que eu amo com pessoas que eu adoro.”

Os demais funcionários também estão satisfeitos, garante Junior, que é ao mesmo tempo diretor e gerente de recursos humanos da rádio. “Vejo na cara de cada um que estão todos entusiasmados com a causa.”  

A parte difícil foi convencer a família de Junior, dona do dial desde 1984. Com o apoio da agência Africa e a parceria com o UOL, o caçula se muniu de argumentos para convencer o pai e os três irmãos de que dava para salvar o negócio.

Diretor da rádio desde 1998, ele já amargava o fato de não ter brigado para manter seu estilo original em 2006, quando a audiência e os anunciantes sumiram. Num ato bem rock’n’roll, rasgou o contrato assinado pela igreja e disse que o retorno da Rádio Rock era sua maior causa, nem que fosse a última coisa que fizesse na vida. O pai, que reagiu mal no começo, anda orgulhoso da repercussão alcançada. E, no que depender do entusiasmo dos envolvidos, a Rádio Rock não sai mais do dial.


A força da 89FM

Ao som de Inútil, sucesso do Ultraje a Rigor, a então 89 FM estreou no dia 2 de dezembro de 1985. O nome foi criado com base na necessidade de mostrar aos ouvintes que o dial ia muito além do 96,9 até o 100,9. Como os aparelhos de rádio só tinham aquele botão que girava, a maioria só zapeava entre as estações do meio do dial.

O slogan era gigante: “89 FM – A Rádio do Rock, o Túmulo do Samba”. Com o tempo, sumiu a segunda frase. A rádio rapidamente caiu no gosto dos ouvintes paulistanos, mas foi nos anos 1990 que ela atingiu seu auge. “Mudamos o jeito de fazer rádio e muitas bandas cresceram com a gente, como Mamonas Assassinas, Raimundos e Charlie Brown Jr”,  diz o diretor Junior. Na década de 2000, começou uma crise existencial.

A concorrência tocava de tudo e estava à frente no Ibope. Os jovens dos anos 1980 tinham envelhecido. A tentativa de fazer o que os outros faziam deixou a rádio sem identidade. Sem avisar ninguém, em 2006, a 89 FM dormiu tocando Iron Maiden e acordou tocando Mariah Carey. Muitos locutores que não se identificavam pediram para sair naquela época, como a Luka. “Nos acovardamos”, afirma o diretor. Seis anos depois, uma nova crise financeira e a guinada radical narrada acima. 

A saga da rádio vai virar um livro, escrito pelo jornalista Ricardo Alexandre, autor de Dias de Luta – O Rock e o Brasil dos Anos 80.