El RH corazón

O vencedor do Prêmio Profissional de RH do Ano quer democratizar o acesso

São Paulo – Determinação, paixão e família. Esses são os valores — herdados dos avós, combatentes na Guerra Civil Espanhola — que o argentino Fernando Salinas, de 38 anos, leva consigo. Nascido em Buenos Aires, o Profissional de RH do Ano tem — como seus antecessores no prêmio — uma carreira de sucesso, que envolve desde o ex-presidente da Argentina Carlos Menem até um garoto brasileiro, que mudou sua vida.

Filho de pai espanhol e mãe argentina, Salinas é o caçula dos dois filhos do casal. Começou a trabalhar aos 17 anos, vendendo roupas em lojas de marca nos feriados e fins de semana. Sonhando em ser diplomata, cursou relações internacionais e ciências políticas e, para obter experiência, participou de um estágio não remunerado no Ministério das Relações Exteriores.

Foi quando trabalhou no Cerimonial Público de Menem. Como não tinha salário, arrumou outro emprego numa companhia familiar, onde cuidava da folha de pagamentos dos cerca de 1.000 funcionários. “Fazia 4 horas de manhã na empresa, 4 horas à tarde no Cerimonial e à noite ia para a faculdade”, diz Salinas. 

Entre o mundo corporativo e o governo, ele optou pelo primeiro, desistindo da diplomacia. No último ano da faculdade, portanto, participou de uma seleção para o programa de trainee da Pilkington, fabricante inglês de vidro, e lá ficou por sete anos.

Foi nesse período que veio para o Brasil, para assumir a área de RH, saúde, segurança e finanças da fábrica de Caçapava, no interior de São Paulo. Ele tinha só 24 anos, uma equipe de 15 pessoas e muito a aprender. A primeira lição de liderança veio quando decidiu sozinho mudar o layout do escritório. “Na segunda-feira, ninguém olhava para minha cara. Falavam que eu tinha sido desrespeitoso”, afirma.

Salinas se desculpou e pediu ajuda à equipe, composta de profissionais até 15 anos mais velho do que ele. Com resultado, a planta virou referência mundial de eficiência operacional, saúde e segurança. A cultura do 5S chegou tão ao extremo que todos os funcionários da empresa – do diretor ao operacional – limpavam o banheiro.


Na Pilkington, Salinas ocupou o cargo de diretor de RH para a América do Sul, quando, num abrigo para crianças, em Guaratinguetá, no interior paulista, conheceu Ilio, um menino de 5 anos, portador de HIV e sem família. Sua vida começou a mudar depois desse encontro.

Aos 27 anos, solteiro, estrangeiro, ele decidiu pedir à Justiça a guarda da criança, pensando numa futura adoção. Em novembro de 2005, a guarda saiu. “Virei pai e mãe ao mesmo tempo”, diz. Ao levar Ilio para casa, no entanto, Salinas percebeu que a saúde do menino estava seriamente debilitada e que os médicos deram a ele poucos meses de vida.

Ao lado de Amanda, com quem casaria logo depois, Salinas descobriu um remédio fabricado pela área médica da Johnson&Johnson que vinha apresentando bons resultados nos pacientes portadores da doença e começaria a ser aplicado em crianças num hospital da Inglaterra.

Com a ajuda da J&J e do governo brasileiro, Ilio foi uma das primeiras crianças do país a ter acesso ao medicamento Presista. E isso transformou, mais uma vez, a vida de Salinas. “Quantas pessoas podem estar na mesma situação do Ilio e, se a gente não facilitar esse acesso aos medicamentos, não terão o tratamento que precisam?”, diz.

Movido por esse propósito, ele decidiu entrar para o time da J&J. Não foi fácil. Só após um processo que durou sete meses foi contratado para a vaga de gerente sênior de RH da Johnson&Johnson Medical, na época com 300 funcionários — hoje já são 850. Dois anos mais tarde, assumiu a diretoria de RH para América Latina e Brasil, cargo que ocupa hoje.

Com a missão de levar medicamentos, máquinas e boas práticas de gestão para a área da saúde no Brasil, o RH da J&J Medical tem atuação crítica no desenvolvimento do negócio. “Ajudamos a criar as capacidades necessárias para um crescimento sustentável de curto, médio e longo prazo”, diz Salinas.

O principal trabalho da área é com os líderes. Para torná-los “presentes”, o programa Diálogo com a Liderança transforma os diretores não comerciais em embaixadores de um território do Brasil. Eles visitam a área, conversam com a equipe, levantam as principais reclamações dos clientes e fazem happy hours.

O executivo também criou o Comitê de Engajamento, no qual 20 empregados de diversas áreas analisam o resultado das pesquisas de clima e a do Guia VOCÊ S/A – As Melhores Empresas para Você Trabalhar, avaliam os pontos de melhoria e sugerem ações. “Quem deve avaliar se o trabalho do RH está bom ou não são os funcionários e os líderes”, diz Salinas. Pelos números da empresa, está. Hoje, o turnover da J&J Medical é de 4%, a intensão de ficar na companhia, de 90%, e o nível de engajamento é de 92%.