Educação que faz um presidente

Engenheiros e administradores. A maioria dos presidentes das empresas classificadas na edição 2002 do Guia EXAME — As 100 Melhores Empresas para Você Trabalhar tem essa formação. É a primeira vez que a pesquisa traz informações sobre a vida acadêmica dos executivos do topo. Dos 82 que responderam ao questionário, 33 se formaram em administração de empresas, outros 30 cursaram engenharia (mecânica, elétrica, civil, de produção…) e sete fizeram mais de uma faculdade. A grande surpresa é que 12 deles revelaram não ter curso superior completo — o correspondente a 15% do total de entrevistados, uma média relativamente alta. Esses números acendem uma velha discussão no mundo corporativo. No final das contas, faz mesmo diferença ter um diploma universitário? A resposta é: depende.

“A graduação funciona como uma espécie de certificado de garantia, mas perde a validade à medida que o tempo passa”, afirma o consultor Carlos Diz, da Spencer Stuart, multinacional de recrutamento de executivos. Dependendo do ponto da carreira, o canudo pode ser o pulo-do-gato na hora de conseguir uma vaga. O diploma tem muito valor no começo da vida profissional, quando a pessoa ainda não tem realizações para provar o que sabe. Nesse caso, ele pode funcionar como um indicador que dá uma razoável segurança ao empregador de que o candidato recebeu informações importantes sobre determinada área. “Isso, em tese, dá à pessoa mais condições de se sair bem na prática”, argumenta Diz. Por isso, na hora de decidir entre dois profissionais que têm pouca experiência, os caçadores de talento geralmente ficam com aquele que tem um diploma escondido na manga. “É uma opção menos arriscada. Se o candidato tiver boas notas e pós-graduação, melhor ainda”, revela Diz.

Só formação acadêmica não basta

Por outro lado, hoje em dia não é só o conhecimento técnico que é levado em conta. Desde que o psicólogo americano Daniel Goleman lançou a teoria do quociente emocional (QE), essa habilidade virou quesito obrigatório no currículo de qualquer profissional. “Tem gente que tem boa formação acadêmica, mas não sabe lidar com pessoas. E isso, na maior parte das vezes, não se aprende na escola”, diz o consultor Robert Wong, diretor regional para a América Latina da Korn/Ferry International, empresa de recrutamento e seleção de executivos. Segundo o headhunter, ir além das boas idéias também é fundamental. “Você pode ter lampejos de genialidade, mas, se não consegue fazer suas idéias virar realidade, não adianta.” Wong cita como exemplo o apresentador Silvio Santos, que não passou por uma faculdade e é famoso por suas idéias brilhantes. “Porém, ele só faz sucesso porque sabe transportar o que pensa para o mundo real”, diz Wong.

As melhores escolas

Para aumentar as chances de seus alunos no mercado de trabalho, algumas universidades vêm investindo na formação humana deles. E não pense que é preciso sair do Brasil para encontrar instituições desse tipo. Tanto que 67 dos presidentes citados no início desta reportagem fizeram o curso superior aqui mesmo. O maior número (dez) se formou na Escola de Administração de Empresas de São Paulo (Eaesp) da Fundação Getulio Vargas. “O principal motivo de nossos alunos se destacarem no mundo corporativo é que não ficamos apenas nas regras. Eles têm aulas de sociologia, de comportamento, de psicologia e de trabalho em equipe”, diz Abrahan Ficsu, vice-diretor acadêmico da Eaesp/FGV. Segundo o professor, os egressos do curso saem de lá com a matéria na ponta da língua: conhecem a técnica e sabem lidar com pessoas. “Esse é o nosso grande diferencial”, enfatiza. A formação do corpo docente é outra prioridade na FGV. “Temos um pesquisador acadêmico lecionando em uma sala e um diretor de empresas em outra”, diz Ficsu. Dessa maneira, o aluno conhece a parte teórica e também aprende como as coisas funcionam no dia-a-dia. A FGV (nesse caso, as unidades do Rio e de São Paulo) também se destaca quando o assunto é pós-graduação e cursos de especialização: 34 presidentes pesquisados optaram por fazer esses cursos em uma delas. Em seguida aparecem, empatadas, a Universidade de São Paulo (USP) e a Harvard Business School, nos Estados Unidos, com cinco ex-alunos cada uma.

A USP, aliás, com sua Escola Politécnica, aparece em segundo lugar no ranking das faculdades dos CEOs. Dos oito presidentes que concluíram a graduação na instituição, cinco fizeram engenharia na Poli, como a escola é mais conhecida. O segredo de tanto sucesso? “Em primeiro lugar, nosso vestibular faz uma excelente seleção e conseguimos ter jovens talentos como alunos. Dos 100 primeiros colocados na Fuvest, 30%, em média, estuda conosco”, orgulha-se Vahan Agopyan, diretor da Escola Politécnica da USP. Além disso, ele ressalta que a faculdade sempre teve uma linha bem pragmática de trabalho com as indústrias. Muitos professores desenvolvem projetos e prestam consultoria para o mercado. “Hoje, temos 280 projetos de pesquisa em instituições privadas. Com o governo, são mais de 100”, diz Vahan. Outro ponto forte da USP: formação consistente. “Muitas vezes, somos acusados de ser excessivamente teóricos, mas acreditamos que a informação muda rapidamente, enquanto a formação é para sempre”, diz o diretor.

Diplomas de primeira linha

“Sempre gostei de matemática e, por isso, resolvi fazer engenharia elétrica. Cursei a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. No último ano, tranquei a matrícula porque tinha sido chamado para estagiar no Citibank, nos Estados Unidos. Voltei para o Brasil seis meses depois e concluí o curso. Consegui vaga em uma empresa que fazia rede de comunicação para bancos. No início, só havia três funcionários. Depois de um ano, virei sócio. Fiquei mais quatro anos por lá. A empresa cresceu e já contava com 30 colaboradores — o problema é que eu sentia uma enorme dificuldade

em administrar o negócio. Foi então que tomei outra decisão: vendi minha parte e fui fazer MBA nos Estados Unidos. Passei dois anos estudando e quatro meses trabalhando em Wall Street, Nova York. Foi uma escola e tanto. Quando terminei, queria voltar para o Brasil para realizar algo mais empreendedor — como o que havia feito no meu primeiro emprego. Então, fui trabalhar com a GP Investimentos, em São Paulo.

Minha função era analisar e acompanhar as oportunidades de investimentos para a empresa. Não posso negar que a engenharia me deu facilidade para lidar com números. Senti na pele também que o fato de ter feito MBA aumentou minhas chances. Mas o que vejo de mais importante hoje no meu trabalho é a parte de motivar as pessoas. E isso eu não aprendi em curso nenhum — o que ajuda a explicar o fato de que muita gente sem graduação pode acabar se dando bem em uma empresa.”

Alexandre Behring, carioca, 35 anos, presidente da América Latina Logística do Brasil (ALL), que tem sede em Curitiba, PR

As lições da vida

“Aos 20 anos, quando cursava o primeiro ano de engenharia civil na Universidade Federal de Minas Gerais, consegui um estágio em uma construtora. Foi meu primeiro emprego. Não exercia uma função específica, ficava de olho em tudo.

De tanto observar, aprendi a calcular o pagamento dos funcionários. Criei um programa para o departamento de pessoal da empresa que foi um sucesso. Com ele, os cálculos, que antes levavam uma semana para ficar prontos, passaram a sair em dois dias. Percebi que poderia fazer o mesmo em outras empresas. Na época, ganhei um computador de presente do meu pai e fiquei tão empolgado que saí anotando o telefone de todas as construtoras que via na rua para oferecer meu programa. Deu tão certo que tive que parar de estudar para dar conta do recado.

Minha família fazia pressão para que eu continuasse os estudos. No final, acabou aceitando que isso não iria acontecer. Senti falta do diploma uma única vez. Foi em uma palestra para professores universitários, quando me perguntaram se o fato de não ter graduação nunca havia me prejudicado. Respondi que ainda bem que não tinha me formado, pois não teria conseguido tempo para construir a empresa que possuo hoje. Como resposta, ouvi que aquilo era um absurdo. Foi meio constrangedor. Sei que sou o exemplo que os malandros gostam porque não estudei e estou bem de vida. Isso é relativo. Deixei de ir à faculdade para trabalhar e não para me divertir. Gostaria que minhas filhas fizessem faculdade. No meu caso e no de Bill Gates, não deu jeito. Fazer o quê?”

Rodrigo Diniz Mascarenhas, mineiro, 38 anos, presidente da RM Sistemas, que fica em Belo Horizonte, MG