É assim que se faz

Conheça a fórmula vencedora dos pequenos empresários que estão criando emprego e renda no Brasil

Numa das salas do prédio onde funciona a Endeavor Brasil, ONG que estimula o empreendedorismo na América Latina, discutia-se como batizar a iniciativa de premiar novos líderes de negócios no país. Falou-se em criatividade, inovação, liderança, gente que faz, entre outras coisas. A discussão levou três horas, num início de tarde quente do final de janeiro, em São Paulo. Até que se chegou a uma lista com possíveis nomes. Para resolver como batizar o prêmio, uma dúvida inicial voltou à tona. Afinal, qual era a intenção de VOCÊ s.a. e da Endeavor com essa iniciativa? Colocar em evidência pessoas que lutaram para erguer seus negócios e puxar para cima o desenvolvimento do país. Resultado: “Empreendedores do Novo Brasil”.

O país já fez a lição de casa para crescer. Temos estabilidade econômica, educação em alta e aposta de investidores. Mas ainda falta emprego, muito emprego, nas grandes cidades. Para piorar, as grandes empresas continuam demitindo. Em compensação, as pequenas estão gerando mais vagas do que nunca, como contou a matéria de capa da edição passada de VOCÊ s.a. De 1995 a 2000, elas criaram 20 vezes mais empregos do que as grandes — mais de 1,9 milhão no total. À frente do crescimento dessas empresas estão empreendedores como os que apresentamos nas páginas a seguir.

Entre fevereiro e março, recebemos cerca de 250 inscrições. De Belém do Pará a Porto Alegre, de Caldas Novas (Goiás) a Sobral (Ceará). O perfil dos candidatos dá um belo retrato da economia do Brasil: a maioria dos inscritos é da Região Sudeste, com o segundo lugar disputado por Sul e Nordeste. Entre os vencedores, há três histórias de empreendedores nordestinos, uma região cheia de novos negócios e boas idéias. Dois nasceram no sertão, em famílias pobres. Um deles, Severino Felix da Silva, da Escol@24Horas, tinha 5 anos quando a família fugiu da seca paraibana. Hoje ele é sócio do Banco Mundial e ganhou uma página no conceituado jornal francês Libération. O outro é João Mendes, sócio do Proteus, natural de Campos Sales, no sertão cearense. A origem humilde, algo nem tão raro no conjunto dos vencedores e dos inscritos, traz à tona uma característica animadora da nossa economia: a oportunidade. Com uma boa idéia na cabeça, hoje já é bem mais fácil começar um negócio do zero. Ou mesmo conseguir um investidor para ajudar a tirá-lo do papel. Existem pelo menos 30 fundos de investimento de risco para apostar em novas idéias, em atividades tão diferentes quanto agricultura e tecnologia da informação. A diversidade dos setores de atuação chamou a atenção de um dos jurados , na reunião para a escolha dos vencedores. José Luiz Osório, presidente da Comissão de Valores Mobiliários, percebeu um dado revelador do ambiente em que os negócios dos empreendedores germinaram: um Brasil pós-privatização. “A maioria dos vencedores atua em setores que eram monopólio do Estado há cerca de uma década”, diz. “Se não fosse a privatização em setores como energia e petróleo, muitos negócios talvez não existissem.”

Veja o caso de Guto Pereira, da Pipeway. Ele fabrica “pigs geométricos”. (Nunca ouviu falar? É disso que se trata a inovação, característica-chave do empreendedorismo.) O “pig” é um robô que inspeciona dutos de óleo ou de gás em busca de imperfeições que possam resultar em vazamentos. Além da Petrobras, onde nasceu a Pipeway, há mais de uma dezena de empresas estrangeiras atuando em petróleo e gás no Brasil. Uma carteira e tanto de clientes potenciais. A privatização também deu impulso para Wilson Poit, da Poit Energia, que aluga geradores a diesel. Uma das principais áreas de atuação da sua empresa é a de telecomunicações. As empresas do setor precisam de geradores para fazer funcionar as torres de transmissão. Hoje, 120 torres de celular recebem energia dos caminhões de Poit. Mais um exemplo da mãozinha que a privatização deu para os empreendedores: cinco dos negócios vencedores dependem diretamente das telecomunicações. Solvo, Proteus e Impactool (todas com soluções em tecnologia da informação) e Infnet e Escol@24Horas (ensino a distância baseado na internet). “O atraso é uma grande oportunidade para o Brasil”, diz o jurado Sérgio Moreira, presidente do Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae). A história do paulistano José Roberto Assy confirma a tese. Em Caldas Novas, no interior de Goiás, ele descobriu como aumentar a produtividade agrícola adaptando as plantadeiras ao tamanho das sementes utilizadas no Brasil. O atraso tecnológico deu o impulso à Apollo, empresa criada em 1997 por Assy. Vem do esporte outro exemplo do progresso em cima do atraso. No país do futebol, três cariocas, Carlos Moreira Júnior, Edgar Diniz e Leonardo Lenz Cesar, descobriram como fazer um negócio rentável (e honesto!) organizando campeonatos no combalido futebol regional brasileiro. O Campeonato do Nordeste fez um sucesso e tanto. Acabou inspirando a criação da Copa Sul-Minas e a remodelação do Torneio Rio-São Paulo. Uma ousadia dos empreendedores, que encararam a confusão dos negócios esportivos brasileiros e estão conseguindo ter sucesso.

Além de inovação, iniciativa e ousadia, por trás desses negócios existe uma forte dose de paixão. Foi assim com o paulistano Lito Rodriguez, criador da DryWash, rede de lava-rápido espalhada por 120 franquias em 17 estados. Ele desenvolveu a fórmula para lavar carros sem água numa batedeira velha de sua mãe, em 1994. Levou três anos empenhado em fazer as pessoas acreditar no seu negócio. Hoje, existe uma fila de interessados. Empenho, luta, paixão e, sobretudo, sonho. Quem conta uma história de sucesso de um negócio invariavelmente fala do sonho. Não se trata de idealismo ou utopia, mas sim do motor principal de um novo negócio: a vontade de voar alto. Mais um exemplo que leva a teoria para a prática: o do cearense Egidio Guerra. Em 1996, ele começou a estruturar a rede de empresas que denominou “Empreendedores de Sonhos”. Articulou ONGs para sediar pequenas empresas tocadas por jovens da periferia com o auxílio gerencial de universitários. Criou, assim, 2 150 empregos. Gente que vai sair das incubadoras (as ONGs onde as empresas funcionam) para o mercado. Assim, criam seu emprego e o de outras pessoas. É pouco? Para ele, é. Guerra quer fazer isso em todo o Brasil.

É importante chamar a atenção para o principal mérito e objeto do sonho dos empreendedores: emprego e renda. “Hoje, existe uma febre de responsabilidade social entre os empresários brasileiros”, diz Marília Rocca, diretora da Endeavor Brasil. “Eles apóiam saúde e educação, mas estão esquecendo da renda, que não tem o mesmo apelo.” Marília refere-se ao tripé saúde, educação e renda, base do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), criado em 1990 pelos economistas Mahbub ul Haq, paquistanês, e Amartya Sen, indiano (prêmio Nobel de Economia). O índice é utilizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para medir o desenvolvimento de países, cidades ou regiões. Não adianta o Brasil melhorar saúde e educação enquanto as pessoas continuarem com baixa renda. Para mudar esse quadro, nada melhor do que mostrar a cara de líderes que puxam para cima a economia do país. Queremos que as 11 histórias das páginas seguintes sirvam de exemplo para os empreendedores potenciais espalhados pelo Brasil. Vá em frente e conte-nos sua história. Inspiração é o que não falta.

COMO FOI A ESCOLHA

O método de escolha dos Empreendedores do Novo Brasil foi adaptado do painel de seleção utilizado pela ONG Endeavor.

Conheça o passo-a-passo do processo a seguir:

1. Cerca de 250 empreendedores contaram suas histórias pelo site de VOCÊ s.a.

2. As equipes de VOCÊ s.a. e da Endeavor Brasil fizeram uma triagem nas inscrições, selecionando os candidatos com base nos seguintes critérios:

  • capacidade de apresentação
  • relevância da história pessoal e do negócio
  • pioneirismo e inovação
  • visão do negócio
  • conhecimento e comprometimento com o negócio
  • liderança e habilidade de execução
  • criatividade

    3. Os candidatos que preencheram melhor os requisitos acima foram entrevistados pessoalmente ou por telefone nos meses de fevereiro e março. Chegou-se, assim, aos 20 finalistas.

    4. Os finalistas participaram de entrevistas pessoalmente com oito jurados escolhidos por VOCÊ s.a. e pela Endeavor. Cada empreendedor teve 30 minutos para contar sua história a uma dupla de jurados, que elaborou um ranking dos entrevistados com base nos critérios já mencionados.

    Assim, foram escolhidos oito empreendedores.

    5. Depois, todos os jurados juntos escolheram mais dois empreendedores — e chegaram aos dez vencedores. O empreendedor social foi escolhido à parte e ganhou prêmio especial.

    OS JURADOS:

  • André Jakurski, CEO da JGP e fundador do Pactual

  • Alexandre Behring, CEO da ALL Logística

  • Dante Iacovone, presidente da BCP

  • Eduardo Bom Angelo, presidente da Cigna Previdência e Investimentos

  • José Luiz Osório, presidente da Comissão de Valores Mobiliários

  • Laércio Cosentino, presidente da Microsiga

  • Sérgio Moreira, presidente do Sebrae

  • Sidnei Basile, diretor-superintendente do Grupo Exame, da Editora Abril, que publica VOCÊ s.a.