E se dívidas pessoais arruinam o desempenho do funcionários?

Quando a falta de planejamento financeiro do funcionário deixa de ser um problema pessoal e passa a afetar seu desempenho, é hora de o RH ajudar a colocar ordem na casa e no bolso

São Paulo – Uma chuva de pedidos de adiantamento e de empréstimo consignado no início do ano ou na volta das férias. Desânimo e dispersão durante o expediente. Ausências frequentes para resolver pendências no banco. Esses são alguns sintomas de que a má administração financeira dos funcionários deixou de ser um problema pessoal e já afeta o desempenho na empresa.

Quando recebeu um empregado que pediu para ser demitido para “limpar o nome” com o dinheiro da rescisão, a gerente de RH da Drogaria São Paulo, Tereza Amorim, percebeu que precisava urgentemente implantar um programa de educação financeira. Assim, em 2006, foi criado o Saúde Financeira, projeto desenvolvido pela área de recursos humanos e aplicado desde o primeiro dia de trabalho do funcionário, no momento da integração.

“Eles recebem orientação sobre como utilizar a planilha de orçamento doméstico, que os ajudará não só a organizar seus gastos, como também a rever seus padrões de consumo”, diz Tereza. Durante o treinamento, que dura uma hora, são feitas simulações para chamar a atenção para as altíssimas taxas de juros do cheque especial e o que acontece quando se paga apenas a parcela mínima do cartão de crédito. O colaborador recebe também dicas de investimento.

A ideia é que o funcionário crie interesse pelo tema e tenha vontade de planejar suas finanças no médio e longo prazo. Ele também é convidado a fazer uma lista de sonhos, que podem ser concretizados se conseguir poupar uma porcentagem do salário todo mês. O símbolo do programa é um cofre, que os novos empregados recebem assim que entram na empresa.

Para implantar o programa, Tereza apostou no treinamento da equipe por profissionais da área de finanças. Um grupo de assistentes sociais também integra o time e é responsável pela continuidade do processo de orientação. “Quando um funcionário está ‘enrolado’, ele nos procura e passa por uma triagem para que seja avaliado o grau de endividamento”, diz a gerente de RH. Esse primeiro atendimento, sob sigilo, é seguido de mais três reuniões, uma por mês, em que o funcionário pode apresentar planilhas de orçamento doméstico atualizadas.


O resultado mais evidente dessas ações foi a queda expressiva no número de pedidos de adiantamento e de empréstimo consignado. Na Embalagens Jaguaré, uma pesquisa feita pela área de RH constatou que era muito comum um funcionário tirar férias e, na volta — com o adiantamento gasto e com novas dívidas —, recorrer a empréstimos. Outra situação frequente era os empregados gastarem o décimo terceiro com compras de Natal e, em janeiro, quando pesam no orçamento despesas extras como IPVA, IPTU, licenciamento do carro, material escolar e matrícula, a conta não fechar.

Para mudar esse quadro, cada um dos 240 funcionários agora é convidado para uma conversa informal com o RH na hora de receber qualquer tipo de benefício, bônus ou empréstimo consignado. “Começamos a orientar melhor os funcionários para pouparem. Além disso, as portas do departamento estão sempre abertas para uma orientação sobre como negociar dívidas ou trocar uma dívida mais cara por uma mais barata”, diz Renato Fernandes, gestor de RH da Embalagens Jaguaré.

Fazer as informações chegarem aos colaboradores por diversos meios é a estratégia da Visa do Brasil para acabar com tabus e introduzir a importância de cuidar da saúde financeira. “Por trabalharem em uma empresa de meios eletrônicos de pagamento, os funcionários sabem que este é um tema extremamente relevante”, diz Rosely Motta, diretora de RH da companhia. Por meio dos murais espalhados pela empresa e da intranet, os funcionários recebem dicas financeiras semanalmente. Além disso, todas as campanhas do Finanças Práticas, programa de educação financeira da Visa voltado para clientes em mais de 20 países, são dirigidas antes aos funcionários.

Na Kimberly-Clark, fabricante de produtos de higiene e bem-estar, os colaboradores em situação de endividamento mais sério podem, além da orientação financeira, contar com ajuda jurídica e psicológica por telefone. “O programa Konte Komigo auxilia o funcionário a se perceber diante de sua situação de endividamento, a refletir sobre seu comportamento junto a seus gastos”, diz Sérgio Nogueira, gerente de remuneração e benefícios da empresa. Os dados são sigilosos e o atendimento telefônico é feito por meio de uma companhia terceirizada.