Devo assumir que sou gay no ambiente de trabalho?

Nos últimos anos as empresas abriram as portas para a diversidade. Veja o que avaliar antes de sair do armário

São Paulo – Para profissionais homossexuais, assumir sua identidade no trabalho nunca foi fácil, mas, nos últimos anos, alguns avanços sociais amenizaram o dilema. Em primeiro lugar, a união estável homoafetiva virou uma realidade no Brasil.

No mercado de trabalho, muitas empresas adotaram políticas de diversidade — atualmente, 66% delas aceitam que os funcionários incluam companheiros do mesmo sexo no plano de saúde, segundo pesquisa da consultoria Towers Watson feita com 200 companhias nacionais e multinacionais.

“O cenário melhorou muito nos últimos dez anos, mas não significa que todas as organizações tenham programas de diversidade”, diz o psicólogo Klecius Borges, de São Paulo, que deixou há 11 anos a vida corporativa para montar uma clínica de terapia para homossexuais e seus familiares.

Diante de um cenário mais favorável, surgem duas questões: será que o preconceito acabou mesmo? E, agora que a empresa apoia, sair do armário vai trazer algum benefício profissional?

A aceitação da diversidade nas companhias se dá por questões de ordem prática. Ao disputar talentos, elas perceberam que não poderiam perder um funcionário por causa de sua identidade — sexual, racial ou religiosa. As multinacionais globalizadas puxam o movimento.

“Dentro do mesmo ambiente começaram a conviver pessoas de lugares diferentes, com outras línguas, culturas e comportamentos”, diz Borges. O dinheiro também motiva a criação de políticas de promoção da diversidade. A população homossexual brasileira é estimada em 18 milhões de pessoas, maior do que toda a população do Chile, e gasta até 30% mais do que os heterossexuais, segundo a consultoria InSearch, de São Paulo.

Ou seja, é um excelente público consumidor. Para falar com essa audiência é preciso ter profissionais que entendam as necessidades e as aspirações desse público.

Apesar das boas intenções das organizações, a discriminação não desapareceu. De acordo com uma pesquisa do site de empregos Trabalhando.com com 400 profissionais brasileiros de todos os níveis, homossexuais ou não, 54% afirmaram que existe preconceito sexual dentro das empresas, mas não assumido.


O mesmo levantamento, feito com 30 companhias de médio e grande porte, mostra que para 38% delas a decisão de contratar ou não um homossexual depende do cargo e da área de atuação.

“As empresas são homofóbicas, afinal a sociedade brasileira é homofóbica e uma empresa é formada por pessoas”, diz Eloisio Moulin, professor de administração da Universidade Federal do Espírito Santo, que em seu doutorado estudou a discriminação de homossexuais masculinos em bancos públicos.

Há dois anos, Alessandre Cadette, de 39 anos, gerente de atendimentos e processos da Skygraf, percebeu que um cliente, com quem ele negociava diretamente, se incomodava com o fato de ele ser gay. A companhia optou por passar o cliente para outra pessoa. Mas, oito meses depois, Alessandre voltou a atendê-lo.

“Ele entendeu que o fato de eu ser gay não mudava a minha postura profissional”, diz Alessandre, que é assumido desde o começo de sua carreira e lidera uma equipe de 108 funcionários. “Com eles nunca senti nenhuma dificuldade”, diz o gerente, que mantém um relacionamento estável há três anos e agora pretende morar junto com seu namorado.

 Abrir as portas

Sair do armário é uma decisão que só cabe ao profissional tomar. Por isso, o primeiro item a ser colocado na balança é o desejo pessoal. “Se ele não quiser se assumir, não precisa”, afirma Klecius. Diferentemente das mulheres e dos negros, que também sofrem discriminação, os homossexuais não têm um traço físico que determine se eles fazem parte de um grupo. Daí o dilema de revelar ou não a orientação sexual. 

Para um profissional que quer sair do armário, mas ainda não teve coragem ou sente que o ambiente não é favorável, a vida no escritório é um sacrifício. Por medo de alguém descobrir sua verdadeira identidade, ele costuma não frequentar eventos sociais, como happy hours. Quando vai, fica calado, afinal não pode nem comentar com quem passa o fim de semana.


“Ele parece difícil, antipático e não consegue estabelecer a intimidade necessária para formar uma rede de contatos forte”, afirma Adriana Nunan, psicóloga especialista no assunto, do Rio de Janeiro. E faz parte do jogo corporativo participar desses encontros. “Eles fortalecem a rede de relacionamentos e pesam na hora da promoção.”

A diferença é que, atualmente, mais homossexuais têm uma vida com relacionamentos estáveis e pretendem ou já têm filhos — segundo o Censo de 2010, o Brasil tem 60.000 casais homossexuais. Passar a vida mentindo não é uma solução.

Profissionais não assumidos costumam ser muito dedicados. “O mecanismo de defesa é fazer um grande esforço para ser competente, de modo que ninguém tenha o que dizer sobre ele”, diz Borges.

Ou seja, o estresse só vai aumentar: além de esconder sua vida pessoal, precisa ser um superprofissional. “Quanto mais um homossexual parecer um heterossexual, mais será aceito”, afirma Bill Pereira, professor de marketing da faculdade de administração da Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro, que em seu doutorado estudou a identidade homossexual. 

A opção de sair do armário não é fácil. “Se para um ator galã é complicado assumir, imagine para um funcionário de uma empresa”, diz Hélio Arthur Irigaray, professor e pesquisador da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ). Assim como ao se assumir em casa a pessoa pode ser expulsa, dentro do escritório ela pode ser demitida.

“Obviamente isso não é permitido por lei, mas o empregador muitas vezes alega outras desculpas, como corte de custos ou improdutividade”, afirma a psicóloga Adriana Nunan. Em outras situações, a revelação da sexualidade não altera em nada a rotina. “Em ambientes favoráveis, como organizações com políticas inclusivas, nada muda”, diz Borges. Ou seja, o importante é ler o ambiente e verificar o que é mais conveniente pessoal e profissionalmente.

“A cultura local pesa muito mais e se sobressai à da empresa”, afirma Hélio Arthur Irigaray. Em uma região mais conservadora ou machista, mesmo que haja políticas de diversidade, poderá transparecer preconceito dos colegas e dos gestores. Caso o ambiente não seja favorável, uma opção é buscar outro emprego ou manter o sigilo. “O profissional tem de colocar na balança o que ele tem a ganhar”, diz Adriana.


A decisão foi tranquila para Stefanie Teixeira de Melo, de 22 anos, técnica de suporte e sistemas da IBM. A multinacional americana tem uma política de diversidade aberta e inclusiva. O funcionário tem a possibilidade de se assumir para a área de recursos humanos e entrar no grupo de diversidade. É o empregado quem decide se seu chefe será avisado ou não. “Fiquei com bastante medo no começo, mas percebi que era importante assumir”, diz Stefanie, que tem um relacionamento estável há três anos. “Hoje trabalho melhor, me sinto menos presa, menos sufocada.”

Hora de sair

“Em momento algum senti a necessidade de assumir na organização”, diz Fabio Feitosa, de 42 anos, gerente de operações logísticas e comércio exterior da Kraft, fabricante de alimentos, de Curitiba. O assunto nunca se apresentou como um dilema. Fabio está na multinacional há 13 anos e hoje lidera uma equipe de 52 pessoas.

“Aconteceu de uma forma natural, e todos sabem”, afirma Fabio, que não enfrentou problemas mesmo quando foi transferido do escritório de São Paulo para Curitiba, em 2000. Transferências e expatriações são outro momento de tensão para quem não se assume e mantém um relacionamento firme. Quando vem uma proposta de mudança e precisa haver uma negociação doméstica, normalmente a situação fica complicada.  

Para quem está inseguro, os especialistas recomendam abrir apenas uma fresta em vez de escancarar a porta do armário. Aos poucos, é possível ouvir o que os colegas falam sobre o assunto dentro do escritório e avaliar a situação. Se o clima for favorável, a porta pode se abrir mais um pouco. 


“Normalmente os mais próximos são os primeiros a saber, eles já têm certa intimidade”, diz Borges. No nível operacional é mais fácil esconder — os funcionários são jovens e, héteros ou homossexuais, não são necessariamente casados. “Com as promoções na carreira, a empresa exige a presença do empregado em viagens, almoços, festas e eventos”, afirma Borges.

Nesse nível não é incomum profissionais afirmarem ter um relacionamento, mas o companheiro ou companheira nunca aparece. Os outros, é claro, desconfiam.

Esconder não necessariamente é o melhor caminho. As pessoas, tanto no mundo corporativo quanto na vida privada, têm uma rede de contatos. Como diz o poeta gaúcho Mário Quintana no poema Discrição: “Não te abras com teu amigo/ Que ele um outro amigo tem/ E o amigo do teu amigo/ Possui amigos também…”. Em tempos de redes sociais e em uma sociedade mais aberta, em que a maioria das pessoas tem um amigo homossexual, basta ver os amigos em comum e fazer uma pesquisa rápida. 

Sair do armário é mais que uma opção, é assumir a todos que a vida pessoal não precisa ficar escondida. Se você acha que ainda não está pronto, não precisa ter pressa. Tudo tem seu tempo. Mas, se acredita que já chegou a hora de contar a verdade, aproveite esta última informação: 11 de outubro é o dia mundial de sair do armário — entre nessa (ou saia).