A Kraft mudou de Curitiba para SP. Foi atrás de gente

Com dificuldade para atrair profissionais capacitados, a Kraft, multinacional de alimentos e bebidas, transferiu sua sede de Curitiba para São Paulo

São Paulo – Se você já teve de mudar de casa ou de cidade, sabe que quase sempre o movimento gera dor de cabeça. Imagine quando a empresa toda tem de se deslocar de uma posição geográfica para outra — e quer levar seus funcionários junto.

Foi o que aconteceu na Kraft Foods, multinacional americana fabricante do bombom Sonho de Valsa e do chiclete Trident, que no ano passado transferiu sua sede do bairro da Água Verde, em Curitiba, no Paraná, para o bairro do Brooklin, na capital paulista. O motivo de transferência é a disputa por gente capacitada. A Kraft vinha encontrando dificuldades para atrair mão de obra qualificada para Curitiba.

A razão, dizem os recrutadores, é que os melhores profissionais relutam em deixar os grandes polos de trabalho do Sudeste, em especial São Paulo e Rio de Janeiro, cidades consideradas vitrines para a carreira, que também oferecem maiores oportunidades de ganhos financeiros.

Diante da necessidade de recrutar mais gente, a Kraft decidiu levar seu escritório para São Paulo, onde há maior oferta de profissionais. O movimento é emblemático, pois demonstra o esforço que as companhias no Brasil estão dispostas a fazer para preencher as vagas abertas.

O caso também pode ser olhado sob a perspectiva dos funcionários, seus dilemas e as soluções encontradas por eles.  Não é improvável que um dia você esteja diante de situação similar.  

No ano passado a Kraft comprou a operação da sua concorrente inglesa Cadbury, fabricante de chicletes e confeitos de chocolate. A aquisição acelerou a decisão de transferir a sede da capital paranaense para São Paulo.

“Já vínhamos considerando essa mudança porque, com o aquecimento da economia, estava cada vez mais difícil atrair os talentos para Curitiba”, diz a diretora de recursos humanos, Roseli Marinheiro.


Além disso, a proximidade com o maior mercado consumidor do país foi levada em consideração. A área de RH, encabeçada por Roseli, também foi transferida para São Paulo e montou um plano de ação que movimentou ao todo 233 pessoas, considerando os 150 funcionários e seus familiares.  

Como a fusão de Kraft e Cadbury uniu duas empresas com expertises diferentes, menos de 20 funcionários foram demitidos. 

Plano de ação

O primeiro passo do plano foi divulgar um cronograma com as datas em que cada etapa de todo o processo de fusão e mudança aconteceria. Afinal, foi eleito um novo presidente para a companhia, Marcos Grasso, e novos líderes que se reportam diretamente a ele.

“Quando não se diz nada a ansiedade é enorme, mas se você se posiciona e diz quando cada coisa acontecerá e será divulgada, as pessoas confiam”, diz Roseli.

Em abril de 2010 os funcionários ficaram sabendo quais cargos mudariam para São Paulo. “Nesse meio tempo, as lideranças já estavam acertando com suas equipes para saber quem tinha possibilidade de mudar”, diz Roseli. Menos de dez colaboradores não quiseram se mudar. Nesses casos, a pessoa fez uma movimentação lateral e foi recolocada dentro da própria empresa — o que gerou satisfação. 

Em julho, os funcionários conheceram o pacote de mudança. Foi contratada uma consultoria especializada em ajudar companhias e funcionários em momentos de transição, a DBM de São Paulo. No pacote, estavam previstas viagens exploratórias de julho a setembro à capital paulista.

Nessas viagens, a consultoria levava os colaboradores para conhecer os pontos turísticos da cidade e lugares utilitários, como supermercados, escolas e hospitais nas redondezas de onde a empresa ficaria instalada, no bairro do Brooklin. Todos os custos da viagem, como alimentação e hospedagem da família, ficaram por conta da Kraft, claro.


Ainda dentro do pacote, havia mais uma viagem exploratória, que deveria ser realizada até dezembro, em que a consultoria colocaria as famílias em contato com imobiliárias e daria o suporte necessário para que elas encontrassem um novo lar. A Kraft se propôs a entrar como fiadora na locação do imóvel para quem não tem familiares na capital paulista.

A Kraft adiantou 5,5 salários líquidos para cada funcionário que topou se mudar, arcou com as despesas de carregamento da mudança e de transporte e transferência dos carros para a capital paulista.

Os gastos extraordinários com a escola das crianças, como cancelamento de matrícula, por exemplo, também foram assumidos pela empresa. A Kraft ainda se preocupou em ajudar na recolocação profissional dos cônjuges dos colaboradores — o que reduziu o atrito em casa em função da transferência.  

Em janeiro, a empresa inaugurou o novo e sustentável escritório. Aqueles que ainda não haviam conseguido se mudar puderam utilizar outro benefício do pacote de transição: o temporary living, em que a empresa bancou um mês de moradia em um hotel ou flat em São Paulo.

A gerente de trade marketing Cristina Azambuja utilizou a ajuda da empresa apenas para trazer a mudança e os carros. Conseguiu comprar um apartamento no mesmo condomínio em que seus pais moram. E os gêmeos, de 6 anos, têm aproveitado a área de lazer para fazer novos amigos e nem se lembram mais da capital paranaense.

O ex-marido da gerente também acabou se mudando para São Paulo para ficar mais próximo dos filhos. “Eles só choram quando se lembram do Max, cachorro que não pudemos trazer”, diz Cristina.