Mestrado profissional já é valorizado pelas empresas

Cresce a procura das empresas por pessoas com mestrado profissional, uma alternativa mais especializada que o MBA e menos formal que o mestrado acadêmico

São Paulo – Em maio de 2013, a Vale lançou seu curso próprio de mestrado profissional, que vai formar 11 funcionários e outras 11 pessoas de fora da empresa especializados no uso sustentável de recursos naturais. Entre empresas, somente Petrobras e Embraer também oferecem esse tipo de pós-graduação no Brasil, que em geral fica a cargo de faculdades e escolas de negócios.

O diferencial é que, enquanto as duas companhias oferecem os cursos em parceria com universidades, a Vale ministrará aulas numa academia própria, o Instituto Tecnológico da Vale (ITV), que tem status de faculdade e foi criado há quatro anos para desenvolver tecnologias que deem apoio a seus projetos.

De acordo com Roberto Dall’Agnol, coordenador do mestrado profissional, que é lecionado em Belém do Pará, a intenção é desenvolver uma visão interdisciplinar nos alunos e promover a pesquisa na região amazônica.

Para alunos do curso que já fazem parte do quadro da companhia, como o analista de meio ambiente no Rio de Janeiro Gustavo Sampaio, de 29 anos, a iniciativa foi muito conveniente. Gustavo já queria fazer mestrado profissional quando a empresa lançou o edital do curso, que representa uma oportunidade de crescimento interno.

“Eu já fiz outras pós-graduações, mas percebo que o mestrado está totalmente ligado a meu trabalho e vai me colocar em um degrau acima na carreira”, afirma Gustavo. 

Esse tipo de projeto segue uma tendência do mercado de valorizar a formação aprofundada dos profissionais. A começar pelo salário dos mestres, que, em média, é 84% mais alto do que o de trabalhadores que têm apenas a graduação, de acordo com estudo divulgado em abril de 2013 pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, sobre a situação de mestres e doutores no Brasil de 1996 a 2009.

Segundo o CGEE, esse abismo salarial é um sintoma da carência de profissionais qualificados no mercado. Dentro do universo dos mestrados, uma categoria específica — o mestrado profissional — tem se tornado um tipo de pós-graduação mais rica que os MBAs brasileiros nos últimos anos.


“O MBA é superficial e, por estar muito disseminado no mercado, deixou de ser diferencial na contratação”, afirma Helena Magalhães, diretora do escritório do Rio de Janeiro da Fesa, empresa de seleção de executivos. 

O mestrado profissional é uma modalidade de pós-graduação relativamente recente: foi criado em 1999 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), entidade que regula os cursos de graduação e pós-graduação no Brasil.

Hoje, existem 515 cursos desse tipo no país. Na última década, o número de pessoas que receberam esse título cresceu em média 50% ao ano, enquanto os titulados na versão acadêmica tiveram uma evolução de 10%. O CGEE mostra que o dono de um título de mestre profissional tem remuneração 37% mais alta que a de um mestre.

Entre alunos do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), de São Paulo, 60% dos alunos obtiveram aumento salarial ou promoção após a conclusão do mestrado profissional. Outros 40% foram promovidos ou decidiram empreender durante o programa. “O mestrado profissional ocupa um espaço que antes não existia no mercado e torna o trabalhador mais competitivo”, afirma Danny Claro, coordenador do mestrado profissional no Insper.

Maior responsabilidade

Embora existam MBAs no Brasil capazes de oferecer ao aluno um método de resolução de problemas, o mercado vê a maioria dos cursos dessa modalidade como reprodutora de modelos existentes. Já o mestrado profissional é visto como um curso que desenvolve a autonomia do aluno, que precisa pesquisar mais e obter suas próprias visões a respeito do assunto estudado.

“O mestrado profissional capacita os alunos a propor soluções inovadoras”, diz Helena Magalhães, da Fesa. A especialista acredita que a visão mais crítica aprimorada no curso tende a dar destaque para o funcionário nas empresas. Por ser stricto sensu, como qualquer programa de mestrado ou doutorado reconhecido pela Capes, o mestrado profissional tem peso maior que um MBA, que equivale a uma especialização no Brasil.

Isso significa que o aluno enfrenta uma carga horária mais intensa, em geral, desenvolve uma pesquisa e escreve uma dissertação acadêmica como trabalho final. Ao concluir o mestrado profissional, o aluno vai receber um diploma de especialista, que lhe permitirá fazer pesquisa ou dar aula na universidade.


Apesar de abrir as portas da carreira acadêmica para o profissional, o trabalho de conclusão de curso do mestrado profissional deve ter aplicação prática no mercado de trabalho, o que dificilmente ocorre numa dissertação tradicional. O próprio perfil dos alunos que buscam uma dessas formações é distinto.

“Os estudantes do mestrado profissional são, em geral, mais maduros e trazem problemas das empresas onde já trabalham para ser solucionados por meio de pesquisa”, diz Jorge Guimarães, presidente da Capes, de Brasília. 

Diferentemente do mestrado acadêmico, não existe a oferta de bolsas de estudo da Capes nos mestrados profissionais. Isso ocorre pelo fato de não haver a figura da dedicação exclusiva, no qual o pesquisador foca integralmente no mestrado.

A ideia do curso profissional é que a pessoa mantenha sua fonte de renda, sem necessitar de bolsa, fazendo as aulas em horários que permitam a conciliação entre trabalho e estudo. O investimento na pós varia de acordo com a instituição escolhida. No caso dos cursos oferecidos por universidades públicas, eles são gratuitos se não tiverem parceria com instituições privadas.

Se houver parcerias, o aluno financia parcialmente. Os valores na Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, vão de 18.000 a 33.000 reais. Em universidades privadas, o preço aumenta. Na Fundação Getulio Vargas (FGV), um mestrado profissional em economia pode custar cerca de 68.000 reais. 

O engenheiro Murilo Amaral, de 52 anos, atribui sua ascensão ao cargo de analista executivo no Inmetro ao mestrado profissional que cursou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele trabalhava no operacional de uma empresa fornecedora de energia e, logo depois do mestrado, passou nos concursos da Petrobras e do Inmetro.

“Os conhecimentos aprofundados que adquiri no mestrado profissional me permitiram passar com facilidade em concursos de alto nível. Foi um upgrade e tanto na minha carreira”, afirma.

Mesmo com todas essas portas abertas, muitas empresas ainda não perceberam a importância de ter um mestre profissional no quadro de funcionários, de acordo com Giuliana Menezes, gerente da consultoria Page Assessment, de São Paulo. Para ela, o mercado está bastante curioso com esse novo perfil de profissional, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido para que isso se torne uma nova cultura corporativa.