Crianças aprendem na escola a importância do empreendedorismo

“…para mim, é impossível existir sem sonho… é o caso de se aprender como caminhar e, em caminhando, reaprender inclusive a realizar o sonho…a vida me ensinou como grande lição que é impossível assumi-la sem risco”

Paulo Freire

O mês de abril de 2002 tem um significado especial. Através da ONG Visão Mundial, e de uma equipe maravilhosa de educadores, estarei iniciando a busca de realização de um antigo sonho. Crianças da pré-escola até o ensino médio, de populações carentes nas regiões de Montes Claros e Belo Horizonte, estarão recebendo uma educação empreendedora, através da metodologia que criamos, denominada Pedagogia Empreendedora. Para viabilizar essa estratégia pedagógica foi necessário conceber uma nova teoria sobre empreendedorismo, que atendesse aos propósitos de uma educação não diretiva. Ou seja, uma teoria que considerasse o empreendedor como ator central em qualquer atividade, e não somente na empresa. Assim nasceu a Teoria Empreendedora dos Sonhos. Junto com ela, o conceito de empreendedor coletivo e uma proposta de ética empreendedora vinculada à produção de valores úteis para a coletividade.

Resolvemos fazer isso através de um propósito ousado: criar condições para a introdução da educação empreendedora na pré-escola e no ensino fundamental. A tentativa de transformar este sonho em realidade desvelou a sua grande complexidade: a necessidade de se criar algo brasileiro (afinal, cultura não se importa) e a ausência na literatura de uma idéia que contivesse a amplitude conceitual que desejávamos dar ao empreendedorismo, deslocando do nível do fazer para o âmbito do ser. A idéia era fazer desgarrar-se de sua origem, a empresa, tornando ilimitada a sua aplicação. Acrescentando à sua essência características da cultura, como crenças, valores, visão de mundo. Mas pode surgir a pergunta: porque é necessária a educação empreendedora para crianças?

Há crença de que o empreendedor seja um fenômeno individual, um talento que surge à revelia do contexto social. Mas não é bem assim. Algumas condições são indispensáveis para que o espírito empreendedor, um potencial de qualquer ser humano, se manifeste. São elas a democracia, a cooperação e a estrutura de poder não verticalizada. Sem tais aminoácidos há pouco espaço para o afloramento do espírito empreendedor, um dos componentes do capital humano e fruto de altos níveis de capital social.

No Brasil, educar na área empreendedora significa:

  • Destruir mitos. Mito de que poucos podem ser empreendedores, de que a renda, poder e conhecimento devem estar concentrados em poucos que irão, um dia, reparti-la. Educar é destruir o mito segundo o qual se pode importar mitos culturais sem enfraquecer as nossas identidades e valores comunitários, algo precioso na era da mundialização.
  • Reconhecer a importância da nossa diversidade cultural. Ou acreditar na nossa capacidade de protagonizar os nossos sonhos e construir o nosso futuro. Significa ressuscitar a nossa auto-estima e, junto com ela, a capacidade e o hábito cotidiano de se indignar.
  • Mudar a nossa cultura sem mudar as nossas raízes. Pelo contrário, reconhecer e ampliar as energias que dela emanam.
  • Despertar a rebeldia, a criatividade, a capacidade de inovar para construir um mundo melhor.
  • Construir a capacidade de cooperar. Trata-se de dirigir energias para a construção do coletivo. É substituir a lógica do utilitarismo e do individualismo pela construção do humano, do social, da qualidade de vida para todos.
  • Explicitar a sua racionalidade e a sua ética: a quem e para que serve. A Pedagogia Empreendedora entende que o empreendedorismo, pelo seu potencial de ser utilizado com principal força na eliminação da miséria e na diminuição da distância entre pobres e ricos, tem como tema central o desenvolvimento humano, social e econômico.
  • Empreendedorismo significa protagonismo social, ruptura de laços de dependência, crença dos indivíduos e comunidades na própria capacidade de construírem o seu desenvolvimento através da cooperação Há um tipo de empreendedor pouco conhecido mas, felizmente, já presente em nossa sociedade. Eu o chamo de empreendedor coletivo, e o seu trabalho é produzir capital social ou, em outras palavras, fazer com que uma dada comunidade construa o seu sonho, um futuro do qual ninguém pode ser excluído. E isto se ensina ou melhor, aprende-se desde criança.

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    Fernando Dolabela é autor de cinco livros e um software sobre empreendedorismo, além de consultor de instituições de ensino e órgãos públicos