Correr é poder

A ex-bóia-fria Maria Zeferina Baldaia correu, literalmente, atrás do sonho de ser atleta. Consagrada como a campeã da São Silvestre, ela sonha agora com a Olimpíada de 2004

Disciplina, dedicação e força de vontade são indispensáveis na vida de qualquer atleta. A mineira Maria Zeferina Baldaia, primeiro lugar na tradicional corrida de São Silvestre em 2001, 29 anos, 1,56 metro, 45 quilos, sempre teve tudo isso. Ao longo da sua história, no entanto, faltou algo imprescindível: patrocínio. A carência era tanta que Zeferina correu descalça durante os primeiros dez anos de treino, em todo tipo de terreno: estrada de terra, asfaltada e até de pedras. “Apesar disso, meu pé é lisinho, pode acreditar”, afirma, bem-
humorada, a atleta. O primeiro par de tênis veio à custa de muitas bolhas. Zeferina conseguiu comprá-lo com um prêmio de 100 reais ganho pelo primeiro lugar numa prova disputada em Poços de Caldas, Minas Gerais, em meados da década de 90.

Idéia fixa
A ex-bóia-fria começou a correr ainda criança, aos 10 anos, um pouco antes de começar a trabalhar. Segunda de uma família de oito filhos, precisava ajudar os pais. Virou bóia-fria aos 12 anos. A rotina era levantar às 5 da manhã e ir para as plantações de algodão e de amendoim, onde trabalhava até às 5 da tarde. Depois de um banho rápido em casa, saía para correr nas rodovias e nos canaviais de Sertãozinho, cidade do interior paulista. Percorria entre 20 e 30 quilômetros diariamente (hoje, a trajetória é de 25 quilômetros, segundo orientação do técnico). A remuneração de cerca de três salários mínimos mal dava para cobrir as despesas da casa. “Sempre foi muito sacrificado, mas desde a primeira ‘corridinha’ eu nunca tirei da cabeça que queria mesmo ser atleta”, lembra.

Treino sem folga
Depois do nascimento do filho, Michael Jordan, hoje com 9 anos, Zeferina trabalhou como empregada doméstica, babá, auxiliar de escritório e de produção, sem nunca deixar de correr. Em 1998, conseguiu apoio de uma empresa de produtos veterinários. O acordo era trabalhar meio período e treinar no resto do dia. Mas em 2000, a empresa deu um ultimato: ou trabalhava no período integral ou seria dispensada. Zeferina deixou o emprego em agosto de 2000 para se dedicar totalmente ao esporte.”Não se preocupe. Você será uma atleta de elite, é só questão de treino”, disse a ela o treinador Cláudio Ribeiro. Zeferina achou a aposta improvável, mas não esmoreceu na vontade de correr. Tanto que em novembro do mesmo ano, venceu a maratona internacional de Curitiba. Por ser uma atleta desconhecida, não conseguiu sair na elite, largando cerca de 400 metros atrás deste grupo. Mas chegou em primeiro lugar, tendo conquistado reconhecimento nacional e um prêmio de 10 mil reais — dinheiro que foi para a reforma da casa da mãe e para a entrada num apartamento próprio. Foi aí que conseguiu o apoio da Companhia Energética Santa Elisa, usina de álcool e açúcar de Sertãozinho.

Pouco a pouco o sonho ganhou consistência. “Um dia ainda vou subir no pódio da São Silvestre”, era o pensamento que martelava sua cabeça. Seu ídolo era a atleta portuguesa Rosa Mota, seis vezes campeã da corrida. Na mais recente prova de fim de ano na capital paulista, Zeferina buscou motivação na figura dela. “Quando estava naquela subida dura da avenida Brigadeiro Luís Antônio, lembrei dela e tive inspiração para ultrapassar a corredora queniana”, conta. Além da consagração, recebeu um prêmio de 12 mil reais e um automóvel. Com o dinheiro, pretende quitar a casa da mãe. O carro será usado principalmente para levar o irmão ao hospital. O rapaz, de 19 anos, é vítima de paralisia infantil.

Na corrida pelo estudo
A falta de oportunidade não diminuiu para ela o valor dos estudos. Esse é um dos maiores incentivos que Michael Jordan, que está na terceira série do ensino fundamental, recebe da mãe –sem falar no esporte. “Ele é louco por basquete e até já participa do programa Atletas do Futuro, do Sesi”, diz, orgulhosa. Daqui para a frente, Zeferina vai ter de incorporar à sua vida uma agenda pra lá de organizada. Além dos treinos e dos primeiros convites para campanhas publicitárias, pretende voltar à sala de aula (ela parou de estudar no último ano do ensino fundamental). “Também quero aprender inglês”, diz ela, que esteve pela primeira vez na Europa no ano passado. Zeferina participou de provas na França e na Inglaterra e se encantou com o velho continente. Oportunidades para praticar o idioma não devem faltar. O próximo sonho? Olimpíada de 2004. Ninguém segura essa mulher!