Como os executivos brasileiros podem vencer a decepção

Pesquisa mostra as principais frustrações dos executivos brasileiros. Especialistas de carreira propõem soluções para superar as barreiras no ambiente de trabalho

São Paulo – O aspirante a escritor Rory Jansen, personagem do ator Bradley Cooper no filme As Palavras, de 2012, de Brian Klugman e Lee Sternthal, é um sujeito cheio de frustrações. 

Rory sonha em publicar um livro, mas a cada nova tentativa se convence de que não é capaz de escrever algo realmente bom. Ao se recusar a admitir suas limitações, o personagem não consegue superar os obstáculos que a vida impõe e passa o filme expressando seu descontentamento.

No mundo corporativo, a sensação de frustração acomete muita gente. Mais de 60% dos profissionais que chegam aos escritórios da Produtive, consultoria de transição e planejamento de carreira, relatam algum tipo de decepção corporativa. A falta de identifcação com a companhia, a insatisfação com o salário e a ausência de autonomia no trabalho são as principais queixas dos funcionários.

“As pessoas estão mais exigentes e querem que as empresas atendam às suas expectativas”, afirma Rafael Souto, presidente da Produtive, que tem unidades em São Paulo e Porto Alegre. Segundo Rafael, o importante é saber como lidar com o incômodo que as frustrações do trabalho causam.

Há muitas formas de reverter uma situação desapontadora. Uma pesquisa com 150 profissionais brasileiros feita pela Produtive com exclusividade para VOCÊ S/A identificou os pontos de frustração mais comuns no ambiente de trabalho, em seus diversos aspectos.  Depois, especialistas  de carreira analisaram as  questões identificadas na pesquisa  e propuseram soluções para superar  a sensação de fracasso.

Frustração com o  trabalho 

71% dos profissionais declaram não ter  clareza sobre suas  responsabilidades 

Chame o chefe para conversar  e negociar seus objetivos de  trabalho. O profissional não  pode esperar apenas que os  outros definam suas responsabilidades  e metas. “Ele deve  saber aonde quer chegar, o  que seu cargo exige e o que  deve fazer para atingir esses  objetivos”, diz Flora Victoria,  vice-presidente da Sociedade  Brasileira de Coaching (SBC),  de São Paulo.


61% dizem que estão em projetos que não evoluem 

Procure saber se o projeto continua sendo prioridade. Se a resposta for afirmativa, verifique como está o fluxo de processos e as atividades de cada um no projeto e revise seu desempenho. Segundo Rafael, da Produtive, muitos executivos reclamam que os projetos não evoluem, mas a verdade é que eles não estão conseguindo organizar bem suas atividades.

Reveja sua agenda e converse com as pessoas envolvidas na tarefa. isso ajudará a ter ideias.

Opção por sair

O administrador de empresas Rodrigo dos Santos Baptista, de 38 anos, sempre quis ser dono de um negócio. No início da carreira, trocou o sonho de empreender por bons cargos em empresas como Nestlé, Bic e Quaker. Apesar da carreira sólida, nunca se contentou com a dinâmica corporativa.

“Nas empresas, um projeto passa por muitas áreas até ser aprovado, o que produz frustração”, diz Rodrigo, que tentou resolver a questão mudando de emprego algumas vezes, até concluir que precisava empreender. “Até recebi uma proposta para ficar em outra área da companhia, mas decidi sair.”  Em julho de 2013, virou  sócio da Hamburgueria Nacional, lanchonete top de São Paulo. 

Frustração com a remuneração 

61% dizem que a empresa prometeu rever o salário e não cumpriu o combinado

Normalmente o problema está na comunicação. “Cuidado com promessas sem data”, afirma Rafael, da Produtive. Segundo ele, muitas vezes, para atrair o profissional, as empresas usam promessas vazias, como dizer que depois de alguns meses o salário vai ser revisado. 


38% reclamam de não ter recebido o bônus 

Se a empresa não lucrou o suficiente ou os profissionais não atingiram as metas, não há bônus. “O bônus depende de resultados pré- acordados”, diz José Augusto Figueiredo, presidente no Brasil da LHH|DBM, consultoria de transição de carreira de São Paulo.

É importante conhecer as regras da empresa para evitar surpresas. Mas, se isso for recorrente, faça um comparativo dos ganhos e das perdas de continuar na empresa.

Frustração com a realização

73% dizem não ter cumprido seus objetivos de vida, financeiros ou pessoais 

Segundo Fernanda Schröder, coordenadora do Ibmec Carreira, de Minas Gerais, quando isso acontece, a primeira coisa a fazer é ter clareza do que o deixaria feliz. “O executivo deve mapear o que ele quer e montar um planejamento para conseguir”, afirma.

Pode ser uma mudança apenas de área ou de empresa, ou algo mais radical, como mudar de carreira ou abrir um negócio. 

57%  não se sentem engajados no trabalho

“Sair de um trabalho sem saber para onde ir ou o que fazer pode gerar ainda mais frustração e arranhar sua imagem profissional”, diz José Augusto, da LHH|DBM. Pontos importantes a ser investigados: seus valores são parecidos com a cultura da empresa? Suas competências fazem alguma diferença? O que você entrega é percebido? Como você quer ser reconhecido? Qual seu sonho?

Uma vez que consiga identificar seu modelo ideal,  aí, sim, vale realizar algum movimento. 


Conversa franca 

Depois de dez anos atuando na mesma diretoria, o engenheiro químico Rodrigo Barbosa, de 49 anos, hoje gerente de empreendimentos e projetos da White Martins, empresa de gás hospitalar e industrial, no Rio de Janeiro, já não se sentia desafiado no cargo. 

“Estava insatisfeito e precisava de novos problemas”, diz. Começou a pesquisar outras vagas e se interessou por uma na própria empresa, na filial do Nordeste. Resolveu abrir o jogo com seu gestor e demonstrou interesse em mudar. “Conversar é sempre a melhor solução”, afirma Rodrigo, que passou na seleção interna e se mudou para Salvador. 

Depois de três anos, foi convidado pelo mesmo gestor a voltar ao Rio de Janeiro em um cargo mais alto e com mais autonomia. “Se eu não tivesse a primeira conversa, talvez nada disso acontecesse.” 

Frustração com a autonomia 

64%  reclamam de não ser  ouvidos nas decisões  de sua área

A tendência natural é ficar  desmotivado quando se é ignorado.  Uma saída é avaliar  os motivos pelos quais você  pode não ter sido chamado.  Por exemplo: faz parte de sua  função participar dessa decisão?  Comece a se mostrar  mais disponível e aponte em  números e fatos quanto sua ideia pode ajudar a empresa. 

“Se você tem uma opinião de  valor, mesmo sem ser chamado,  elabore de forma adequada  e apresente ao responsável”,  diz Flora, da SBC.


57%  dos profissionais  se queixam da falta  de oportunidade  de dar sugestões

Observe o ambiente e se isso é um traço da empresa ou se o mesmo ocorre com outros colegas. Se for uma questão de gestão, proponha a criação de comitês para sugerir e debater ideias. Se a questão for apenas com você, faça uma análise de sua postura. 

Frustração com a qualidade de vida

58% dizem que a jornada de trabalho prejudica outros aspectos da vida pessoal

A jornada excessiva pode ser resultado da falta de efetividade na execução das tarefas, na delegação ou na eliminação de atividades. a primeira providência é organizar a agenda e gerenciar melhor as atividades. Se o problema estiver na empresa ou for uma característica do mercado, o profissional precisará analisar o valor que dá ao trabalho e ao tempo livre.

“Algumas vezes, temos de abrir mão de algo”, diz Fernanda, do Ibmec. É preciso fazer escolhas, pois não é possível ter tudo. “Tem gente que quer remuneração alta, status, um bom cargo, alta visibilidade, mas quer trabalhar só de segunda a quinta-feira”, afirma Rafael. 

55% têm dificuldade para gerenciar o nível de estresse pessoal

A pressão por resultados sempre existirá. Se você considera as metas impostas pela empresa impossíveis de ser alcançadas, deve conversar com seu gestor e mostrar por que esses resultados são inviáveis. Mas é preciso avaliar quanto você contribui para a existência de metas agressivas.

“É comum ver executivos que prometem metas que não podem cumprir apenas para mostrar proatividade ou eficiência”, afirma Rafael.

Ponto-final no expediente

Até o fim de 2011, a rotina de trabalho da engenheira Priscila Zidan, de 34 anos, superintendente de operação da Ciclus, empresa de gestão de resíduos do Rio de Janeiro, era intensa. Começava às 6 horas e seguia até as 21 horas. “Não tinha tempo para nada pessoal”, diz.

Ela coordenava a implementação de uma central de tratamento de resíduos e era responsável por cerca de 300 profissionais. “O excesso de dedicação começou a prejudicar meu desempenho e percebi que deveria procurar auxílio.”

A executiva resolveu buscar o apoio de um coach e, depois de um ano de aconselhamento, conseguiu mudar seu ritmo. Hoje, ela faz atividades físicas regularmente e estabeleceu limites na duração do expediente. “Comecei a delegar mais”, afirma Priscila.