Chefe, eu sou a Nair Bello do Twitter!

Como um perfil falso no Twitter fez o gerente Gustavo Braun, de 27 anos, dar uma virada em sua carreira

São Paulo – Chefe, eu sou a Nair Bello. Com essa informação, em maio do ano passado, Gustavo Braun, de 27 anos, apresentou sua demissão do cargo de gerente comercial do Laboratório Boniquet do Brasil, multinacional espanhola fabricante de creme dental. Na época, seu perfil da atriz paulistana Nair Bello (1931-2007) já tinha por volta de 60.000 seguidores no Twitter.

A brincadeira, iniciada um ano antes, cresceu demais e corria o risco de sair do controle. A personagem @nairbello havia virado uma celebridade da rede social. Sem revelar a identidade, Gustavo dava entrevistas para jornais, revistas e sites. Um convite para aparecer no Teleton, programa de arrecadação de doações do SBT, obrigou Gustavo, carioca criado em São Paulo, a rasgar a fantasia.

Ele ficaria numa bancada no palco do programa, ao lado de “outros meninos da Microsoft”, assim classificados pela apresentadora Hebe Camargo. “Pensei que seria uma forma bacana de agradecer à Nair e a sua família, só que eu teria de me revelar ao vivo para todo o Brasil”, lembra Gustavo.

Era demissão certa, e ele resolveu se antecipar e contar ao chefe. Deixou o emprego e deu início a uma virada radical na carreira, que começou meio de brincadeira, com um perfil falso no Twitter. “Virei subcelebridade na web”, brinca Gustavo.

Os motivos que o levaram à criação da Nair Bello do Twitter têm tudo a ver com a trajetória profissional de Gustavo. Formado em letras pela Universidade de São Paulo, ele entrou no Boniquet como analista, aos 18 anos, vindo de um estágio na Câmara Americana de Comércio.

Chegou no momento em que o laboratório espanhol se instalava no Brasil. Dentro de uma estrutura pequena, de empresa que inicia suas operações, Gustavo cresceu rápido. Aos 23 anos, já era gerente comercial e se reportava ao diretor-geral. Aos 25, já não se sentia desafiado pelo cargo.

Era novo e desejava outras experiências. “Queria direcionar minha carreira para marketing, mas na companhia só tinha espaço para vendas”, diz. Para extravasar o tédio e a frustração no trabalho, em março de 2009 Gustavo deu à luz @nairbello. 


Durante um ano e meio, ele tuitou às escondidas no escritório. Conforme o número de seguidores aumentava (hoje são 81 000), Gustavo ia perdendo o tesão no trabalho. “Continuava entregando resultado, mas minha cabeça não estava mais ali.” Um dia, o chefe o chamou para uma conversa mais séria.

“Disse a Gustavo que a oportunidade que a empresa oferecia era na área de vendas e que, se ele não retomasse o foco, teria de sair”, diz o ex-chefe, Claudio Bighinzolli, diretor-geral do Laboratório Boniquet do Brasil. 

Preparação para sair

Gustavo decidiu rever sua carreira. Matriculou-se num MBA em marketing, começou a fazer escola de teatro e iniciou psicoterapia. “Fiz a preparação certinha e a alternativa para uma mudança profissional”, diz. Enquanto isso, o Twitter começou a virar febre no Brasil, e o perfil falso de Nair Bello, a ganhar destaque.

Numa linha de humor refinado, sem apelações ou palavrões, Gustavo fazia comentários sarcásticos sobre celebridades de tevê, BBBs e ilustres desconhecidos que pagam mico no YouTube. “A família da Nair nunca reclamou”, diz. “Acho que compreende que é uma homenagem.” O perfil do Twitter gerou o Blogue da Nonna, ainda em 2009. Nele, Gustavo passou a desenvolver as piadas que não cabiam em 140 caracteres. 

No início do ano passado, Gustavo começou a fazer alguns contatos profissionais. Em pouco tempo, estava concorrendo a uma vaga na Whirlpool. Na entrevista de emprego, porém, começou a minar de propósito qualquer chance de ficar com a vaga. “Já fui gestor e sabia exatamente que palavras o recrutador queria ouvir, mas respondia outra coisa”, relembra.

“No fundo, um emprego em multinacional não era o que eu buscava”, diz, hoje, após alguma reflexão. O processo rendeu, ao menos, a certeza de que uma virada na carreira era necessária. “Ao vislumbrar a possibilidade de sair, ficou claro que eu não queria mais ficar.” 

A mudança de carreira começou a tomar forma numa aula sobre marketing digital no MBA da Escola Superior de Propaganda e Marketing. O professor Gil Giardelli perguntou à classe quem usava o Twitter e quantos seguidores tinham. “O Gustavo respondeu 60 000 e eu tomei um susto”, lembra Gil.


“Fiquei pensando ‘Pô, como um gerente de laboratório cosmético tem esse número de seguidores?’.” Ao final da aula, Gustavo contou a história. Gil foi o primeiro a incentivá-lo a buscar o empreendedorismo e tornou-se um conselheiro, que Gustavo ouve até hoje. “Ele tem um humor refinado e um espírito livre, jamais ficaria bem consigo dentro de uma empresa”, diz o professor.  

Empreendedor

Gustavo estava digerindo a ideia de abrir um negócio quando veio o convite para aparecer na tevê. Sem ter nenhum plano B pronto, conversou com o chefe e acertaram a demissão. Ele ainda permaneceu no emprego mais quatro meses e saiu em setembro de 2010. Passou os últimos meses do ano fazendo networking, se apresentando como o profissional de marketing por trás de @nairbello.

Nos eventos de internet, ficou amigo de Vitor Calazans, dono do perfil falso de @hebecamargo. Juntos, eles lançaram no Tumblr — plataforma de microblogs no qual são publicadas, principalmente, fotos, outro sucesso das redes sociais — o Fica, Vai Ter Bolo. 

Em dezembro, Gustavo abriu a João Digital, agência de marketing em redes sociais. Quer vender a experiência que conquistou como um serviço, de olho no enorme contingente de corporações que ainda navegam com dificuldade nas mídias de relacionamento. “Há espaço para as empresas explorarem o humor nesses meios e Gustavo pode ter sucesso fazendo isso”, diz Gil.

No mês passado, a João Digital fechou seus primeiros dois trabalhos “com empresas grandes”, que Gustavo não revela. Se o projeto vai dar certo, é cedo para saber. Empreendedorismo é mais sobre tentar muitas vezes do que acertar na primeira. “A vida tem dessas coisas: numa sacanagem, você encontra o caminho de sua carreira”, diz Claudio, o ex-chefe. Ma che!