CEO antes dos 40

Luis Rezende, presidente da Volvo Cars, conta quais são os desafios de chegar ao topo mais jovem

São Paulo – O número de profissionais que chegam à presidência antes dos 40 anos ainda é pequeno. Entretanto, nos últimos quatro anos, o número de jovens CEOs triplicou no Brasil. Luis Rezende, de 34 anos, presidente da Volvo Cars, desde de janeiro de 2014, é um dos exemplos de jovens líderes que aceleraram sua trajetória até o topo.

Em entrevista exclusiva a VOCÊ S/A Luis conta as estratégias e apostas que o fizeram ocupar o cargo na multinacional. Ainda na edição de setembro da VOCÊ S/A você conhece mais sete histórias de jovens líderes que compartilham lições para ajudá-lo a definir o momento certo de fazer transições profissionais e crescer mais rápido na carreira.

VOCÊ S/A – Ao longo da sua carreira, como identificou os momentos em que era hora de fazer uma transição profissional?

Luis Rezende – Eu acredito que três coisas determinam a permanência num emprego. Ser reconhecido pelo que você faz, o ambiente de trabalho e, depois, o salário. Se dois não estiverem legais, é hora de sair. Na Peugeot, onde comecei minha carreira como trainee e passei dois anos, simplesmente fiz o budget da área e percebi que não tinha vaga para mim.

Ou alguém decidia sair ou eu teria de sair. Pensei: tenho que pagar minha faculdade, tenho que me virar. Outro momento em que percebi que era hora de mudar foi quando era analista financeiro da Maxxium, importadora de bebidas.

Com a companhia em desvalorização, foi decidido que a subsidiária ia passar as operações. Eu sabia que não haveria espaço depois da transição e procurei outras oportunidades.

VOCÊ S/A – Qual dessas transições foi a mais importante?

Luis Rezende – Na época em que decidi sair da Maxxium participei de alguns processos seletivos e um em especial me fez tomar uma decisão muito importante na minha carreira.

Depois de uma entrevista de emprego para uma empresa, na qual eu não fui tão bem por causa do inglês um headhunter me aconselhou a estudar o idioma, em vez de buscar outro emprego, porque o inglês seria decisivo em vários momentos da minha vida profissional. Pedi demissão da Maxxium, vendi meu carro e com esse dinheiro passei sete meses na Inglaterra estudando inglês.

Quando voltei para o Brasil, fui recontratado pela Maxxium para ajudar a passar as operações. O presidente era um francês que não falava nada de inglês. Então eu é que fiz a transição contábil e a interlocução lá fora, para defender a auditoria. Eu só explicava para ele tudo o que estava sendo feito. O idioma também me ajudou na contratação pela Phillips.

VOCÊ S/A – O que mudou na sua vida depois da presidência?

Luis Rezende – Eu sempre tentei atuar como segundo homem, então eu já buscava ter grandes responsabilidade, a única coisa que eu acredito que tenha mudado é a preocupação com as pessoas. Eu procuro mostrar para os nossos fornecedores, clientes e funcionários que eu me preocupo com eles e inclusive com as famílias deles.

O funcionário tem que se sentir bem, se sentir motivado e o bem dele diz respeito também à família. Além disso, procuro envolver as pessoas nas responsabilidades e construir junto. Meu papel é ser inspirador e facilitador, enquanto eu não for essas duas coisas não posso cobrar resultados dos meus colaboradores.

VOCÊ S/A – Qual o legado da geração Y no modelo de liderança?

Luis Rezende – O desafio, essa geração desafia os métodos tradicionais. A experiência das gerações mais velhas é muito valiosa, então é fundamental ir buscar e ouvir esses profissionais. Porém eu acredito que a maior diferença é que as novas gerações buscam valores e não Instituições. Mais importante que os objetivos da companhia são os valores estarem aliados comigo.

VOCÊ S/A – Como contorna a falta de repertório por ser um presidente tão jovem?

Luis Rezende – Eu não consigo ter a experiência de uma pessoa de 45 anos, definitivamente. Embora minha diretoria tenha uma média de idade de 40 anos eu procuro me cercar de pessoas experientes. Meu contador tem 68 anos. Ele não gosta de SAP e não confia no Excell, então trabalha na calculadora. Coloquei uma pessoa ao lado dele só para imputar os dados no sistema.

Muita gente me questiona, perguntando se isso é produtivo. Só que o senhor Aderbal já me entregou cinco balanços, todos sem nenhum comentário, sem nenhuma falha. Sabe quanto isso vale no banco, quando precisamos pedir crédito? O senhor Aderbal vale milhões. O senhor Ademir, da Tesouraria, era um gerente super sênior da Ford que veio trabalhar conosco.

São pessoas que eu tenho no meu mapa e quando tem uma mudança no mercado eu sento com eles e peço para me explicarem. Eles me dizem: isso já aconteceu em 1990 e em 1995. A decisão da Chrysler foi esta e a da Ford foi esta.

VOCÊ S/A – O que é poder para você?

Luis Rezende – Poder para mim é ter a possibilidade viabilizar sonhos e projetos. Se eu tenho o poder de tomar decisões, que sejam decisões em prol da empresa, não em meu favor, ou de quem ocupa um cargo. Na direção de uma companhia, estamos num trem com destino à próxima estação.

Então, a gente decide se vai nessa viagem jogando água na cara um do outro, colando chiclete no cabelo do outro, ou se a gente vai conversando e fazendo essa viagem de um jeito estruturado. Uma pessoa achar que esse trem vai parar e não vai chegar ao seu objetivo só por causa dela, seja ela quem for, é muita arrogância.