Casamento e carreira: uma relação tão delicada

É possível equilibrar as relações pessoais e profissionais. Mas prepare-se, porque dá um trabalho...

O casamento pode dar uma força para a carreira? Parece que sim. Pelo menos essa é uma das constatações da sexóloga americana Shere Hite em seu livro Sexo & Negócios (Ed. Bertrand Brasil). Ela chegou a essa conclusão depois de verificar um fato curioso: 95% dos executivos das 500 maiores empresas americanas listadas pela Fortune são casados. E isso não parece ser mera coincidência. “Tenho a impressão de que existe uma regra implícita nas empresas: se você quer ser promovido, case-se, tenha filhos e trate de se manter casado”, diz ela. “É como se ter uma família desse ao profissional mais estabilidade emocional para lidar com os desafios da carreira”, explica Shere.

Ao que tudo indica, a crença de que o casamento torna alguém mais respeitável vale principalmente para os políticos (Bill Clinton é a melhor comprovação dessa teoria), mas também vigora, ainda que nas entrelinhas, no mundo corporativo. “Em algumas empresas, o estado civil pode ser o fator de desempate entre dois candidatos tecnicamente iguais”, afirma o consultor de RH Paulo Toledo, da Konsult. Isso acontece, por exemplo, no grupo Algar, no qual cerca de 80% dos executivos são casados. “Quando vamos transferir algum profissional de cidade, pesa muito o fato de ele ser casado. Os solteiros parecem não criar tantos vínculos com o trabalho e abandonam a empresa com relativa facilidade”, diz Cícero Penha, vice-presidente de talentos humanos do grupo Algar. É claro que o simples fato de exibir uma aliança na mão esquerda não garante um lugar ao sol na empresa nem mais maturidade nas decisões, mas pode contar muitos pontos – desde que, é claro, o desempenho profissional corresponda ao esperado. Outro argumento a favor dos casados é que eles estabelecem em casa uma relação de parceria que, de certa forma, pode ser aplicada na organização. “Assim como acontece na vida a dois, o trabalho também exige concessões e respeito às diferenças”, diz Penha.

Essa parece ser, no entanto, uma “regra” no masculino. Quando se trata de mulheres, são as solteiras que as empresas costumam preferir. “Elas geralmente têm mais flexibilidade de horário e mais mobilidade em caso de transferência”, diz Toledo. Mas existem exceções: o fato de ser casada não foi empecilho para a carreira da paulistana Cristiana Braga. Seu marido na época, o carioca Claudio Wilberg, de 33 anos, teve uma atitude que facilitou bastante a vida profissional da esposa. Os dois foram fazer MBA no Insead, na França. No início de 1999, com o diploma na mão e prontos para enfrentar o mercado de trabalho, ela recebeu propostas de emprego financeiramente mais compensadoras do que as do marido. “De comum acordo, chegamos à conclusão de que seria melhor eu acompanhá-la”, diz Wilberg. Foram para Nova Jersey, nos Estados Unidos. Enquanto a mulher trabalhava, ele organizava a vida do casal e procurava trabalho, mas só conseguiu ser contratado para alguns projetos. No final de 1999, Wilberg decidiu voltar para o Brasil para assumir a diretoria de tecnologia de uma das mais influentes bancas de advocacia do país: a Tozzini, Freire, Teixeira e Silva Advogados. Cristiana ficou nos Estados Unidos negociando sua entrada no plano de demissão voluntária da empresa da qual era funcionária. O processo foi mais demorado do que eles esperavam e o casamento não resistiu.

Contradição à vista

As empresas querem que os funcionários opinem, discordem e assumam riscos. “Nesse sentido, se você pensar nos casados como pessoas mais estáveis, pode ser que eles tenham certa tendência de não se comprometer tanto com as coisas”, diz Arassari Infante, gerente de RH da hotelaria Accor Brasil, jogando lenha nessa fogueira. Outra contradição: se as pessoas passam cada vez mais horas na empresa, como é que vão arranjar tempo para cuidar do casamento? Para não se perder no meio desse cabo-de-guerra, o jeito é descobrir o que é prioritário em sua vida e, na medida do possível, tentar equilibrar as coisas. “Eu valorizo muito a realização afetiva, mas conheço gente que considera o casamento um verdadeiro estorvo. Tudo é uma questão de opinião”, diz Rugenia Pomi, da consultoria Genesis Potencialização Humana. Assim como a carreira não nasce pronta, o casamento requer dedicação. Portanto, se você anda trabalhando muitas horas por dia, pese quanto isso pode estar prejudicando sua vida pessoal. Até porque o que conta hoje é resultado. “Muitas pessoas ainda trabalham à moda antiga e, em alguns casos, ficam tentando compensar suas lacunas de competência com excesso de trabalho”, diz a consultora Maria Aparecida Rhein Schirato, autora de O Feitiço das Organizações – Sistemas Imaginários (Ed. Atlas).

A relação casamento-carreira pode trazer ainda outra cilada. “Às vezes, a empresa acaba se tornando a única relação estável que o indivíduo estabelece na vida. Ele se casa com a empresa, e a esposa ou o marido se tornam coadjuvantes e, em alguns momentos, até rivais da organização”, diz Maria Aparecida. Isso obviamente desestabiliza o relacionamento do casal e, aí, adeus a qualquer benefício que o casamento possa trazer à carreira. Ficar a salvo dessa armadilha também não é uma tarefa das mais simples. Uma alternativa é distinguir os vários papéis que você exerce na vida e tê-los em mente enquanto trabalha ou está com a família, por exemplo. “É preciso perceber qual dos personagens deve estar em cena naquele momento e deixar que os outros atuem, mas nos bastidores”, diz Rugenia. Assim, você não cria falsas expectativas em relação ao trabalho e evita a pior de todas as armadilhas: misturar a vida pessoal com a carreira.

A família não é mais aquela

Shere Hite cita em seu livro estudos demográficos que dizem que, no futuro, metade dos funcionários de uma empresa não serão casados. Na categoria de solteiros entram os solteiros propriamente ditos, os separados e aqueles que se uniram informalmente com alguém do mesmo sexo ou com um parceiro do sexo oposto. No Brasil, o número de pessoas que vivem sós também vem aumentando: segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), eram 1,6 milhão em 1981 e passaram a ser 3,8 milhões em 1998. Nos Estados Unidos, o modelo tradicional de família, formado por pai, mãe e filhos, caiu de 45% em 1960 para 23,5% em 2000. “As pessoas não querem mais ter uma família apenas porque esse é seu dever. A preocupação agora é com a qualidade do casamento e das relações pessoais”, afirma Shere.

Não há mais dúvida de que a estrutura familiar está passando por uma grande transformação. As empresas terão de aprender a conviver e a tirar proveito disso. “Prefiro muito mais trabalhar com um solteiro feliz do que com um casado infeliz”, diz Claudio Neszlinger, diretor de RH da Microsoft no Brasil. O que contribui para o sucesso da carreira é a estabilidade emocional, e isso independe do estado civil. Aliás, se as coisas não estiverem indo bem no casamento, é melhor sinalizar ao chefe. “Não adianta dissociar o lado pessoal do profissional – nós somos uma coisa s”, diz Neszlinger. Claro que enfrentar uma fase ruim não é desculpa para descuidar do trabalho, mas comunicar o que está acontecendo vai deixar as pessoas mais condescendentes. Pode até ser o caso de pedir uns dias de licença para colocar a cabeça no lugar.

É preciso discutir a relação

O negócio é fazer acordos com seu parceiro para não deixar a casa cair e o trabalho ir para o brejo. Não tem jeito: você vai ter de discutir a relação. “Só que a combinação não pode ser imutável, deve ser negociada sempre que necessário”, diz Neszlinger. Ricardo e Renata Alves de Lima, por exemplo, decidiram que seu projeto de vida atual é dedicar mais tempo à família. No final do ano passado, o casal e suas duas filhas, Júlia e Isabel, embarcaram para Boston, nos Estados Unidos. Vão passar pelo menos seis meses por lá. A idéia é curtir a vida em família, coisa que eles tinham pouco tempo para fazer enquanto estavam no Brasil. Para isso, Renata, que é publicitária, e Ricardo, executivo de uma empresa do grupo Ultra, pediram licença não-remunerada em seus respectivos trabalhos. “Era um plano antigo. Faz dois anos que estamos cuidando dos preparativos”, diz Ricardo.

O casal Guto e Adriana Lins também vive grudado. Casados há 12 anos, são sócios num estúdio de design gráfico – além de designers, ele é ilustrador, e ela, fotógrafa. Durante oito anos, trabalharam e moraram no mesmo endereço. Contra todas as probabilidades, essa convivência intensa nunca abalou a harmonia do casal, que sempre é motivo de comentários entre a família e os amigos. Como eles conseguem? Com amor, claro, e uma boa dose de humor. E, ao contrário de muitos casais, eles também aprenderam a tempo a ser mais tolerantes com suas diferenças.