Beatriz Rizzo, uma advogada caçadora de desafios

Em uma carreira em que a maioria dos profissionais evita o risco, a advogada paulista Beatriz Rizzo construiu uma trajetória cheia de movimentos radicais

São Paulo – Neste mês, a advogada criminalista  Beatriz Dias Rizzo, de 41 anos, inicia seu trabalho no escritório Viseu Advogados, de São Paulo. Lá, ela terá a missão de montar o núcleo de Direito Penal Econômico, área em que se especializou.

Em 19 anos de profissão, essa é a terceira grande mudança na carreira de Beatriz, que já foi defensora pública, trabalhou em uma grande firma e até março era dona do próprio escritório. “Já estava cansada da calmaria”, diz.

Advogados costumam ter trajetórias lineares de carreira dentro de grandes escritórios, em departamentos jurídicos de empresas ou no setor público. “São profissionais conservadores quando se trata da carreira”, diz Luciana Gross Cunha, professora da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas e responsável pela pesquisa Sociedades de Advogados e Tendências Profissionais, de 2007.

Para Beatriz, estabilidade não é sinônimo de segurança, mas, sim, de medo. “Tenho pavor de me sentir acomodada demais, dependente demais da minha posição”, conta.

Beatriz começou a carreira como procuradora do Estado de São Paulo, atuando na Defensoria Pública. Seu trabalho era representar condenados com pena em execução. “Adorava visitar presídios”, diz. Em uma dessas visitas conheceu Karla Meneses, uma presa condenada por sequestro, cuja pena a advogada conseguiu reduzir.

Livre desde o ano passado, após cumprir 11 anos, Karla tornou-se secretária de Beatriz. (Viraram amigas e desfilaram juntas pela Camisa Verde e Branco no Carnaval deste ano.)

Embora gostasse da carreira pública, em que ajudava pessoas sem recursos para contratar um advogado, ela começou a se sentir inquieta com a rotina. Já fazia a mesma coisa havia sete anos. “Eu era ótima no que fazia, mas estava acomodada”, diz. 

Seu primeiro movimento radical de carreira começou com o convite para trabalhar no escritório do criminalista Roberto Podval. Mais conhecido por ser o advogado do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, Roberto foi colega de mestrado de Beatriz na Universidade de Coimbra, em Portugal, e lhe ofereceu sociedade.

Beatriz pediu exoneração do cargo público. “Foi um escândalo”, diz ela, que lembra que quase ninguém tem coragem de abrir mão dos benefícios do emprego. “A carreira jurídica no setor público é para o profissional que busca estabilidade e tranquilidade financeira”, diz Luciana, da FGV. No novo emprego, Beatriz não tinha salário fixo. Nessas firmas, dividem-se os lucros quando uma causa é ganha. Quando perde-se, ninguém recebe nada. 

No começo, a advogada teve dificuldades com o orçamento. “Gastei mais do que podia, sem pensar que o que eu recebia num mês não necessariamente seria o mesmo no mês seguinte”, diz. Nesse período, tornou-se mãe. Quando começou a se adaptar ao novo estilo de vida, e com um bebê de 1 ano, se divorciou. Vendeu o apartamento no Jardins, na capital paulista, foi morar de aluguel e passou a dividir as despesas do filho com o ex-marido. “Levei um novo susto com a minha situação financeira”, diz.


Segundo ela, foram anos malucos. No serviço público, conseguia levar trabalho para casa e organizar a carga horária. Numa empresa privada, precisava se dedicar 24 horas por dia. “Eu viajava para todos os estados e meu bebê ficava com a babá, meu braço direito”, diz. Os anos foram muito bons para a carreira dela. A advogada se tornou referência em sua área, tendo trabalhado em casos como a CPI dos Combustíveis e a CPI dos Bingos.  

Quando finalmente começou a se estabilizar, a velha inquietação voltou a incomodá-la. Ela e o sócio tinham planos diferentes para o rumo do escritório e ela decidiu sair. “Eu estava em uma situação de completo conforto, ganhando muito bem, comprando um novo apartamento, de carro novo e viajando todas as férias, mas eu não estava feliz profissionalmente.” Beatriz deixou a sociedade sem ter um plano B. Passou dois meses em casa pensando no que a faria feliz.

Em fevereiro de 2010, recomeçou mais uma vez. Vendeu novamente seu apartamento e voltou a pagar aluguel. Convidou a advogada Cristiane Battaglia, que havia sido sua estagiária na firma de Roberto Podval, para montarem um escritório juntas. Não levaram cliente nenhum. “Me assustei no início, porque passei a ganhar um décimo do que estava acostumada”, lembra. 

Fez mais um ajuste no padrão de vida, precisou dispensar uma empregada e até a pet shop dos cães. “Agora eu mesma dou banho neles”, diz. Desde o ano passado Beatriz vinha recebendo convites de trabalho. Recusou quatro. “Minha sócia e eu somos amigas. Tomamos as decisões juntas. Ainda não era hora de cada uma seguir seu rumo”, lembra. Até aparecer a proposta de Gustavo Viseu, sócio majoritário da banca que é o novo destino profissional de Beatriz. “Venho acompanhando a carreira dela há muito tempo”, diz Gustavo. “Ela é boa tecnicamente e também tem visão empreendedora.” 

Beatriz fará consultoria jurídica para empresas. “Será um desafio, porque eu não sei o que me espera lá”, diz. Mas desafios não são obstáculos para ela. “Eu não penso, me jogo nas oportunidades”, finaliza Beatriz.