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O terceiro setor emprega mais de 1 milhão de profissionais no país. Para fazer da causa social um meio de vida, não basta vontade: é preciso conhecer o assunto

No início do mês passado, convidamos sete especialistas para discutir a carreira do terceiro setor. Veja quem participou:

Ana Maria Wilheim, superintendente da Fundação Abrinq

Andres Falconer, pesquisador do terceiro setor, presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças

Kátia Reis, gerente do núcleo de capacitação do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis)

Leandro Guerrero, sócio-diretor da Passarelli Consultores, headhunter especialista em profissionais do terceiro setor

Léo Voigt, presidente do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas e diretor executivo da Fundação Mauricio Sirotsky Sobrinho

Marília Rocca, diretora da Endeavor Brasil

Vivianne Naigeborin, diretora do Centro de Competência para Empreendedores Sociais Ashoka /McKinsey

De tempos em tempos, uma determinada área do mercado de trabalho vira a menina-dos-olhos dos profissionais. Foi assim com as consultorias, a internet e as telecomunicações. A bola da vez agora é o terceiro setor. Nunca houve tanto glamour em torno de uma atividade que já existe há pelo menos 5 000 anos, quando faraós da civilização egípcia encorajavam um código moral baseado na justiça social. No Brasil, o primeiro boom aconteceu nas décadas de 70 e 80, impulsionado por organizações que defendiam os direitos sociais na época da ditadura. Na década de 90, com a percepção de que o Estado já não seria capaz de dar conta de todas as suas atribuições, outras tantas entidades nasceram para defender causas como meio ambiente, combate à pobreza, direitos do consumidor etc. Mais recentemente, grandes empresas escolheram como alvo principal de suas ações de marketing a chamada responsabilidade social. Tudo isso fez crescer o terceiro setor no Brasil. De acordo com uma das mais completas pesquisas sobre o assunto, com dados de 1995, feita pelo Instituto Superior de Estudos da Religião e pela Universidade Johns Hopkins, pelo menos 1,2 milhão de brasileiros trabalham no terceiro setor. Estima-se que existam 220 000 entidades sem fins lucrativos atuando no país — um número considerável comparado ao total de 782 000 empresas (com pelo menos um empregado). Mais: do total de companhias privadas, cerca de 59%, ou 462 000, atuam voluntariamente no atendimento a comunidades, segundo pesquisa do Ipea deste ano. Em 2000, juntas elas aplicaram 4,7 bilhões de reais em investimento social. Em um terço delas, os próprios funcionários desempenham o papel de voluntários.

Na carona do crescimento da preocupação social corporativa vem o interesse dos profissionais pelo assunto. Isso pode ser comprovado pela criação de cursos e pelo depoimento de gente que já trabalha na área. No início do mês passado, convidamos sete profissionais envolvidos com o terceiro setor para uma mesa-redonda (veja quadro). A idéia era extrair um retrato dos caminhos e das carreiras possíveis nesse segmento. Sem exceção, todos disseram que, antes de embarcar nessa onda, você deve experimentar, provar e atuar como voluntário. É a melhor maneira de desmistificar o trabalho social, tido por muita gente como um oásis freqüentado por pessoas do bem. Longe de dizer que os “militantes” sociais não têm boa índole, é importante deixar claro que eles são pessoas comuns, que têm chefes, sonhos e — por que não? — decepções.

Combustível: paixão

Entre muitas dúvidas, reina uma certeza: a paixão é o melhor combustível do terceiro setor. “Não estamos falando da paixão cega, caricatural ou de ideologia. É preciso mais do que identificação com a causa. A gente sofre de remuneração baixa, pessoas sobrecarregadas, equipes enxutas”, diz Vivianne Naigeborin, da Ashoka, ONG que ajuda a desenvolver empreendedores sociais. Como explicar, então, a troca de emprego por remuneração mais baixa, fins de semana em entidades beneficentes ou até mesmo o singelo mas poderoso gesto de abraçar uma árvore? “Essa garra vem das organizações de militância do período da ditadura, na qual as pessoas eram movidas pela paixão legítima de mudar o país”, explica Ana Maria Willheim, da Abrinq, ONG que desenvolve projetos ligados à infância.

Essa motivação tem dois efeitos. Um deles é o de agir como ímã para atrair novos profissionais para o terceiro setor. O outro, invisível para quem está de fora, é o de repulsão, gerado pelo desconhecimento. Muitos querem se atirar cegamente no terceiro setor, achando que vão encontrar o cenário ideal de trabalho. É uma motivação equivocada. “Muitos pensam que vão aposentar-se no terceiro setor”, diz Marília Rocca, da Endeavor Brasil, ONG que estimula o empreendedorismo. “Na verdade, a pressão aumenta, porque geralmente a estrutura é menor.” Outro erro freqüente é recorrer ao terceiro setor como a um salvador da pátria para uma crise de valores. “As pessoas acham que só aqui vão encontrar algo legítimo para sua vida”, diz Vivianne, da Ashoka.

É preciso provar

Na verdade, é preciso muito mais que valores. Além das características citadas no quadro ao lado, nunca é demais lembrar que é necessário conhecer o cotidiano das organizações para ter ao menos uma idéia de como elas atuam. “As pessoas nos procuram com propostas sem cabimento, do tipo eu gostaria de trabalhar no departamento de estudos macroeconômicos ou de relações com investidores “, diz Marília, da Endeavor. “Nós somos apenas oito pessoas. É preciso um mínimo de pesquisa do candidato para conhecer a estrutura do terceiro setor no Brasil antes de pleitear uma vaga.” Por não entender essa diferença, muita gente boa, com histórico profissional em empresas privadas, encontra portas fechadas no terceiro setor.

Foi assim com o mineiro Ciro Fleury, de 40 anos, MBA pelo IMD da Suíça. Aos 36 anos, ele tinha o invejável cargo de gerente-geral da Alcoa no Chile. “Minha remuneração era ótima, mas me sentia insatisfeito”, diz Fleury, na época voluntário do Hogar de Cristo (Lar de Cristo), uma das maiores instituições chilenas de atendimento infantil. Em abril de 2000, ele tomou a decisão definitiva de jogar tudo para o alto e ir para o terceiro setor, “para criar um impacto social”, diz. Veio para o Brasil e levou um “não” quando tentou ingressar num curso para o terceiro setor numa renomada universidade, apesar da excelente experiência profissional. “Acho que foi porque estava desempregado.” Alguns meses depois, entrou no curso do Idis. Lá, foi convidado para trabalhar no próprio instituto, com a missão de ajudar potenciais doadores (empresas) a montar a programação estratégica do investimento social. “Ganho menos, mas sou mais feliz”, diz Fleury. Ele não revela quanto, mas calcula-se que seu salário seja 70% mais baixo. “Tive a sorte de construir uma bagagem anterior sólida em empresa privada para depois fazer o que tinha vontade.”

A história de Fleury é a de um casamento perfeito: boa para sua carreira e para a instituição do terceiro setor, que busca experiência de resultados da empresa privada. “Esse pragmatismo me fascina”, diz Ana Maria, da Abrinq. “Passamos por uma reengenharia. Entrou a cultura do planejamento disciplinado, de evitar sair fazendo sem planejar.” Tudo depende da captação de recursos — e por tal ainda procuram-se formas de fazer o trabalho. “Como você vai contratar mais gente sem saber se terá como pagá-la? Como equacionar tudo isso com um número de projetos maior todos os dias?”, pergunta Vivianne, da Ashoka. “O terceiro setor definitivamente não é um oásis.”

Treinar, treinar, treinar

A complexidade de tarefas aliada ao tempo escasso torna quase impossível a missão de encontrar pessoas prontas para esse trabalho. Uma saída é capacitar gente dentro das próprias instituições. Foi o que fez a Fundação Mauricio Sirotsky Sobrinho com o gaúcho Jeferson Weber dos Santos, de 30 anos, ex-funcionário da extinta Rede Ferroviária Federal, onde trabalhou de 1986 a 1996. Em 1991, resolveu fazer faculdade de economia “para compreender melhor a realidade social”, além das participações em movimentos populares estudantis no bairro, na igreja e em sindicato. Foi quando conheceu Léo Voigt, que o convidou para trabalhar na fundação, na qual havia acabado de assumir o cargo de diretor. Quase quatro anos depois de entrar, Jeferson fez o curso de trainee do Gife, em 2000. “Foi excelente para aumentar a rede de contatos e compartilhar experiências para nossos projetos”, diz Jeferson, que atualmente coordena o apoio técnico e financeiro a projetos sociais na Região Sul. “As instituições precisam de massa crítica e nós necessitamos de qualificação.”

Como o boom de oportunidades do terceiro setor começou no fim da última década, existe uma lacuna na formação de profissionais. Daí, o principal dilema das instituições. “Mesmo que você encontre o profissional com característica e perfil desejados, ele precisa de prática”, diz Viviane, da Ashoka. “Se você não oferece uma oportunidade a ele para que tenha essa experiência, como ele vai poder capacitar-se?” Se nem sempre a prática pode ser oferecida na empresa, os cursos que estão surgindo país afora (veja quadro abaixo) ajudam.

O dinheiro não paga, mas…

Muitas vezes, os cursos funcionam também como atalho de entrada no terceiro setor. Funcionou assim para a sul mato-grossense Márcia Alexandre, de 29 anos. Em 1994, depois de ler uma reportagem sobre o assunto, Márcia resolveu fazer parte de uma instituição conhecida como Turma da Sopa. Toda terça-feira à noite, passava por pontos da cidade de São Paulo distribuindo sopa e conversando com moradores de rua. Márcia, que trabalhava no Banco Safra, depois de ter passado pelo Nacional e pelo Unibanco, foi vendo crescer sua vontade de trabalhar no terceiro setor. “Eu ganhava bem, tinha boas perspectivas, mas pouca motivação”, diz. Ela começou a fazer um curso de especialização no terceiro setor, enquanto participava de um processo de seleção na empresa de TV por assinatura Sky. Foi convidada para estruturar um programa de responsabilidade social dentro da empresa. “Já convenci a diretoria de que a responsabilidade social é algo que deve permear todas as ações da companhia, com clientes, fornecedores e funcionários. Não é apenas um projeto na comunidade.”

Sobre remuneração, Márcia diz que trocou seis por meia dúzia. O caso dela é uma espécie de idealização do mercado de trabalho na área social. Une uma empresa com responsabilidade social e um salário compatível a outras colocações do setor privado. Geralmente, o salário diminui, aponta uma pesquisa feita pelo Idis com ex-alunos do curso de responsabilidade social e investimento social corporativo. Cerca de 35% deles foram para o terceiro setor. Destes, pouco mais da metade — em ONGs ou prestadores de serviços — tiveram uma redução de 40% no salário. Quem partiu para institutos, fundações ou iniciativas sociais relacionadas às empresas, ganha de 15% a 20% menos. Outro porém: pela lei, instituições sem fins lucrativos obviamente não oferecem participação nos lucros.

Existe outro limitador para a remuneração no terceiro setor, ligado a uma ética toda própria: é complicado tirar alguém de outra instituição. “Nossa missão de construção de um espaço público não se encerra dentro da própria organização. Se tirarmos alguém de uma instituição para trabalhar em outra, no fim das contas o que é que estamos fazendo pela sociedade?”, pergunta Andres Falconer, da ABDL. Esse sentimento permeia a própria carreira dos profissionais, que não conseguem desligar-se facilmente de uma organização para atuar em outra. Isso é um limitador para o crescimento. No setor privado, mudar de emprego, receber assédio de headhunters são ótimas maneiras de aumentar a remuneração. No terceiro setor essas táticas são quase impossíveis, além de malvistas.

Profissional-curinga

“Muita gente me pergunta se uma vez dentro é possível sair, já que abriu mão da remuneração em prol do sacerdócio, e por isso ficou pouco competitivo para o mercado”, diz Falconer, da ABDL. “Respondo que formamos gestores públicos, seja lá para que setor for. Os melhores profissionais vão sempre encontrar as portas abertas.” Se você tem dúvida, veja o que diz Léo Voigt, da Fundação Mauricio Sirotsky Sobrinho: “Um dia, um ex-aluno meu se apresentou procurando um estágio: Eu fiz tudo que você mandou — graduação, mestrado, inglês, domino informática, fui voluntário –, portanto, está aqui meu currículo. Poucos dias depois, fomos atrás dele para contratá-lo. Não funcionou. Ele já estava muito bem empregado, em algo melhor do que eu podia oferecer. E acredito que não teremos a menor chance de captá-lo mais adiante.”

No terceiro setor, como em outro segmento do competitivo mercado de trabalho, uma boa formação e conhecimento do que você quer são cartões de visita eficientes. As portas estão abertas, basta saber como bater antes de entrar.