A traição financeira atrapalha muito casamento

A infidelidade financeira atrapalha o planejamento do casal e pode colocar em risco a estabilidade econômica e o casamento

São Paulo – Nem só o romantismo marca o início de um casamento. Logo que um casal resolve juntar as escovas de dentes, é preciso estabelecer algumas regras para gerir as receitas e as despesas da casa.

Cada casal lida de forma diferente com o dinheiro. Alguns preferem manter contas separadas e dividir as despesas proporcionalmente aos ganhos de cada um. Outros optam por uma conta conjunta que ambos têm a responsabilidade de controlar. Há ainda quem prefira deixar a gestão financeira só para um dos dois.

É justamente nesse delicado campo que pode surgir uma traição. Não daquelas que envolvem escapadas de um dos parceiros. É a chamada infidelidade financeira, em que um dos cônjuges (ou até ambos) esconde do outro informações relativas ao dinheiro.

Os casos podem ser caracterizados por atos simples, como comprar roupas e sapatos e escondê-los no porta-malas do carro por uns dias para que o parceiro não perceba o gasto supérfluo ou estourar uma vez ou outra o limite do cartão de crédito, mas também por atos mais graves, como esconder um bônus, emprestar uma alta quantia a um familiar sem consultar o parceiro, pegar o dinheiro para pagar um imposto e gastar com algo pessoal, e até fazer um empréstimo no banco de um valor significativo para pagar uma dívida pessoal que comprometa os planos da família. 

Para os especialistas, a falta de diálogo pode estar na origem das traições financeiras. “Com a correria do cotidiano, os casais querem aproveitar os poucos momentos a dois para conversar sobre assuntos agradáveis, deixando para colocar o tema dinheiro em pauta somente em ocasiões realmente necessárias”, diz o consultor financeiro Gustavo Cerbasi, autor de Casais Inteligentes Enriquecem Juntos, que já vendeu mais de 1 milhão de exemplares e inspirou o filme Até Que a Sorte nos Separe, um dos mais vistos de 2012.

Mas algumas particularidades do mundo moderno, como a remuneração variável — em que o salário pode ser adicionado de bônus por produtividade, comissões por negócios fechados ou prêmios de participação nos lucros da empresa —, favorecem as infidelidades financeiras, já que dificultam o monitoramento das receitas por parte do parceiro. 


Da mesma forma que não vale a pena criar tumulto por coisas pequenas, como o fato de ter entrado no cheque especial por meros 100 reais ou por não ter resistido a uma promoção, é preciso ter determinação e tato para abrir o jogo quanto antes se a infidelidade financeira atingir patamares maiores.

“Pequenas omissões são naturais e devem ser toleradas. Mas transformam-se em traição quando os atos de infidelidade se tornam frequentes e com impacto cada vez maior nas finanças da família”, esclarece Gustavo. 

Quebra de confiança

A publicitária Cassiana Leal de Campos, de 37 anos, de Paulínia, no interior de São Paulo, sabe bem o impacto negativo que a infidelidade financeira pode trazer para um casamento. Ela conta que, com a chegada do filho, optou por parar de trabalhar para se dedicar mais à família e mantinha com o então marido uma conta conjunta, que sempre estava com pouco dinheiro.

Em casa, a ordem era economizar. Mas, de tempos em tempos, o marido aparecia de carro novo. Depois, os extratos bancários pararam de chegar ao endereço do casal. A falta de transparência financeira começou a pesar na relação do casal, que acabou se separando. Após o fim do casamento, Cassiana ainda descobriu que o ex-marido mantinha outras três contas bancárias e que havia comprado um imóvel no nome da irmã.

“Se repartimos as necessidades, também é preciso compartilhar as conquistas. A vida financeira de um casal tem de ser feita em conjunto, elaborando as prioridades, sempre com foco na família”, defende.

Para o psiquiatra Eduardo Henrique Teixeira, professor da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), a infidelidade financeira pode ser tão grave quanto uma relação extraconjugal. “O que está em jogo é a cumplicidade e a confiança e, quando esses quesitos são afetados, toda a base da relação é colocada em risco”, afirma.


Além de ter relação direta com a personalidade de cada um, os motivos para omitir as questões financeiras ou mentir sobre elas podem estar ligados à maturidade e à proximidade de marido e mulher. Mas conflitos entre o casal podem estimular as traições financeiras.

“Pessoas que cometem gastos excessivos e descontrolados podem se sentir acuadas, culpadas e envergonhadas e, por isso, não revelam tais infidelidades”, diz o médico. Apesar da delicadeza da situação, a chance de preservar o relacionamento após uma infidelidade financeira é sempre maior quanto mais cedo se abrir o jogo com o parceiro traído.

Longe das armadilhas

Os analistas de tecnologia da informação Mônica Japiassu, de 36 anos, e Carlos Marcelo Bianchi, de 35, do Rio de Janeiro, optaram por uma administração conjunta da renda e das despesas, embora cada um receba o salário em uma conta diferente.

Para que os gastos não sejam motivo de discórdia, logo que trocaram alianças, dez anos atrás, eles fizeram a combinação de que, antes de qualquer compra superior a 20 reais, seria preciso consultar o outro. “Com o passar do tempo, fomos ganhando confiança um no outro e hoje cada um pode comprar o que quiser. Só quando é algo muito caro que conversamos para avaliar se vale a pena”, revela. 

Como não se consideram consumistas, dificilmente se veem em situações polêmicas. Mas nem por isso deixam de discordar algumas vezes da necessidade de adquirir algo. Para comprar seu computador atual, por exemplo, Marcelo precisou insistir bastante.

“Ele queria e eu achava que não precisava, mas, quando fomos passear em um shop­ping, ele me levou para ver o equipamento na cor rosa, que é a minha preferida. Aí acabei concordando” diz Mônica. A sintonia do casal no quesito finanças fez com que começassem a dar dicas sobre o tema num blog.

“Recebemos muitos comentários dizendo que nossas dicas são úteis e vez ou outra até nos pedem opiniões”, diz a analista. Uma das sugestões do casal para evitar brigas é adotar como regra que todo dinheiro que entra ou que sai é da família, e não apenas do marido ou da mulher, independentemente de as contas serem separadas.

“Isso ajuda a fazer planos conjuntos, mesmo quando temos metas individuais”, diz Mônica. Manter um diálogo constante sobre os planos da família, os sonhos de consumo de cada um e a forma como vão alcançá-los é a melhor forma de preservar a transparência sem atropelar a individua­lidade.