As profissões dos sonhos

Dentro das melhores empresas para trabalhar, algumas pessoas ganham a vida fazendo coisas tão interessantes que nem parecem trabalho

São Paulo – Imagine que você é um piloto de avião e, no meio do voo, se dá conta de que um dos motores da aeronave não funciona. Pânico? Não no caso de Geraldo Curcio Neto, de 49 anos, formado pela Força Aérea Brasileira (FAB) e piloto de ensaio da Embraer há três anos.

Geraldo testa os modelos da fabricante brasileira e acompanha da definição do design ao processo final, quando os limites de segurança da máquina são testados.

Graças à tecnologia, os riscos de queda são mínimos. No entanto, os pequenos incidentes são normais, o que confere à profissão um nível alto de adrenalina. “O piloto de ensaio deve ter espírito aventureiro. É preciso que ele tenha vontade de conhecer o desconhecido”, afirma Geraldo.

Criador de cores

Na Basf, quem determina a sutil diferença de tons azuis entre as tintas Chuvisco Gelado, código Z043, e Estação das Chuvas, código A327, é o químico Aldenir Mossant, de 47 anos, há duas décadas no cargo de colorista. É ele quem desenvolve as variações de cores dos produtos Suvinil, um trabalho que tem mais de ciência do que de arte, apoiado por cálculos matemáticos para gradações de tonalidade.

Aldenir ainda acompanha a produção para garantir que a tonalidade não se modifique durante o processo. “Com a inovação que a indústria de tintas vem sofrendo, trabalhar com cores é algo inesgotável. Há sempre um desafio a enfrentar”, diz.

Médica de árvores

O trabalho da técnica agrícola Cibele Brito, de 31 anos, lembra o de uma gestação. Na fazenda da International Paper em Mogi Guaçu, onde trabalha como líder de viveiro, Cibele acompanha por longos 120 dias o nascimento de mudas que se tornarão árvores de eucalipto, matéria-prima da produção de papel.

O serviço inclui a coleta das mudas de forma correta, a refrigeração para a seiva não ser danificada e o transporte até os campos agrícolas. Tudo isso para que as plantinhas não fiquem estressadas e se tornem árvores que fornecerão celulose de qualidade. “É uma experiência sem igual acompanhar todo o processo de gestação dessas mudas e, no fim, ver que elas se transformaram em papel”, diz Cibele.

Testador de carros

Como tantos brasileiros, o supervisor da área de testes de veículos da Renault, Rogério Moreira, de 41 anos, de Curitiba, teve como ídolos de infância os pilotos da Fórmula 1. A paixão pelo automobilismo o levou a escolher a profissão de engenheiro mecânico e, anos depois, pesou quando surgiu a oportunidade de trabalhar na Renault, na fábrica de São José dos Pinhais.

Hoje, Rogério avalia os testes dos carros que ainda não foram lançados. “É muito gratificante estar à frente do tempo, conhecer em primeira mão as novas tecnologias”, diz Rogério, que se diverte quando, ao contar o que faz, vê a curiosidade das pessoas a respeito dos próximos lançamentos. “Não digo nada, para manter o segredo industrial”, diz. 

Pesquisadora de fragrâncias

O nome do laboratório em que trabalha a farmacêutica e química industrial Suélyn Federle, de 27 anos, pesquisadora do Grupo Boticário, de Curitiba, já indica diversão: área sensorial. É ela quem apura as emoções que os produtos da empresa despertam no consumidor.

Um dos testes mais incríveis é o da “explosão de fragrâncias” de xampus e sabonetes. Sabe aquele cheirinho gostoso que fica no banheiro após o banho? É o que Suélyn avalia todos os meses na cabine úmida — um simulador de boxe com chuveiro e água quente.

“A gente mede se a fragrância está muito forte ou se ela dissipa logo”, diz Suélyn, que, após cinco anos de laboratório, já definiu suas preferências. “As fragrâncias frescas me agradam mais.”

Comprador de skates

O escritório de Marcelo Dumbra, de 31 anos, não é na praia, mas quase. Há pouco mais de um ano, ele é o funcionário da Netshoes responsável por comprar os produtos de skate e surfe que serão revendidos na maior loja virtual de produtos esportivos do Brasil.

Skatista desde a adolescência, Marcelo precisa, em sua rotina, visitar showrooms das fabricantes, experimentar rodinhas, shapes e pranchas, conhecer novas tecnologias para vestuário e selecionar o que a Netshoes deverá vender.

O trabalho requer certo método: Marcelo não compra só o que gosta, tem de pensar na variedade dos consumidores do site, que vão de iniciantes a profissionais. Outro prazer vem do convívio com craques como o skatista Bob Burnquist e o surfista Gabriel Medina. “Adoro meu trabalho”, diz Marcelo.

Chef de Pet

Os cães e gatos da Special Dog, em Santa Cruz do Rio Pardo, levam uma vida que causaria inveja até no gato Garfield, personagem comilão dos quadrinhos criado pelo americano Jim Davis. Cabe a eles a prazerosa função de saborear as rações e avaliar se elas agradam aos paladares canino e felino.

A responsável por acompanhar e estudar as preferências alimentares dos lulus é a médica veterinária Mônica Clauzet de Souza, de 42 anos, gerente técnica da Special Dog. O trabalho de Mônica é oferecer opções de ração, alternando entre produtos da empresa e de concorrentes, e avaliar a reação dos bichanos.

Ela também assegura que os animais tenham uma rotina de exercícios e de atenção igual ou superior à de um ambiente doméstico. Para ela, que nunca gostou de trabalhar em clínica, por ter contato apenas com os animais em fase de doença, cuidar do bem-estar dos animais sadios foi uma opção de carreira. “Aqui me encontrei na profissão”, diz.