Profissões fadadas a desaparecer estão voltando (e com estilo)

Em livro, sociólogo aponta tendência em quatro ramos barbearias, açougues, coquetelaria e destilaria

Masters of Craft: Old Jobs in the New Urban Economy

Autor: Richard Ocejo

Selo: Princeton University Press

Páginas: 368

Preço: US$ 20,73

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O sujeito acorda de manhã e antes de chegar no trabalho para na barbearia de sua rua para afeitar a barba. Sua mulher vai ao açougue do bairro, onde o açougueiro recebe o animal inteiro para então cortá-lo manualmente. No fim do dia, talvez tomem um golinho de gim feito na destilaria local, com ervas selecionadas, seguindo o processo secular. Essa não é a descrição de um passado mais simples, antes de a industrialização e a massificação tomarem conta da sociedade; é uma realidade atual, que vem se tornando cada vez mais comum.

E é este o tema de Masters of Craft: Old Jobs in the New Urban Economy, obra do sociólogo Richard Ocejo. Profissões manuais, que pareciam fadadas a desaparecer com os ganhos de escala da industrialização, estão voltando. Ocejo se limita a quatro ramos: barbearias, açougues, coquetelaria e destilaria. Nos quatro, uma profissão que no passado era vista como de baixo status socio-econômico é agora tomada por jovens bem-sucedidos e que abandonam carreiras mais tradicionais para se dedicar integralmente a elas.

Claro que, em seu retorno, elas não são uma repetição do modo tradicional de fazer as coisas. Como uma boa experiência dessa diferença, basta comparar uma barbearia “descolada” — dessas que servem cerveja e investem na decoração — com uma barbearia antiga que ainda resista nas grandes cidades, sem nenhum glamour de suas imitadoras modernas. Há, nas versões atuais, uma tentativa consciente de se reconectar com tradições do passado pré-industrial e de elevar as técnicas manuais dele ao estado de uma verdadeira arte. Mostram conhecimento minucioso da origem de ingredientes e da história de diversas práticas, coisa que o praticante tradicional, de origem proletária, simplesmente não tem.

A palavra-chave, segundo Ocejo, é “autenticidade”. Num mundo de comunidades cada vez mais desconectadas do passado, cada vez menos circunscritas geograficamente, e nas quais o digital e instantâneo prepondera, encontrar essa ligação quase mística com o imemorial, o material, o tradicional adquire um novo valor. Agora, é claro que esse passado “autêntico” sendo resgatado agora é, ele também, uma ficção do presente.

Por fim, o mundo do trabalho manual oferece uma série de valores para o homem jovem dos dias de hoje. É um trabalho no qual seu conhecimento e criatividade têm valor; e onde o uso do corpo tem papel central. Sendo assim, têm um papel na redefinição do que é a masculinidade nos dias de hoje – assim como as barbas e roupas de lenhador. Por isso atrai sobretudo homens, que encontram nessas atividades um campo de expressão pessoal e afirmação de valores ausentes no mundo do trabalho convencional.

Embora arraigado em práticas e tradições que no passado tinham baixo status social, seria um erro acreditar que o mundo do novo trabalho artesanal esteja aberto a todos. Oceja identifica um forte componente de exclusividade (ou exclusão?) social. Ao contrário do passado, esses trabalhos são hoje fonte de status social e dependem de boa formação e bom gosto (ou seja, navegar e manipular bem os padrões de um certo grupo social). Por isso, os artesãos do século 21, em geral, tiveram educação superior de ponta.

Um jovem pobre de uma cidade interiorana de Ohio (ou do Paraná) terá um trabalho muito maior em integrar esse grupo, que depende não tanto do conteúdo da educação formal como de partilhar um certo conjunto de padrões de conduta e valores estéticos. Seja como for, como toda ocupação que gera status e dinheiro, o incentivo está dado para que cada vez mais pessoas – de todas as classes – imitem a estratégia de sucesso, popularizando-a.

O mundo do trabalho está passando por transformações profundas. Uma nova onda de automação está prestes a extinguir muitas profissões que, até pouco tempo, só um ser humano poderia desempenhar. Isso vale não só para os trabalhos fabris como também muitas atividades intelectuais: contabilidade, advocacia, tradução, diagramação, vendas. Essa mão-de-obra liberada fica sobrando para novas atividades, que antes não eram desempenhadas. Quem sabe esse mundo da prática artesanal e do contato humano, a reconexão com a experiência do autêntico e do humano, possa ser um dos campos que absorvam a mão-de-obra que a revolução digital liberar. Estaremos, no fim das contas, no mesmo lugar de onde saímos, mas agora com mais charme.