Aprenda com os gurus

Um prefere investir com base na análise fundamentalista e o outro gosta da análise técnica. Os dois aplicam em ações há mais de 40 anos e já ganharam muito dinheiro. Descubra suas lições

São Paulo – Conhecer o mercado financeiro, acompanhar os resultados das empresas de capital aberto e ainda ter sangue-frio para comprar e vender bem ações na bolsa de valores, mesmo em períodos de turbulência, são características de poucos investidores.

Dois profissionais que aplicam dinheiro há mais de 40 anos em ações contam como conseguiram superar as crises ao longo do tempo e ganhar muita grana. O economista mineiro José Otávio Melo Saraiva, de 64 anos, usa técnicas fundamentalistas, que analisam a situação econômica, financeira e de mercado da companhia, para avaliar a compra de ações.

Até hoje quase não perdeu dinheiro. Já o economista carioca Márcio Noronha, de 67 anos, foi do céu ao inferno em poucos meses. Ganhou muito, perdeu tudo e voltou ao mercado financeiro. Ele é um investidor que prefere usar a análise técnica, que coloca em gráficos os preços das ações durante um período, para determinar seus investimentos. Aprenda com eles algumas estratégias para investir na bolsa. 

Garimpeiro de ações Há quatro décadas no mercado acionário, o mineiro José Otávio Melo Saraiva perdeu pouco dinheiro. Ele é um leitor voraz de notícias econômicas e informações sobre as empresas que negociam papéis na bolsa. Antes de investir em uma companhia, ele estuda cada detalhe dela.

O professor Saraiva, como prefere ser chamado, desenvolveu um método para selecionar as ações nas quais vai investir. Nas suas decisões, ele usa a análise fundamentalista em 80% dos casos.

“Vejo o que as empresas fazem e não acredito em preço justo da ação, mas sim nos resultados da companhia nos últimos cinco a dez anos”, diz ele, que é um dos quatro profissionais que estão no livro Casos de Sucesso no Mercado de Ações, de Geraldo Soares, da Coleção Expo Money (Campus-Elsevier). Os outros 20% da análise acionária consideram informações técnicas. 

O professor Saraiva também criou 30 critérios para selecionar seus papéis. Um deles é só comprar ações ordinárias (ON), que dão direito a voto nas assembleias da empresa. O outro é não investir em estatais. Apenas com essas duas limitações, ele reduz para 30% o total das organizações que serão analisadas para investimento. “Acompanho o mercado e invisto somente no que vale a pena. Posso ganhar menos, mas continuo ganhando sempre”, diz.


A crise financeira que abalou o mercado em 2008 não atingiu a carteira de ações de José Otávio. Ele estava longe da bolsa e só voltou a comprar ações quando o preço dos papéis estava bem baixo. Aliás, esse é o negócio que ele mais gosta de fazer: comprar na baixa. A carteira dele é formada por nove papéis com pouca liquidez na bolsa, como Embraer ON e Drogasil ON.

A ganância não faz parte da estratégia do professor Saraiva, apesar de ele já ter ficado com 69% do seu patrimônio investido em ações. Mas, geralmente, quando o papel chega a um valor determinado, ele vende a ação e embolsa o dinheiro. “O investidor deve lembrar sempre que lucro é receita menos despesa, então, se ainda não vendeu, não pode contabilizar o ganho”, diz José Otávio, que quer trabalhar até os 80 anos. 

Investidor da gema Imagine ter 24 anos, ser recém-formado no curso de economia e ganhar o equivalente a 40.000 reais por mês? É bom, não é? Essa era a vida do carioca Márcio Noronha na metade da década de 60. Hoje, o analista técnico, sócio da Link Trade Investimentos, acaba de lançar o livro É só isso!? (Editora Márcio Noronha Livraria Virtual), um verdadeiro manual sobre tudo o que aprendeu no mercado financeiro. Ele perdeu todo seu dinheiro e só conseguiu recuperá-lo após alguns anos. 

Márcio começou sua carreira nos anos 60 em uma tradicional corretora de valores do Rio de Janeiro. “Entre 1966 e 1967, as pessoas físicas investiram todo o seu dinheiro na bolsa. Eu investia quase todo o meu salário e fazia operações a termo, que era uma forma de alavancagem”, diz. Sem nenhuma técnica ou análise prévia, o jovem comprava e vendia ações. Quando algo dava errado, ele aumentava o investimento para tentar ganhar mais. 

Com essa brincadeira, Márcio ganhou 8 milhões de dólares em três anos, o equivalente a 100 milhões de dólares hoje, considerando a correção monetária e a inflação. Com o dinheiro, ele comprou cinco carros, uma coleção de quadros valiosos, gado e uma megapropriedade na estrada Teresópolis-Friburgo, no Rio de Janeiro, com 1 600 alqueires. Mas, em 1971, ele perdeu tudo com a crise na bolsa do Rio.

O mercado financeiro continuou em baixa por nove anos. “Eu quebrei. Tive de vender todos os meus bens, cinco quadros de Portinari, que hoje valeriam cerca de 2 milhões de dólares cada um, e ainda assim fiquei com dívidas”, diz o analista, que viu seu casamento ir para o espaço quando ficou pobre. 


Sem dinheiro, ele se tornou agricultor e foi viver em um sítio. A propriedade só não havia sido vendida para pagar as dívidas porque estava localizada em uma estrada de terra que virava um grande rio de lama quando chovia. “O elefante branco foi a minha salvação na época”, relembra o economista.

Seu afastamento do mercado não durou muito tempo e três anos depois, em 1974, ele já tinha retomado as negociações no mercado financeiro. Pagou as dívidas, foi morar no bairro carioca do Leblon. Mais três anos se passaram e, em 1977, Márcio foi convidado para criar um fundo de pensão no Paraguai.

Em 1984, ele voltou a investir em ações e não parou mais, apesar de ter perdido tudo novamente com uma transação com opções. Foi só em 1986, quando traduziu um livro norte-americano de análise técnica, que ele conseguiu traçar uma estratégica para investir em ações. “Deixei de lado operações arriscadas de alavancagem e opções, e passei a operar apenas no mercado à vista, conhecido como papai e mamãe”, diz. 

Entre altos e baixos, Márcio aprendeu que, para ganhar dinheiro, é preciso conhecer o mercado e estudar muito. “O maior inimigo no mercado de ações é você mesmo, porque é difícil tomar a decisão de parar de perder.” Atualmente, todo o dinheiro dele está investido na bolsa de valores e Márcio consegue uma rentabilidade média de 30% ao ano.

A dica dele é comprar na força e vender na fraqueza, ou seja, comprar o papel que está em tendência de alta e vender quando está na tendência de baixa, segundo a análise técnica. O prazer por investimentos está no sangue dos Noronhas. O filho de Márcio, de 23 anos, formado em administração, também está seguindo o mesmo caminho trilhado pelo pai e nem mesmo o fato de estar em uma corretora concorrente tira o orgulho do paizão.