Alvo fácil, o repórter de guerra corre todos os riscos

Segundo a ONG Repórteres Sem fronteiras (RSF), 66 jornalistas foram mortos em 2011, 20 no Oriente Médio e no Magreb durante a Primavera Árabe, contra 57 mortos em 2010

PARIS – Armas ultra-sofisticadas, concorrência acirrada entre os meios de comunicação, prioridade ao imediatismo, aumento da presença de jornalistas inexperientes: correspondentes de guerra correm cada vez mais riscos, especialmente quando se tornam alvos.

Nesta semana, os jornalistas Marie Colvin e Rémi Ochlik foram mortos em um bombardeio na cidade rebelde de Homs, na Síria, poucas semanas depois de Gilles Jacquier, o primeiro jornalista ocidental a morrer no país.

Segundo a ONG Repórteres Sem fronteiras (RSF), 66 jornalistas foram mortos em 2011, 20 no Oriente Médio e no Magreb durante a Primavera Árabe, contra 57 mortos em 2010.

“A transmissão de imagens acontece de forma cada vez mais rápida com a internet. A informação se tornou um produto de consumo imediato, é preciso fazer tudo rápido. Por isso, existem menos precauções tomadas para se preparar”, conta Philippe Rochot, repórter da France 2.

Nos anos 1990, os jornalistas tinham direito a uma semana para apresentar uma reportagem. Hoje, este tempo diminuiu para três dias. “Quando trabalhamos rápido, corremos mais riscos”, resume este jornalista, ex-prisioneiro no Líbano.

A concorrência entre os meios de comunicação também ajuda a explicar a exigência de urgência. Especialmente na ausência de oportunidades de trabalho na França, a crise da imprensa exige que muitos jovens tentem uma chance em zonas de guerra. Mas eles não estão preparados.

“Hoje em dia nós trabalhamos em guerras onde é difícil prever onde vão cair os projéteis porque podem atravessar várias paredes. Além disso, existem equipamentos que detectam atividade de aparelhos digitais”, explicou Paul Moreira, um dos primeiros a produzir um documentário sobre Homs, no início de novembro.

As câmeras térmicas, utilizadas por alguns exércitos, assim com os aviões sem piloto (drones), complicam ainda mais o trabalho dos jornalistas.


Além disso, o status do jornalista mudou. Até meados dos anos 1990, da mesma maneira que a Cruz Vermelha e as ONGs, os jornalistas eram tolerados, até respeitados. A situação mudou, e agora são alvos.

“O front midiático se tornou quase tão importante quanto o front militar. O jornalista é um problema, daí o aumento da tomada de prisioneiros”, revelou Jean-Claude Guillebaud, testemunha de conflitos que aconteceram entre 1970 e o início dos anos 1990.

“Em uma certa época, era admitido que um jornalista pudesse se aventurar para tentar falar sobre um conflito”, lembra Vincent Hugeux, repórter do Express.

“Esta garantia desapareceu com a chegada de milícias formadas por jovens de 14 anos, bêbados, drogados. Além disso, o jornalista é sistematicamente suspeito de ser um espião”, ressalta.

Para se preparar, cada um segue uma receita: alguns preferem ter um bom guia local, outros permanecer em grupo, outros ainda trabalhar sozinhos; há quem recomende retirar a bateria e o cartão de memória dos celulares e dos telefones via satélite ou simplesmente ter “um bom par de tênis e correr rápido”, brinca Philippe Rochot.

Os repórteres recebem treinamento, muitas vezes fornecido pelo exército, para localizar minas ou se comportar adequadamente durante uma crise de reféns.

Poucas pessoas usam o colete à prova de balas, “muito pesado”, e o capacete, “que não é prático”.

Paradoxalmente, o medo é a melhor defesa. “Se eu tivesse que recrutar alguém para cobrir zonas de conflito, nunca levaria uma pessoa que vai me dizer ‘eu não conheço o medo’. O medo controlado me salvou a vida duas ou três vezes”, disse Vincent Hugeux.

“O medo é o melhor de nossos aliados”, acrescentou Mehdi Fedouach, fotógrafo da AFP.