Alta fidelidade

Vale a pena fazer carreira numa empresa só - embora o crescimento profissional costume demorar mais

Há quem diga que o ideal para manter a
empregabilidade em alta é mudar de empresa a cada cinco anos. Outros afirmam
que o caminho é alimentar o espírito empreendedor e montar um negócio próprio.
Alguns, ainda, apostam na opção de trabalhar vários anos numa multinacional e
depois partir para uma nova empreitada numa companhia de menor porte. As
possibilidades são muitas, e, ao contrário do que se apregoa por aí, você
tem bons motivos para não descartar também a de fazer carreira em uma única
empresa. Pense um pouco: se a organização oferece um pacote de benefícios
interessante, desafios e oportunidades de aprendizagem contínuos, e você está
satisfeito com isso, por que jogar a fidelidade para o alto? Veja o exemplo do
maior executivo do século. Jack Welch trabalhou 41 anos de sua vida na General
Electric, 20 dos quais como CEO. Ou seja, toda sua carreira. Tudo bem. O mundo
era bem diferente naquela época, a instabilidade e as pressões eram menores,
mas, na verdade, não se trata de simplesmente contabilizar os anos de casa.
Fidelidade corporativa não é uma questão de quanto tempo você passa num
mesmo emprego, mas sim de quanto tempo você consegue se manter ativo e criativo
no mesmo lugar.
“Enquanto o profissional encontra oportunidades, treinamento e espaço
para ação, não há motivos para sair” , diz o headhunter Ricardo Rocco,
diretor da Russell Reynolds. “O mercado ainda valoriza, sim, a
fidelidade” , afirma o professor Joel Dutra, do MBA de Recursos Humanos da
Universidade de São Paulo (USP). “Na hora de contratar, as empresas não
olham apenas os lugares por onde o profissional passou, observam também suas
realizações.” João Rodrigues Canada, vice-presidente executivo do grupo
Foco Recursos Humanos, vai mais longe. “Um profissional que troca de
empresa a cada três meses mostra que não se preocupa com a continuidade da
carreira.” O recado dos especialistas é simples: quem opta por fazer
carreira em uma única empresa cresce quando se preocupa em apresentar
resultados e em valorizá-los — mesmo que o processo possa demorar um pouco
mais.

Arrume um mentor
Um profissional de alta performance não nasce da noite para o dia. Então, como
conseguir bons resultados continuamente? O primeiro passo é arrumar um mentor
para o seu aprendizado. Essa pessoa vai ajudá-lo a entender as ferramentas úteis
para seu trabalho e os caminhos do sucesso dentro da companhia. “Mesmo que
não exista um programa oficial de tutores, use esse método de maneira
informal”, aconselha Ricardo Rocco. Desde a sua graduação na Universidade
de Massachusetts (UMass) até chegar a CEO da General Electric, Jack Welch teve
vários mentores. “Parece que, em todos os lugares, eu sempre encontrei um
mentor. Não estava à procura de um novo pai, mas sempre contei com pessoas que
surgiam de algum lugar e me ofereciam apoio”, conta o executivo em sua
biografia (Jack Definitivo – Segredos do Executivo do Século, Editora Campus).
Como CEO da GE, Jack mostrou que aprendeu a lição: era ele quem cuidava
pessoalmente dos 750 principais executivos da empresa. Portanto, como líder, não
basta dar oportunidades. É preciso apoiar e assistir as pessoas que trabalham
sob seu comando.

Quero ser CEO
Não é porque você pretende passar dez, 20, 30 anos numa mesma empresa que vai
se acomodar e contar com um plano de cargos e carreiras para impulsionar seu
crescimento. Se você quer ser CEO, trate de fazer exatamente o contrário:
tenha muito claro seus objetivos profissionais. “Fazer carreira numa única
empresa só vale para quem sabe exatamente aonde quer chegar”, ressalta
Canada. “Quem não sabe aonde vai não chega a lugar nenhum, mesmo que
troque de emprego várias vezes.” Se você se identifica com o lugar em que
trabalha e já elegeu a cadeira onde quer sentar, é um forte candidato a uma
carreira de longo prazo bem-sucedida. Há um detalhe, porém: atingir a posição
de CEO vai depender da sua atividade dentro da empresa. Ficar atrelado à área
de suporte, por exemplo, não é um caminho recomendável. “Procure atuar
numa área estratégica da empresa. Busque uma atividade relacionada com o que a
companhia faz de mais importante”, aconselha o professor Joel Dutra. Não
se iluda: nenhuma organização é um mar de rosas. Mesmo que sua atividade seja
essencial para a empresa, se você quer chegar ao topo, vai precisar de uma boa
dose de persistência. Vejamos, mais uma vez, o caso de Jack Welch. Em 1959, a
burocracia da GE irritou-o a ponto de ele cogitar sair da empresa. Em sua
biografia, Jack critica várias vezes a administração da GE. Se a perseverança
não for o seu forte, passar muito tempo dentro de uma mesma companhia pode não
ser saudável. Por sorte, quanto mais Jack subia na hierarquia, mais autonomia
conquistava para fazer as mudanças que julgasse necessárias. O profissional
fiel à empresa tem essa vantagem: participa do crescimento do negócio.

A meca dos fiéis
Se permanecer fiel a uma empresa é difícil para o profissional, manter pessoas
talentosas é uma tarefa ainda mais complicada para a companhia. Mesmo assim,
existem exemplos de sucesso. É o caso da Andrade Gutierrez. A construtora pode
ser considerada uma espécie de “meca dos fiéis”. Lá, o tempo médio
de casa é de 14 anos — contra três do executivo brasileiro em geral, segundo
pesquisa da Ray & Berndtson, empresa de recrutamento e seleção de São
Paulo. Para Pedro Augusto Ricco, diretor de recursos humanos da Andrade
Gutierrez, o resultado não poderia ser melhor. “Hoje o diferencial das
empresas são as pessoas. Por isso é tão importante manter profissionais que
gostem do trabalho e que atuem como se fossem os donos”, diz. Pedro Ricco
acredita que, para seguir uma carreira de alta fidelidade, além de muito
qualificado, o profissional precisa ter facilidade em relacionar-se com pessoas.
Ou seja, deve mostrar flexibilidade, boa comunicação e disposição para
trabalhar em equipe. Afinal, se a fidelidade voltar à moda, o estagiário de
hoje pode ser o presidente de amanhã.

 

100% de identificação
O ano era 1976. O então estagiário Luiz Carlos Pimenta recebeu de Pedro Bobone,
seu primeiro chefe na Volvo, a maior lição para sua carreira: “Nunca
esteja associado ao problema; esteja associado à solução”. Pimenta ocupa
hoje a posição mais importante dentro da Volvo Automóveis no Brasil: é o
diretor executivo da empresa. Ele afirma que a carreira de mais de 20 anos no
mesmo lugar só foi possível graças à sua identificação com a empresa.
“A Volvo é uma companhia que valoriza muito os relacionamentos, seja com
seus funcionários, seja com seus fornecedores e revendedores” , diz.

O executivo acredita que para
passar de estagiário a presidente na mesma empresa é fundamental ter coragem
para assumir desafios. “Agarrei todas as oportunidades que tive. Assumi os
desafios e tomei decisões que, se dessem errado, poderiam custar meu emprego no
dia seguinte.”

 

Crescimento em dose dupla
Em 1991, Álvaro Cerqueira dos Anjos era aluno do 4o ano do curso de administração,
com ênfase em comércio exterior, da Faculdades Associadas de São Paulo (Fasp).
A Custom ainda era apenas projeto de uma empresa 

de logística que não tinha saído
do papel. Nessa época, Álvaro foi recrutado informalmente como estagiário da
futura empresa — e logo depois recebeu uma proposta para trabalhar em outro
lugar. O motivo para apostar num empreendimento que só seria formalizado dali a
dois meses foi simples: os desafios que a empresa podia oferecer.
“Participar do crescimento da Custom foi ótimo. Eu sempre era incumbido de
resolver encrencas, e tinha de quebrar a cabeça para isso” , diz. Álvaro
acredita que a vantagem da fidelidade corporativa são os laços que o
profissional cria.

“Eu pensaria muitas vezes
antes de trocar de empresa. Caso recebesse uma proposta irrecusável, deixaria
com dor no coração a Custom” , diz. O resultado da aposta como estagiário
é que, hoje, a Custom se consolidou no setor de logística, e é Álvaro quem
ocupa o cargo de sócio-diretor.