A sommelier e a cidade: abram caminho para as mulheres

Élyse Lambert foi uma das duas mulheres que passaram por um difícil exame final e chegaram ao posto de mestra sommelier em uma cerimônia em Aspen, EUA

Quando Élyse Lambert ascendeu ao posto de mestra sommelier em uma cerimônia em maio passado, em Aspen, Colorado, EUA, a primeira coisa que ela fez foi desarrolhar uma garrafa de champanhe Krug Grande Cuvée.

Ela tinha muito que comemorar. Consultora de vinhos da Maison Boulud, de Montreal, ela estava entre os 63 candidatos que fizeram o difícil exame final de mestre sommelier deste ano, último passo de um processo longo e cansativo dividido em quatro partes.

Apenas sete foram aprovados e ela estava entre as únicas duas mulheres.

“Havia muito poucas sommeliers mulheres quando eu comecei, há 15 anos”, diz Lambert. “Eu comecei como garçonete. Um MS depois de meu nome é importante para mim — e ajuda a mudar a imagem das mulheres e dos vinhos no mundo dos restaurantes”.

Nesta era iluminada, apenas 32 dos 229 mestres sommeliers do mundo — ou pouco menos de 14 por cento — são mulheres. O Canadá tem duas. Três quartos delas exercem seu ofício nos EUA.

“A profissão de sommelier é historicamente dominada pelos homens”, admite Andrew McNamara, presidente do conselho da Court of Master Sommeliers nas Américas. Mas houve um avanço.

O venerável estereótipo de que o sommelier é um francês careca e altivo, com um tastevin prateado pendurado em uma corrente no pescoço, felizmente ficou no passado.

Primeiros passos

Em 2009, quando Kelli White (agora no restaurante Press, de Napa Valley) começou a trabalhar no Veritas, de Nova York, o restaurante, centrado no vinho, nunca havia contado com uma sommelier.

Heidi Turzyn conseguiu trabalhar para subir até se tornar a primeira mulher diretora de vinhos do Gotham Bar Grill, há apenas dois anos.

Mas em uma era em que os homens sommeliers têm propensão a ostentar tatuagens e abrir garrafas de champanhe com um sabre, como uma espécie de bravata, em alguns lugares as mulheres sommeliers ainda enfrentam um verdadeiro preconceito.

“Uma vez eu desconsiderei um emprego de sommelier porque o restaurante estava preocupado que eu não pudesse carregar as caixas de vinho para subir e descer as escadas”, diz Shelley Lindgren, diretora de vinhos e proprietária da A16, de São Francisco, que ganhou um prêmio James Beard em 2015 pelo melhor programa de vinhos.

Podemos utilizar um estereótipo para contrapor essa suposição: uma caixa de vinhos pesa cerca de 20 quilos, o mesmo que uma criança pequena.

De fato, superar (e muitas vezes ignorar) o antiquado sexismo é o maior obstáculo mencionado. Muitas das dezenas de sommeliers mulheres que eu entrevistei contam histórias sobre clientes que exigiram “o verdadeiro cara dos vinhos” ou fizeram perguntas do tipo “quem é essa garota?”.

“Eu ainda me deparo com o cliente ocasional, normalmente um homem sexagenário ou mais velho, que arqueia as sobrancelhas por surpresa ou ceticismo quando eu me aproximo da mesa”, diz Texan June Rodil.

Ela escolheu o caminho de sommelier em vez da Faculdade de Direito e é a outra mulher aprovada no exame MS deste ano.

Nenhum desses assuntos surpreende quando você considera que o negócio dos restaurantes era, em grande parte, fechado às mulheres.

A maioria dos chefs ainda são homens e a desigualdade de gêneros persiste no mundo dos vinhos, de uma forma geral.

Os homens são donos da vasta maioria das grandes propriedades vinícolas do mundo e um estudo recente mostrou que apenas 10 por cento das vinícolas da Califórnia têm uma mulher como enóloga-chefe.

Mudança de maré

Contudo, nos últimos anos, o número de mulheres sommeliers foi às alturas, especialmente em grandes centros urbanos, como a cidade de Nova York.

“Esta é uma das melhores cidades para ser uma sommelier no momento”, insiste Laura Maniec, cofundadora do Corkbuzz, em Manhattan, que se tornou mestra sommelier em 2009.

Essas mulheres também acreditam que oferecem vantagens, especialmente no que diz respeito ao serviço.

“Eu diria que as mulheres tendem a ser mais compreensivas e são melhores para ler a linguagem corporal. Além disso, podemos ser vistas como menos intimidantes”, explica Maniec.