Melhor que gente engajada é gente apaixonada pelo trabalho

Quem trabalha com o que gosta sente mais vontade de se desenvolver e de contribuir com a própria profissão

São Paulo – Nos últimos anos, muitas empresas passaram a se preocupar em medir o nível de engajamento de seus funcionários. Profissionais envolvidos com o trabalho são, na teoria, mais produtivos e responsáveis. Quando uma pesquisa aponta patamares baixos de engajamento numa empresa, é sinal de que o ambiente de trabalho anda ruim e há risco de queda nos resultados.

Os vários estudos feitos sobre o assunto mostram que a maioria dos profissionais não gosta do que faz. Uma pesquisa do instituto Gallup com 2 300 americanos apontou que 71% dos trabalhadores do país não estão engajados. Levantamento feito no Brasil pela consultoria Pactive em 2013 com mais de 1 000 pessoas mostra que 32% dos profissionais já pensaram em largar a ocupação atual.

No ano passado, a consultoria Deloitte resolveu ir além da ideia de engajamento. Em vez de manter funcionários engajados, as empresas deveriam encontrar profissionais apaixonados pelo que fazem.

Quem trabalha com paixão, segundo a consultoria, exibe três atitudes: tem um desejo de causar impacto no mercado em que atua, busca desafios para melhorar seu desempenho e luta para construir relacionamentos. Ao contrário do engajamento, a paixão vem de dentro, não adianta a empresa estimular.

Duas mudanças

Há quatro anos, o suíço Sandro Sarbach, de 38 anos, trabalha como sommelier e dá aulas e palestras de vinho em restaurantes de São Paulo. Para chegar a essa carreira, já abandonou um trabalho que não gostava (comissário de bordo) e outro que gostava (dono de restaurante).

Agora, finalmente se encontrou. “O restaurante foi um sucesso, mas quando tive filhos comecei a privilegiar uma vida mais equilibrada”, diz Sandro. “Agora trabalho em casa, faço o que gosto e posso cuidar dos filhos.”

Segurança sacrificada

Para criar a gestora de fundos BR Opportunities, de São Paulo, há três anos, Carlos Miranda, de 52 anos, decidiu abdicar do posto de sócio líder da empresa de auditoria Ernst&Young. O emprego lhe proporcionava status
e um salário excelente.

Poderia ficar na empresa mais 11 anos até se aposentar. Apesar do conforto, Carlos já não via perspectiva de crescimento. “Já havia alcançado o máximo”, diz. Decidiu arriscar e abrir um fundo de private equity, que tem participação no site Flores Online. “Não foi nada fácil, precisei de muita coragem”, diz Carlos.

Num estalo

O humorista carioca Fábio Porchat, de 30 anos, coleciona sucessos nos últimos anos como integrante do canal web Porta dos Fundos, como ator de filmes como Meu Passado Me Condena e da série A Grande Família, da Rede Globo, além do trabalho como roteirista.
A decisão de seguir a vocação ocorreu quando ele ainda cursava faculdade de administração de empresas em São Paulo.

Como estudante, Fábio foi assistir a uma gravação do Programa do Jô e pediu à produção para apresentar um esquete que havia criado. O pedido foi aceito, Fábio subiu ao palco e agradou. “Deu o estalo de que era aquilo que eu queria para a minha vida”, diz Fábio.

“Quando você não sabe o que fazer, acaba escolhendo uma profissão mais generalista. Mas percebi que não tinha a menor vocação para ficar atrás de uma mesa de escritório. Meu talento era fazer as pessoas rirem.”

Menos de um mês depois já havia largado a faculdade e se mudado para o Rio de Janeiro para estudar teatro. “Ao descobrir o que realmente se gosta de fazer, a gente se encaixa onde quer e acaba deslanchando”, afirma.