A nova geração de executivos do Sul

Eles atuam em negócios inovadores, estão gerando empregos e influenciando grandes companhias em todo o país

São Paulo – Nanotecnologia, economia criativa, sustentabilidade. Esses são alguns dos nichos de negócios explorados pela nova geração de profissionais e empreendedores do Sul, que estão influenciando empresas grandes e bem estabelecidas por sua abordagem inovadora.

Uma dessas novas empreendedoras é a catarinense Betina Zanetti, de 35 anos, fundadora da Nanovetores. Betina se formou nos laboratórios da Universidade Federal de Santa Catarina e da França, onde se doutorou e pós-doutorou em temas como biossegurança e sistemas de encapsulação.

Foi de sua experiência na Europa — onde a nanotecnologia já é uma realidade — que Betina trouxe a coragem necessária para investir numa empresa especializada em fornecer estruturas microscópicas carregadas de ativos em seu interior.

“Num creme convencional, os ativos estão soltos e interagem com os demais componentes, o que facilita a deterioração e resulta numa perda de eficácia. Quando você encapsula esse princípio ativo, pode assegurar que ele só entre em ação quando ativado pelas enzimas da pele, por exemplo”, diz Betina.

Hoje, a empresa tem um portfólio de 100 clientes que inclui empresas do porte da L’Oréal e do Grupo Boticário, a quem ajuda a produzir perfumes de longa duração — graças à encapsulação das fragrâncias — e cremes do tipo leave-in com efeito prolongado.

O campo de atuação da Nanovetores vai muito além da indústria cosmética. A empresa também produz encapsulados para as áreas têxtil, odontológica e alimentícia. Na indústria têxtil, uma das criações de maior sucesso é uma calça com propriedades anticelulíticas desenvolvida em parceria com a Malwee.

O produto é tratado com microcápsulas com grande poder de fixação, resistentes à lavagem, carregadas de ativos cosméticos que vão sendo liberados gradativamente. Na indústria de produtos odontológicos, a empresa trabalha em clareadores dentais e, na indústria alimentícia, os projetos visam à melhor absorção de suplementos alimentares.


Quando a empresa iniciou suas atividades, em 2011, o quadro de pessoal se resumia a dois pesquisadores, além da própria Betina. Neste ano, a empresa já conta com 21 empregados, sendo que, até o fim do ano, pelo menos mais seis profissionais de pesquisa serão contratados nas áreas de química e farmácia, além de técnicos para operar os equipamentos do laboratório.

Agora Betina quer ingressar no segmento farmacêutico, produzindo medicamentos de liberação programada para tratamento do câncer, com atuação apenas nos órgãos-alvos. “Isso poderia reduzir os efeitos colaterais das medicações”, explica Betina. A Nanovetores vem sendo procurada por universitários estrangeiros que querem estagiar na empresa.

“Já tivemos uma estudante francesa e neste ano devemos ter uma alemã e três canadenses”, diz. Os investidores também cortejam Betina. “Estamos sendo assediados por fundos de investimento.”

O empreendimento capitaneado por Betina reflete o bom momento das empresas de tecnologia de Santa Catarina. Só em Florianópolis, são mais 550 empresas com esse perfil. No ano que vem, a Nanovetores, hoje incubada no Centro Empresarial para Laboração de Tecnologias Avançadas, se transferirá para o Sapiens Parque.

Esse espaço, de 4,3 milhões de metros quadrados, vai reunir empresas com perfil inovador em ciência, tecnologia e meio ambiente, e terá toda a infraestrutura necessária para promover a integração e a troca de conhecimentos entre os profissionais e as empresas.

Cirque du Soleil 

“O equivalente ao Cirque du Soleil em engajamento urbano, com um modelo de negócio diferenciado e escalável.” Foi assim que o investidor canadense Peter Suma descreveu a escola de criatividade Perestroika, criada pelo publicitário gaúcho Tiago Mattos, de 34 anos.

“Procure Guy Laliberté e diga que você tem um novo modelo global”, acrescentou. Sediada em Porto Alegre — não por coincidência, apontada pelo estudo Índice de Criatividade das Cidades, da Fecomércio de São Paulo, como a segunda cidade mais favorável à economia criativa no Brasil —, a Perestroika tem um portfólio de cursos que inclui desde artes, design e fotografia até futurismo, passando por aulas inusitadas, como poker profissional, skate para mulheres e escola de mães.

Sua marca registrada são as aulas divertidas, que surpreendem os cerca de 2 500 participantes que já passaram pela escola. “Temos uma aula que discute o funcionamento das redes sociais, que comparamos a uma balada. No meio, a aula vira uma balada. Em outra, os alunos entram vendados e, de repente, estão num bar”, diz Tiago, que se apresenta como diretor de whatever (termo em inglês para “qualquer coisa”).


Esse estilo descontraído tem seduzido empresas como Lojas Renner, Red Bull, Petrobras, Vivo e Kraft Foods, que contratam a escola para dar cursos sobre comunicação contemporânea ou formatos integrados de trabalho.

O modelo, aparentemente improvisado, prima por recorrer a palestrantes de reconhecimento nacional e internacional para ministrar as aulas — como Gringo Cardia, cenógrafo do Cirque du Soleil, Lauren Anderson, fundadora do Collaborative Lab, o estilista brasileiro Ronaldo Fraga ou Raphael Vasconcelos, diretor de soluções criativas do Facebook — e segue uma metodologia com base em três passos: sintetizar o conteúdo, transformá-lo numa metáfora e, em seguida, criar uma experiência que ajude a fixar essa metáfora. “O que fazemos é criar uma experiência”, diz Tiago. 

Formado pela Miami AdSchool, Tiago foi um dos convidados a compor, no ano passado, o seleto grupo de alunos da Singularity University, parceria da Nasa com o Google no Vale do Silício para formar empreendedores capazes de propor soluções para os grandes desafios da humanidade.

Eleito orador da turma, foi destaque na revista Forbes. Palestrante do TED, hoje ele é, ao lado do sócio, Felipe Anghinoni, considerado uma referência quando o assunto é adaptação das companhias aos novos tempos. Felipe, por sinal, faz parte do conselho de administração da gigante de cosméticos Natura. 

Desde que foi criada, em 2007, a Perestroika já abriu uma unidade no Rio, em 2011, e outra em São Paulo, no ano passado. De 2012 para cá, o quadro de funcionários — que inclui cineastas, designers, administradores, relações públicas, cientistas sociais, estilistas, artistas, relações internacionais, arquitetos, naturólogos, publicitários e economistas — praticamente dobrou, chegando a 30 pessoas.

Neste ano, a escola prepara uma expansão internacional para Buenos Aires, e já começaram as negociações para a abertura de uma unidade nos Estados Unidos.

Crescimento acelerado

Não são só os novos empreendedores do Sul que vêm influenciando o jeito de fazer negócio das empresas brasileiras. No ano passado, o Grupo Boticário, sediado no Paraná, lançou três novas marcas, com diferentes posicionamentos, num período de apenas oito meses.


Nesse curto espaço de tempo, o grupo ingressou no varejo multimarcas com as lojas The Beauty Box, que vendem produtos de marcas nacionais e internacionais, como Phebo, Granado, Dior e Calvin Klein; criou a marca Skingen Inteligência Genética, que oferece tratamentos personalizados contra o envelhecimento da pele com base em pesquisas genéticas e biomoleculares; e inaugurou a marca de maquiagens Quem Disse, Berenice?, cujo portfólio lista 500 itens para pele, olhos e boca.

O trabalho do diretor industrial do grupo, Silvio La Rocca, de 40 anos, foi fundamental para o sucesso dessa rápida expansão.

Para garantir que não houvesse problemas de abastecimento ou atraso no atendimento às novas marcas, Silvio precisou conduzir a ampliação das fábricas, com a construção de uma nova unidade de maquiagens no Paraná — onde o quadro de pessoal dobrou nos últimos dois anos, para 800 pessoas — além da implantação de uma nova fábrica e um novo centro de distribuição na Bahia, onde 700 pessoas serão contratadas até a inauguração, no fim deste ano.

“Triplicamos a quantidade de produtos, o que nos obrigou a lidar com uma diversidade de novas tecnologias”, explica Silvio, que se viu diante da missão de capacitar todo o pessoal e os recém-contratados para essa nova complexidade. Também era necessário preparar a equipe do ponto de vista cultural, para lidar com um processo acelerado de transformação organizacional.

“Por um lado, trabalhamos a questão da autonomia, para que não diminuíssemos o tempo de resposta, apesar dessa maior complexidade. Por outro lado, a equipe dobrou de tamanho e tínhamos de nos assegurar de que a essência do grupo seria mantida, mesmo com o crescimento”, diz Silvio.

A habilidade para lidar com um desafio dessa magnitude foi adquirida em experiências anteriores do executivo, que já havia gerenciado nos Estados Unidos a fábrica da Tampax quando a marca foi adquirida pela Procter&Gamble. “Foi um desafio de adaptação tecnológica e cultural.”

Ao contrário de outras companhias de beleza que realizaram expansões recentes, o Grupo Boticário passou pelo processo sem problemas de distribuição ou cumprimento de entregas, merecendo o seguinte balanço do presidente da companhia, Artur Grynbaum: “Hoje somos uma organização pronta para se tornar uma das principais no segmento de beleza do mundo”.

Esse sucesso inspira outras companhias. “O Grupo Boticário é um exemplo de melhores práticas em tudo que faz. Além do sucesso da operação e de seu modelo de franquias, tem uma rotatividade baixa e é uma empresa admirada pelo tratamento que dá aos funcionários e por questões como a sustentabilidade”, diz José Rodolpho Bernardoni, coordenador regional da Endeavor, entidade de fomento ao empreendedorismo. 

Construção sustentável

A sustentabilidade, aliás, é um dos conceitos que mais têm inspirado a nova geração de executivos e empreendedores no Paraná. Curitiba, por sinal, é a capital com maior proporção de prédios comerciais e corporativos em processo de certificação para obtenção de selos verdes.


Uma das empresas que atuam nesse filão de forma inovadora é a Tecverde, criada pelo engenheiro civil Caio Bonatto, de 26 anos, em parceria com os colegas Lucas Maceno, de 25, e Beto Justus, de 27.

Com o uso da tecnologia woodframe — painéis pré-moldados que combinam madeira certificada de reflorestamento e resinas de alta resistência —, a Tec­verde desenvolveu um modelo construtivo que permite erguer casas de alto padrão reduzindo os desperdícios de material em até 90% e as emissões de CO2 em até 80%.

As casas ficam prontas em três meses, já que 70% da obra acontece na fábrica, e não no canteiro. “No local, acontecem basicamente a montagem dos painéis e os acabamentos”, diz Caio. A empresa conquistou o Prêmio Nacional de Inovação, da Confederação Nacional da Indústria, e foi incluída no programa Minha Casa, Minha Vida, pelo qual já entregou 300 casas. “Queremos inspirar mais jovens a sair da faculdade e empreender”, acrescenta.

Mesmo em empresas familiares tradicionais, alguns jovens executivos têm se destacado por sua gestão arrojada. Um bom exemplo é a Malwee, de Santa Catarina, fundada em 1906, que hoje está na quarta geração, sob o comando de Guilherme Weege, de 32 anos.

Desde que assumiu a presidência, em 2011, Guilherme levou a companhia para o varejo, com a abertura de 40 lojas próprias em shoppings­ de todo o país, e realizou a compra das marcas Scene e Puket, de novembro de 2012 a janeiro de 2013, para diversificar o portfólio e conquistar clientes mais jovens.

“O mercado pede evolução e agilidade constantes, e é isso que procuro aplicar diariamente”, diz ele. No ano passado, a empresa teve um faturamento estimado em 1,2 bilhão de reais. “Com a evolução do mercado, vejo a necessidade de investir na construção de marcas sólidas, que possam dar continuidade ao sucesso do negócio”, afirma.

Para isso, a companhia prepara uma grande ampliação em seu quadro. “Neste ano, pretendemos contratar 1.000 parceiros — como chamamos nossos funcionários — na área industrial e devemos fechar o ano com 700 contratações no varejo”, anuncia.

Betina, Tiago, Silvio, Caio e Guilherme são exemplos de empreendedores e profissionais que estão dando um novo rumo à economia do Sul do país.