Trabalho exigirá especialização profunda e redes de conexões

Para a britânica Lynda Gratton, professora da London Business School, as pessoas terão de comprovar o que sabem com um portfólio e referências

Londres – Dominar a fundo uma área do conhecimento e montar redes relevantes, sem abrir mão da qualidade de vida, são o futuro do trabalho. Os profissionais terão de se destacar na multidão e, ao mesmo tempo, fazer parte dela.

Essa é a avaliação de Lynda Gratton, professora de gestão empresarial da London Business School, que coordena desde 2009 uma pesquisa que envolve 45 empresas preocupadas em entender essas transformações e se preparar para o futuro. Confira a entrevista que Lynda concedeu à VOCÊ S/A

VOCÊ S/A – Quais impactos o futuro do trabalho reserva aos profissionais?

Lynda Gratton – O que fizemos na pesquisa foi olhar as transformações pelas quais o mundo está passando, como globalização, tecnologia e outras tendências da sociedade, como o êxodo rural. Se continuarmos do jeito atual em relação às nossas carreiras e ao trabalho, não seremos tão bem-sucedidos. 

VOCÊ S/A – O que devemos mudar?

Lynda Gratton – Em um mundo em que há cada vez mais pessoas talentosas aderindo ao mercado de trabalho e muita coisa pode ser feita por computadores ou robôs, um profissional deve aprender a criar valor para si. A primeira mudança necessária é se especializar em algo. A segunda coisa é que, no passado, não era necessário pensar muito em redes. Você tinha sua família e seu trabalho.

Hoje é preciso construir redes. O terceiro ponto é a ideia de que trabalhamos para ganhar dinheiro para comprar coisas que nos façam felizes. É esse tipo de equação que costumamos fazer. Isso não vai funcionar. Exigiremos qualidade de vida e o trabalho terá de ser interessante e significar algo para nós.

VOCÊ S/A – Quais são as áreas do futuro?

Lynda Gratton – O que sabemos sobre o futuro é que as pessoas vão viver mais e terão mais renda. Qualquer coisa relacionada a remédios, cosméticos ou que tenha a ver com saúde pessoal tem futuro.


Também sabemos que os níveis de emissão de gás carbônico vão ser insustentáveis e haverá pressão por sustentabilidade e para encontrar meios de geração de energia não poluidora. Educação e treinamento estarão igualmente em alta. As pessoas querem aprender melhor, de maneira mais prazerosa.

VOCÊ S/A – Como acha que as pessoas vão se relacionar em rede?

Lynda Gratton – Um tipo de rede que você tem de desenvolver é com pessoas que possam te ajudar. E elas não precisam estar no mesmo local que você. Você pode mandar um e-mail ou colocar um post no Facebook. O problema é que nessa rede de apoio não há diversidade suficiente.

Uma das maneiras de agregar valor ao trabalho é inovar. E a inovação aparece quando você se relaciona com pessoas diferentes de você. A chave para a diferenciação está em criar redes com pessoas diversas. Eu chamo isso de “a multidão das grandes ideias”. 

VOCÊ S/A – O trabalho com horário fixo, das 9h às 18h, está com os dias contados?

Lynda Gratton – Algumas pessoas vão sempre continuar trabalhando das 9h às 18h, mas será em uma proporção menor do que hoje. Em um mundo que está mais conectado e globalizado, é normal que seu cliente esteja num outro país. E, com a diferença de fuso horário, você já não consegue ter horário fixo. Trabalhar das 9h às 18h já era para muita gente. Temos de encontrar outros meios.

VOCÊ S/A – E que tipo de trabalho essas pessoas estarão fazendo?Lynda Gratton – É realmente outro desafio a ser encarado. Numa aula para meus alunos de MBA, que agora têm 27, 28 anos, perguntei uma vez: “Imagine-se aos 60 anos, o que estará fazendo?”. E eles me responderam que iriam ser consultores. Mas respondi: “Não sei quantos trabalhos para consultores haverá e existirão milhões de vocês”.

Então, é realmente importante pensar em que você estará trabalhando até os 60 e poucos anos, a não ser que tenha economizado dinheiro suficiente, mas provavelmente a maioria não terá feito isso.


VOCÊ S/A – A senhora acha que as grandes companhias vão desaparecer?

Lynda Gratton – Não acho. Na verdade, acho que vão ficar ainda maiores, porque haverá mais fusões e aquisições. Muitos profissionais, porém, não vão querer trabalhar em grandes companhias. Vão preferir ficar em seu entorno, chamado de ecossistema, trabalhando como prestadores de serviço. O desafio para as companhias é localizar onde está seu banco de talentos.

VOCÊ S/A – Ter um diploma será essencial?

Lynda Gratton – É necessário achar um meio de se certificar, que o credencie e prove suas capacidades. Antes, quando o profissional trabalhava para grandes empresas, elas eram o cartão de visita.

Agora, esse credenciamento tem de ser feito por você mesmo. Você precisa provar quem é e o que sabe com um portfólio e referências. Tem de ser mais proativo em demonstrar seu capital humano. 

VOCÊ S/A – Como serão os executivos e líderes empresariais do futuro?

Lynda Gratton – Eles precisarão agir com transparência para passar credibilidade. A ThoughtWorks, que desenvolve softwares, por exemplo, passou a realizar votações abertas para nomear as pessoas para os cargos de liderança.

A ideia deles é incluir os funcionários no processo decisório. Também será importante ter um bom relacionamento com outros departamentos da empresa para unir habilidades e aproveitar ativos. 

VOCÊ S/A – As empresas vão atuar em rede?

Lynda Gratton – A farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk usa mídias sociais na comunicação interna. Ferramentas foram criadas para facilitar o compartilhamento de conhecimento. Será extremamente necessário saber interagir com as empresas parceiras ou prestadores de serviço que orbitam em torno da sua empresa.

Criar um sistema de trabalho flexível é essencial. A BT desenvolveu um projeto com escalas de horário para conectar as equipes do Reino Unido e da Califórnia.