“A felicidade é que faz um grande líder”

Márcio Fernandes, presidente da Elektro, dá depoimento sobre sua carreira

O presidente da Elektro, Márcio Fernandes, é conhecido no mercado e em sua empresa por ser um líder altamente carismático e habilidoso. Ele, que faz questão de estar disponível e de conhecer de perto todos os funcionários da empresa, desenvolveu suas competências ao longo de toda a sua carreira, como você vê na matéria de capa da edição de março da Você S/A, disponível nas bancas. A seguir, veja trechos de nossa entrevista exclusiva com Márcio sobre como ele chegou lá e quais foram os pontos que precisou melhorar em sua trajetória para se tornar um bom líder.

As características que mais ajudaram no começo da sua carreira

“A primeira coisa que sempre falo é a persistência. Especialmente para quem não nasceu em berço de ouro. Eu tive que ser muitíssimo persistente. Depois, coragem para fazer as coisas que são certas. Lembro que logo no início da minha trajetória quando comecei a trabalhar em empresas maiores, eu era iniciante e um diretor falou ‘depois que você chegou, a nossa felicidade acabou. Agora, para tudo tem que ter um processo de compras, antes era mais rápido, funcionava melhor’. Um diretor chegar e falar isso é um negócio difícil de ouvir e a resposta tem que ser bastante corajosa. Eu disse: “bom, espero que sua felicidade volte quando você não tiver mais seu emprego, porque a forma como você estava fazendo ia gerar problema, não tinha o mínimo de coerência”. Tive que ter coragem para defender isso. Depois, o que me ajudou foi a paixão. Muitas vezes, você será criticado por encarar desafios, resolver problemas que ninguém quer e isso pode acabar com o ânimo. A minha motivação, no começo, ficava afetada. O que me fez vencer esses momentos de frustração foi essa paixão por aprender, por resolver problema, por ajudar as pessoas, por encontrar soluções mais complexas do que as triviais.”

A importância da felicidade

“Meu conjunto hoje está relacionado a persistência, coragem e paixão. Hoje, reúno tudo isso quando falo da felicidade, que, para mim, é o que faz um grande líder. Tive que encontrar felicidade em mim mesmo, ânimo em mim mesmo, automotivação. Para isso, preciso amar o que faço. Se eu amar de verdade, consigo fazer aquilo com carinho. Mas também preciso ver utilidade nas coisas, se o que faço é importante, útil, relevante para as pessoas e para os clientes. Depois, avalio se serei remunerado para fazer isso. Estou fazendo filantropia ou estou no mundo corporativo? Se for o segundo, precisa gerar valor, além de tudo. Isso é importante para criar um propósito sustentável. Se consigo combinar essas coisas, começo a justificar o porquê de estar fazendo aquele trabalho e a base para a felicidade é ter um propósito. Eu penso no que gosto, no que eu faço bem, no que sou feliz fazendo, naquilo que agrega valor e é útil, faço tudo isso com paixão e de forma que eu também seja remunerado. Não tem como não ser feliz.”

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Engajando pessoas

“A capacidade para engajar pessoas para fazer o que não é trivial: pessoas, líderes ou não, têm que se engajar. Tem muito projeto maravilhoso com resultado medíocre e projetos não tão brilhantes com ótimo resultado. A diferença é o quão as pessoas estão engajadas, se elas querem aquilo, se é bom para a vida delas. Aí, consequentemente, será bom pra empresa. Essa é a convergência que eu busco. A gente sempre vê engajamento maciço contra alguém, as pessoas se engajam pra protestar. Mas, em favor de algo, dificilmente a gente vê. Tem que mudar o modelo mental, fazer com que as pessoas sejam a favor de uma coisa boa, de algo produtivo.”

O mundo sempre vai colocar barreiras, não coloque você mesmo barreira a mais

Paixão para comunicar ideias

“A minha paixão eu uso para o carisma, encantamento, eloquência de comunicação que viabiliza a progressão de outras pessoas, especialmente as que ainda não encontraram o seu propósito. Vender o que eu acredito é tão importante quanto acreditar, porque aí posso permear outras pessoas, que também vão querer fazer do jeito certo. Muita gente me pergunta como que a crise está nos afetando, por exemplo. A crise que a gente [na Elektro] vive é igualzinha crise do outros. Agora, a forma como estamos encarando tem sido muito diferente e, por isso, nossos resultados não estão sendo afetados em nada. O consumo de energia cai e a gente encontra formas de compensar isso baseadas no talento de nossas pessoas. Não deixamos espaço pra pensamento negativo. A crise, antes de destruir emprego, destrói a autoestima das pessoas.”

Desafios e aprendizados na carreira

“Quando eu trabalhava na área financeira, eu achava que tinha que me formar tecnicamente na área financeira, então foi um desafio pra mim, porque entre números e pessoas eu fico com pessoas. Estudei muito, fiz MBA pra controladoria, coisa de que eu não gostava, mas tinha que levar até o fim. Também sofri muito com ansiedade, ela jogou contra mim durante um bom trecho da minha trajetória. Eu me tornava mais afoito do que propriamente produtivo. Acreditei por muitos anos que eu tinha um defeito, mas com o passar do tempo eu percebi que poderia transformar a ansiedade em energia. A ansiedade dosada, controlada, ela é motor pra mim. Outra dificuldade minha era falar em público. Até os 28 anos, eu tinha uma dificuldade gigantesca, agora eu falo pra 5 mil pessoas como se estivesse em uma sala. Estudei na USP e combinei com a turma pra eles me deixarem ser o orador da turma para me desafiar. Tinha várias turmas de MBA juntas na cerimônia, minhas pernas não paravam de tremer. Foi bem difícil, quase fiquei travado. Comecei a me desafiar sempre, quando percebi que minha carreira poderia não ser tudo que eu sonhava por conta de barreiras como essas. Mas o mundo sempre vai colocar barreiras, não coloque você mesmo barreira a mais.”

Estilo de liderança

“Tem três coisas que eu adoro como líder e que me fazem bem. A primeira é trabalhar no desenvolvimento de pessoas. Para mim, isso é o ato de transformar pessoas comuns em pessoas poderosas, adoro fazer isso, pegar pessoas mais improváveis e transformar em grandes profissionais. As pessoas precisam acreditar. A segunda coisa de que eu gosto é mudar tudo sempre, inclusive o que está bom. A gente precisa de movimento. As pessoas falam muito de inércia, mas, para sair dela, precisa sair da zona de conforto e isso, só mudando. Tudo. Especialmente o que está dando certo. A mudança me apaixona. E a terceira coisa é a resiliência nos momentos mais difíceis, enxergando o fim desde o começo. Quando você olha lá para frente, você consegue, estrategicamente, materializar aonde vai chegar. Aí você trilha o caminho até lá. O mundo corporativo é inóspito porque você tem muita gente que não quer mudar, não quer enxergar nem valorizar as pessoas. Precisa dessa visão no longo prazo para conseguir trazer a mudança.”

Como identificar seus pontos fortes

“Para encontrar meus pontos fortes eu busco aquilo que dá um frio na briga, mas que você faz mesmo assim e, depois que você faz, aquilo o faz sorrir, faz seu olho brilhar. Essas coisas são seus pontos fortes. Você tem medo, mas encara. E não acho que existam pontos fracos, mas pontos a serem desenvolvidos. Tudo aquilo que bloqueia, que faz com que você trave, isso é ponto a ser desenvolvido. E  para isso, você se desafia, cria oportunidades para se desenvolver aquilo”