A estranha conta do hotel

Casimiro é brilhante, mas prevaricou. Demissão ou perdão?

Casimiro é, há dois anos, gerente comercial de uma grande companhia do setor eletroeletrônico. É um executivo jovem, promissor e intensamente dedicado. “Graças a Deus é segunda” é seu lema, tanto gosta de trabalhar. Seu chefe, Alencar, o diretor comercial da empresa, está imensamente satisfeito com o desempenho de Casimiro. Gosta de sua energia, de sua ambição, de sua vontade de ser melhor que os outros. Alencar enxerga na BMW que Casimiro comprou recentemente com os bônus que recebeu uma demonstração de que ele não se contenta com nada menos que o melhor.

Nos dois anos em que Casimiro trabalha sob sua chefia, Alencar deu três aumentos a ele por melhora de desempenho. Casimiro só lhe deu boas notícias. Melhor, só vinha dando boas notícias. Porque recentemente chegou a Alencar uma má notícia sobre o talentoso executivo. Uma auditoria interna constatou que, numa recente viagem que fez à Alemanha, Casimiro artificialmente inflou a conta do hotel em Baden-Baden, no qual se hospedou, em cerca de 500 dólares. Teria Casimiro perdido o juízo e algum dinheiro no célebre cassino de Baden-Baden, em que Dostoievski recolheu inspiração para O Jogador, e procurado se ressarcir daquela maneira?

Isso jamais se saberá. O que se sabe são duas coisas. Primeira: a conta foi adulterada. Segunda: por causa disso, Alencar carrega uma dúvida sinistra. Em nome dos atributos excepcionais de Casimiro, deve tratar o caso como um fato menor e, depois de uma conversa com ele, tocar as coisas como antes? Ou, em nome de princípios éticos inarredáveis, deve tirar Casimiro?

Casimiro deve viver ou deve morrer para a empresa?

O consultor José Tolovi Júnior é engenheiro e pós-graduado em administração pela FGV Paulista, com mestrado e doutorado pela École Supérieure des Affaires. Dá aulas no GV-PEC e é sócio do Grate Place to Work Institute

Este é um dos casos críticos que, infelizmente, ocorrem com certa freqüência nas organizações. A grande tentação é de dar mais uma chance a Casimiro. Afinal, com sua excelente performance e conseqüentes benefícios para a empresa, por que não desconsiderar esse pequeno deslize? Usando uma expressão popular… “é aí que mora o perigo!”. Ao aceitar essa fraude – e não vamos diminuir o fato, trata-se de uma fraude -, Alencar estará abrindo um perigoso precedente para outras situações possivelmente mais embaraçosas e delicadas. Qual seria o limite da tolerância? Quinhentos dólares? Mil? Cem?

Em verdade, não interessa o valor, mas sim o fato da fraude. Se for tolerada, toda a empresa estará sabendo que pequenas fraudes (e pequenas será um valor definido na cabeça de cada um) não são assim tão graves e que, se formos produtivos, nada acontecerá. Qual será o limite da tolerância? É óbvio que assim que Alencar descobrir um novo deslize e, neste caso, precisar punir o infrator, este se sentirá altamente injustiçado. Afinal, nada aconteceu a Casimiro tempos atrás… Portanto, e vamos admitir, com muita dor no coração por estar perdendo um profissional de alto desempenho, temos que ser frios e optar por uma solução que considera o longo prazo e o moral da organização: o sr. Casimiro está fora da empresa!!!

Por mais frio que isso possa parecer, causará um impacto muito positivo na organização, mostrando que seus valores são indiscutíveis e sinalizando o comportamento que se espera de cada profissional. O constrangimento inicial é inevitável. Mas os efeitos a médio e longo prazos valem a pena. Por último, Alencar deve também refletir sobre o fato de que essa atitude poderá auxiliar Casimiro em seu futuro profissional. Se isso não for verdade, então a demissão terá sido ainda mais justa!!!

Elizabeth Matos Correia é psicóloga pós-graduada pela PUC do Rio de Janeiro e atua na área de recursos humanos há 12 anos. É gerente de RH da AT&T Brasil

Casimiro errou, não importam os detalhes da situação, e não pode sair desta impune. Entretanto, não concordo em buscar logo um caminho mais fácil para solucionar o problema. Com a ajuda do gerente de RH e de um psicólogo de sua equipe, Alencar deveria fazer um programa de reuniões com Casimiro buscando conhecê-lo mais profundamente como pessoa, como gente. É possível que Alencar tenha errado em não fazer isso antes. É provável que Casimiro já tenha dado vários sinais de alerta que ou não foram notados ou não houve vontade de notá-los. A própria compra da BMW pode ter sido um.

Onde Casimiro nasceu, foi criado e quais os valores de sua família? Como conduz seu relacionamento familiar e social? Como está estruturada a sua situação econômica e financeira? Quais seus objetivos de curto e longo prazos? Em seguida, com tato e habilidade, Alencar deve entrar no mérito do problema: o que levou o executivo à conta do hotel? Dessa forma, Alencar poderia identificar se esse foi um deslize passível de acontecer com qualquer ser humano, ou se é, na verdade, a ponta de um iceberg que esconde uma enorme massa de problemas.

Se chegar à conclusão de que é um problema de caráter, Alencar deve demitir Casimiro. Se concluir que há substância em seu caráter e que sua escorregada foi fruto de imaturidade e deslumbramento, uma nova chance pode ser dada a Casimiro. Mas ele teria que devolver o dinheiro à empresa e ser mantido em “rédeas curtas” por um bom tempo.

Carlos Vitor Strougo é formado em engenharia e direito, com MBA pela Columbia Business School. É presidente e principal headhunter da Kadan Consultores, do Rio de Janeiro

Sem dúvida alguma, Alencar não pode considerar a fraude ocorrida como um fato menor. O que ele deve fazer antes de conversar com Casimiro é checar com a auditoria o histórico de despesas em suas viagens anteriores. Após verificar essas informações, Alencar deve conversar abertamente com Casimiro para obter suas explicações para o fato. E essas explicações teriam que ser bastante convincentes… Não importa se o desvio foi de apenas 500 dólares. O que importa é o significado de um ato como este. Ou seja, o problema é de princípio ético, e não de quantia.

É difícil acreditar que alguém que tenha chegado ao cargo de gerente comercial esteja disposto a arriscar tudo o que qualquer executivo persegue – sucesso profissional e carreira (na empresa atual ou em alguma outra) – por um desvio de conduta. Um gerente sabe que, além de responder por um setor ou área, ele também tem a responsabilidade de dar exemplos corretos de atitudes e comportamentos para a sua equipe e colegas. Também parece estranho que um diretor comercial (no caso, Alencar) veja no fato de um subordinado ter uma BMW a prova de que ele não se contenta com pouco. Isso não pesa nem a favor nem contra ninguém!!! Ambição é importante, desde que seja bem dosada e se traduza em performance no trabalho.

Se após toda a apuração fosse constatado que realmente houve fraude, eu não teria dúvidas: Casimiro estaria morto para a empresa… É lamentável que um gerente com perspectivas profissionais tão boas coloque tudo a perder por má conduta. Mas isso, por si só, já demonstra que ele, na realidade, não estava totalmente pronto para assumir um cargo de confiança. Mantê-lo na empresa, apesar de um desvio de conduta grave assim, colocaria em risco todos os valores éticos da corporação – um patrimônio que, acima de qualquer performance individual, precisa ser mantido e preservado em benefício do grupo.

Fernando Porchat é diretor de recursos humanos e qualidade total da Natura

Acredito que todos nós erramos e que, dentro de uma organização, deve haver espaço para o erro. Só admitindo o erro e tendo uma atitude positiva em relação aos que erram é que criaremos um ambiente propício às mudanças necessárias, à ousadia de fazer coisas diferentes – única forma de obter resultados diferentes e melhores. Atitude positiva, no entanto, não significa complacência. Todos os erros devem ser apontados e discutidos para que não sejam repetidos.

O erro cometido por Casimiro, porém, não se classifica nessa categoria. O relacionamento entre uma empresa e seus colaboradores se baseia no trinômio confiança, respeito e benefícios mútuos. O erro de Casimiro feriu um desses pilares. A empresa, através de Alencar, deve pedir explicações a Casimiro. Caso essas explicações não sejam convincentes, deve mandá-lo embora.

Os personagens e o enredo desta seção são fictícios. Mas os especialistas chamados a dar sua opinião são genuinamente de carne e osso. Caso você tenha uma história a contar, entre em contato conosco pelo e-mail:

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