A empresa foi comprada. E agora, Marilene?

Só ficará um diretor de seguros na instituição, e Marilene acha que não vai ser ela. Deve sair à cata de emprego ou apostar em suas chances?

Marilene Stuart construiu uma carreira sólida na área financeira. Em 16 anos de carreira, mudou apenas duas vezes de emprego. Há dois anos, assumiu a diretoria de seguros pessoais de um banco nacional. Ela sabe que tem feito um bom trabalho, mas mesmo assim está muito angustiada. É que a instituição para a qual trabalha está para ser comprada por um banco estrangeiro e Marilene teme ser demitida.

A aquisição ainda é um segredo no mercado e a empresa não divulgou nada sobre seus planos em relação ao quadro de pessoal, mas Marilene sabe que o banco estrangeiro tem suas próprias diretrizes para o ramo de seguros e, claro, um diretor extremamente competente na área. Pela lógica, não haverá espaço para duas pessoas com o mesmo cargo. Ou ela será deslocada para uma nova função e provavelmente terá que batalhar por um espaço que já julgava conquistado ou, pior, será mandada para o olho da rua. Marilene tem colaborado com a equipe que está avaliando os procedimentos do seu banco, mas está ficando cada dia mais desanimada. Qual a solução para ela? Buscar um novo emprego já, para negociar propostas enquanto ainda está bem empregada (e bem cotada), ou esperar que a situação no banco se defina para só então decidir o rumo que irá tomar?

Patrícia Molino, gerente de consultoria da KPMG

Marilene está angustiada, apesar de saber que vem realizando um bom trabalho, e teme pela continuidade de seu emprego na empresa atual, o que acaba lhe trazendo até desmotivação.

Neste momento, ela deve agir de forma profissional e avaliar cuidadosamente as oportunidades dentro e fora da atual instituição.

Todos os profissionais devem estar sempre abertos a conhecer as oportunidades que o mercado apresenta, inclusive como forma de acompanhar seu valor atual e as tendências do mercado, mantendo-se competitivo em relação a todas as empresas e não apenas naquela em que estão atuando. Marilene deve fazer uma análise das responsabilidades que possui e dos resultados que tem atingido, assim como delinear suas aspirações de crescimento.

Definida a meta de carreira, Marilene deverá rever suas qualificações em relação ao que é exigido para os cargos que almeja e empreender ações concretas, tais como: buscar cursos de atualização e especialização e aprimorar seus conhecimentos de idiomas. Dessa forma, ela estará revendo suas vantagens competitivas como profissional.

Paralelamente, Marilene deveria estar se expondo ao mercado, mas de maneira cuidadosa para não prejudicar sua posição atual: ela poderia desenvolver um relacionamento com headhunters, manter sua rede de contatos atualizada sobre sua disposição para assumir novos desafios e buscar certa visibilidade – por exemplo, fortalecendo sua atuação em órgãos e entidades voltados para o mercado de seguros.

Assim, se permanecer na empresa, Marilene saberá como o mercado avalia suas qualificações e estará motivada e investindo em seu crescimento. Se deixar a empresa, porém, que seja para assumir um novo desafio e ter sucesso, já que Marilene é cuidadosa na avaliação de riscos.

Anna Luiza Martin, psicóloga e diretora-executiva da Qualify Recursos Humanos

Marilene deve manter a postura profissional adotada até agora e continuar contribuindo com a empresa. Se ela é uma profissional realmente séria, competente e necessária, por que não seria aproveitada na ocasião da fusão das empresas? Em um momento difícil como esse, se adotar alguma postura considerada inadequada pela empresa, Marilene poderá ter sua carreira afetada para sempre. Nós levamos nossa imagem pessoal e profissional para o resto da vida. Portanto, é sempre bom cuidarmos dela.

Mas isso não significa que Marilene deva fechar os olhos para as oportunidades que surgem. Ela deve estar sempre atualizada sobre o perfil do executivo que o mercado está buscando e ver se ela se encaixa nesse perfil.

Marilene deve fazer uma auto-análise e verificar se não existem lacunas a serem preenchidas em sua formação. Cada nova experiência e novos cursos são vistos como valores agregados à sua carreira profissional. Se ela estiver atualizada, não importa se for mantida em seu atual emprego ou demitida e tiver que procurar uma recolocação. Ela não terá perdido nada. Ao contrário, estará ainda mais preparada para assumir uma função similar, ou superior, em qualquer empresa.

José Manuel Masso, diretor de relações institucionais da Telefônica no Brasil

A entrada de uma empresa estrangeira em qualquer país pressupõe uma troca de cultura empresarial e comercial. É natural que haja um intercâmbio de idéias e conhecimentos. Do contrário, seria como implantar um negócio novo, partindo do zero e desprezando todo o conhecimento adquirido pelos administradores anteriores. É preciso contar com um período de adaptação ao novo mercado. O quadro de recursos humanos deve ser muito bem avaliado para aproveitar os profissionais de qualidade. Foi o que fez a Telefônica nas operadoras que passou a controlar no Brasil. Uma profissional como Marilene Stuart com certeza seria muito bem aproveitada pela Telefônica ou uma outra companhia com ampla atuação internacional. Portanto, ela deveria usar sua experiência e seu conhecimento das peculiaridades do negócio e investir ainda mais no seu trabalho. Assim, ela poderia aproveitar as oportunidades que surgem com essa mudança de controle.

Maria Helena Monteiro, diretora de recursos humanos do banco HSBC

Naturalmente uma situação como essa provoca muita insegurança. De um lado, a aquisição do banco nacional por uma instituição estrangeira pode aumentar muito as possibilidades de carreira e proporcionar uma dimensão mais abrangente das perspectivas de desenvolvimento. Do outro, há o temor de que a instituição estrangeira venha com receitas prontas e equipes estruturadas, eliminando as possibilidades de aproveitamento dos recursos já existentes.

Marilene provavelmente vai ter a chance de trabalhar com a nova equipe. Assim, ela terá uma oportunidade, em primeira mão, de avaliar o estilo da nova organização, observar os modelos de sucesso e conquistar a confiança de seus potenciais empregadores. Se ela gostar do que vê, no sentido de profissionalismo do grupo, e fizer uma auto-avaliação positiva sobre as suas condições de competir nesse novo ambiente, ela deve permanecer na empresa.

O fato de Marilene conhecer o negócio e os meandros da organização à qual pertence será de enorme valia para os novos acionistas, e ela certamente poderá provar isso.

Numa aquisição, não é possível trocar todos os recursos-chave e esperar que os negócios fluam normalmente. Há um período de ajuste necessário, que pode durar um longo tempo. Durante esse tempo, Marilene poderá continuar a avaliação de suas reais oportunidades na nova instituição, e tomar uma decisão mais baseada em fatos do que em temores.

Os personagens e o enredo desta seção são fictícios. Mas os especialistas chamados a dar sua opinião são genuinamente de carne e osso. Caso você tenha uma história a contar, entre em contato conosco pelo e-mail: avidacomoelae@email.abril.com.br

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