A dura vida de quem aceita trabalhar fora do Brasil

Durante 17 anos, o executivo brasileiro Dirk Thomaz Schwenkow levou uma vida de nômade pela Europa. Viveu em seis países diferentes, morou em mais de uma dezena de cidades e viajou a trabalho por quase todo o continente. Ele, que já falava português e alemão quando deixou o Brasil, aprendeu no peito e na raça outros cinco idiomas: francês, espanhol, inglês, italiano e até catalão. Conheceu novas culturas, teve contato com profissionais dos mais variados perfis, deu aulas em inúmeras universidades e desenvolveu uma invejável flexibilidade para se adaptar às mudanças constantes. Algo, no entanto, o preocupava: “Eu não tinha mais raízes”, afirma. O sinal vermelho acendeu em 1999, quando o executivo percebeu que os filhos, Kim e Magali, na época com 3 e 4 anos respectivamente, evitavam fazer amizades na escola porque sabiam que elas não seriam duradouras. “Houve um momento em que eles tinham de falar holandês com a empregada, húngaro com a babá, português com a mãe, alemão com o pai e inglês na escola”, diz Schwenkow. “Foi quando decidi que era hora de voltar.”

Em julho de 2000, Schwenkow desembarcou em São Paulo para comandar a consultoria internacional Mercuri Urval, onde está até hoje. Suas recordações são compostas na grande maioria de bons momentos, mas ele não esquece também o lado negativo de sua peregrinação por países e cidades européias. Em cada um deles enfrentava problemas com documentação e liberação de bens pessoais presos em alfândegas e com a nem sempre boa adaptação da família. Assim como ele, inúmeros executivos estão descobrindo que a tão sonhada vida de expatriado tem lá seus espinhos — e que só se alcança o sucesso em terra estrangeira se houver muita disposição, dedicação e flexibilidade para enfrentá-los. Isso vale tanto para brasileiros que vão para fora como para estrangeiros que desembarcam por aqui. “A excelência do preparo técnico não habilita ninguém a enfrentar as diferenças culturais de outros países”, afirma o consultor Fernando Dourado Filho, autor do livro Ao Redor do Mundo — Convivência e Negociação com Culturas Estrangeiras para Brasileiros (Edição do Autor, 219 páginas, R$ 37,00). “Em outras palavras: você pode ser o melhor profissional do mundo, mas se não tiver sensibilidade intercultural pode se dar muito mal.”

Na prática, essa sensibilidade pode ser traduzida pelo caso da executiva brasileira Isabel Brossolette Branco, diretora da divisão brasileira de perfumes e cosméticos do Grupo Louis Vuitton-Moët Hennessy. Isabel viveu 12 anos na França e viajou por quase toda a Europa a negócios. Como tem facilidade para aprender idiomas, desenvolveu uma outra habilidade paralela: a de falar inglês com o sotaque do país que está visitando. “Dependendo da ocasião e da necessidade, sou capaz de falar inglês com sotaque britânico, americano ou irlandês”, afirma. Isso a ajudou a ganhar a simpatia de vários executivos na hora de fechar contratos.

Os brasileiros, num primeiro momento, costumam ter mais dificuldade para se adaptar a outras culturas, na opinião do consultor Dourado Filho. A razão é o fato de não termos desde criança o que ele chama de centelha da internacionalização correndo em nossas veias. “Os europeus cruzam o continente de ponta a ponta, conhecem novos países e interagem com outras culturas. No Brasil, também por causa das dimensões continentais, isso é mais difícil. Você pode viajar seis horas e ainda estar dentro do território brasileiro falando o mesmo idioma.”

O perigo da gafe

Há mudanças que podem representar um choque gigantesco na vida de um profissional, como o que aconteceu recentemente com Carlos Alberto Andrade. Há quatro meses ele é o principal executivo da unidade do laboratório GlaxoSmithKline na Tailândia. A primeira preocupação de Andrade e da esposa Debora foi com a alfabetização dos filhos, Thiago, de 6 anos, Ana Maria, de 4, e Matheus, de 3. “Era importante assegurar que eles seriam alfabetizados em português antes de aprender outra língua”, afirma. “Pensamos em levar uma professora de português para lá, mas depois decidimos que a Debora deveria assumir essa responsabilidade.” Hoje, paralelamente às aulas de português em casa com a mãe, as crianças estudam numa escola que adota o currículo americano.

A adaptação da família de Andrade na Tailândia não tem sido fácil. E isso vale também para o dia-a-dia no trabalho. Recentemente, no final de uma reunião, Andrade se despediu de sua gerente de finanças dando-lhe dois beijos na face. Um gesto comum no Brasil, mas que na Tailândia chega a ser quase uma aberração. “Ela ficou congelada, paralisada”, diz. Depois da gafe, Andrade procurou informar-se melhor sobre o que poderia ou não fazer e assim não cometer novas falhas. Recebeu três valiosos conselhos:

1. Nunca tocar na cabeça de um tailandês, pois isso representará um grande humilhação para a pessoa.

2. Não tentar fazer o wai (tradicional cumprimento tailandês feito com as mãos na altura do peito e curvando a cabeça para a frente). Existem nove níveis diferentes do wai, todos relacionados com hierarquia e respeito. As chances de errar são grandes.

3. Não criticar o rei. Os tailandeses adoram a família real, e consideram isso uma grave ofensa.

Pequenos detalhes, grandes problemas

Em alguns casos, simples detalhes de uma cultura diferente daquela à qual se está acostumado podem surpreender e causar problemas. Elli Kirschnick, diretora de estratégias para o envolvimento de pessoas da ArvinMeritor, tem vivido situações curiosas desde que se mudou, há dois anos, para a região de Detroit, no estado de Michigan, nos Estados Unidos. A primeira delas foi enfrentar a dura tarefa de limpar a neve que se acumulou durante a primeira noite de inverno em frente à sua garagem. Enquanto suava para limpar o caminho com uma pá, seus vizinhos utilizavam máquinas mo-dernas para fazer a tarefa. “Vendo que eu levaria uma eternidade para tirar a neve, um deles me emprestou a máquina e ensinou-me como utilizá-la. Eles jamais fazem um trabalho que deve ser seu.” Elli decidiu comprar sua própria máquina. A única que encontrou, no entanto, era a mais sofisticada de todas. Pagou o dobro do preço, pediu a ajuda de dois amigos do trabalho para montar o complexo e pesado equipamento e foi à luta. O problema é que a máquina, embora eficiente, é enorme e faz um barulho ensurdecedor. Hoje, seu equipamento tornou-se parte do folclore da rua onde mora e tem rendido boas risadas para todos, inclusive para a brasileira. “Minha máquina impõe respeito”, diz em tom de brincadeira.

Elli estranha também o hábito que os americanos têm de convidar os amigos apenas para a sobremesa (e não para o jantar). “Eles informam o horário em que a pessoa deve chegar e ir embora”, diz ela. “Isso pode parecer uma terrível falta de educação para um brasileiro, mas é encarado com naturalidade por lá.” Elli está relativamente adaptada aos Estados Unidos, mas ainda tem enfrentado um problema: a rigidez das leis de trânsito. Já recebeu quatro multas desde sua chegada. A primeira delas foi quando não respeitou o limite máximo de velocidade, de cerca de 40 quilômetros por hora, dentro do condomínio onde mora. Ela estava a 50 quilômetros por hora. A última foi por ter esquecido de colocar um selo na placa do carro que comprovava o pagamento do licenciamento do veículo. “Não adiantou mostrar o comprovante de pagamento e dizer que tinha apenas esquecido de colocar o selo.”

Caminho inverso

Vida dura a de executivo brasileiro expatriado. Mas ela também não é nada fácil para estrangeiros que, em tempos de globalização, não conhecem fronteiras. O francês Philippe Perrin, diretor financeiro e administrativo da Citroën no Brasil, trabalhou na China entre 1997 e 1998. Lá, estranhou o fato de as reuniões importantes acontecerem sempre nos fins de semana. “Era comum negociarmos durante todo o sábado. No domingo, quando eu acreditava que acertaríamos os últimos detalhes, eles recomeçavam da estaca zero e discutiam tudo de novo.” Outro detalhe: os chineses compareciam às reuniões sempre em grupo. Com o tempo, Perrin foi percebendo que gestos bruscos durante as reuniões ou mesmo expressões faciais como espanto ou descontentamento não eram bem recebidos por eles. “Muitas vezes eu tinha vontade de fazer gestos mais impulsivos, mas nessas horas procurava me controlar e manter a calma. Com o tempo, fui aprendendo a lidar com a situação.”

Perrin chegou ao Brasil em março de 2000 com um desafio nas mãos: iniciar os negócios da empresa francesa por aqui. Ainda no avião, ele teve sua primeira visão da capital paulista: “A dimensão da cidade e o oceano de prédios me deixaram impressionado”, afirma. Perrin não teve muitas dificuldades com o idioma, pois fala espanhol fluentemente e conseguia se comunicar sem muitos problemas. Conheceu a famosa hospitalidade dos brasileiros, que, segundo ele, estão sempre dispostos a ajudar. Recentemente ele quebrou a perna numa aventura de bicicleta na Guatemala e, na volta ao Brasil, jamais esperava receber tantas demonstrações de carinho. “Desde o acidente não passa um dia sem que alguém me pergunte como estou e se preciso de ajuda”, afirma. “Os franceses jamais agiriam assim.” Perrin, no entanto, tem grande dificuldade em assimilar o conceito do famoso jeitinho brasileiro. “É algo excessivo. Você nunca sabe a verdadeira opinião das pessoas com as quais está trabalhando ou negociando.”

O jeitinho brasileiro, na opinião do consultor Dourado Filho, não é o único fator que provoca estranheza nos executivos estrangeiros. “Eles se queixam de que o brasileiro, de uma forma geral, tem dificuldade em dizer não, costuma procrastinar suas ações e decisões, gosta de dar somente notícias boas e fugir das ruins e banaliza o sexo — basta ver os programas de televisão onde há exploração da sexualidade. Isso gera uma grande insegurança.” Já a queixa mais comum dos executivos brasileiros expatriados é a frieza com que geralmente são recebidos.

Seja qual for a situação, a melhor postura a adotar num país estranho é mostrar-se sempre receptivo a tudo: cultura, cozinha, idioma, costumes e hábitos locais. Quem assume uma atitude oposta e recusa-se a aceitar aquele novo universo em sua vida, tem tudo para ser também rejeitado por ele.

AÇÕES E REAÇÕES

Partir rumo a um país desconhecido para trabalhar — e viver — é sempre um desafio. O choque cultural é inevitável, mas há uma série de cuidados, segundo o consultor Dourado Filho, que qualquer profissional pode tomar para que a experiência lá fora seja bem-sucedida:

A informação é a melhor arma nessas horas. Leia tudo o que puder a respeito da cultura do país em questão: clima, culinária, situação política e econômica etc.

Deixe o preconceito de lado. Encare sua cultura como apenas mais uma entre as inúmeras existentes. “Quem está convicto da excelência do seu modelo de vida dificilmente conseguirá demonstrar que chegou para somar”, diz Dourado Filho.

Seja humilde e demonstre boa vontade em aprender o idioma local. “As pessoas sempre ajudam você quando vêem um estrangeiro disposto a compreender a cultura delas”, afirma o consultor Dirk Schwenkow, da Mercuri Urval.

Não se isole no hotel ou no seu novo apartamento. Procure integrar-se e fazer novas amizades.

Não desista. O custo de uma repatriação é alto para a organização. Além disso, a empresa provavelmente começará a se questionar se deve mesmo reservar um lugar em suas fileiras para encaixar um fracassado (infelizmente é assim que muitas organizações encaram um profissional que não se deu bem em outro país).

Experiências internacionais enriquecem o currículo. Na pior das hipóteses, você estará dando um passo muito importante para alavancar sua carreira.