Que tal fazer as contas antes da reforma da casa?

Com uma maior oferta de crédito para quem quer reformar a casa, aumentou também a tentação de não fazer todas as contas antes de iniciar a empreitada. Livre-se dessa dor de cabeça

São Paulo – Agora é oficial: o governo regulamentou o uso dos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para financiar a reforma, a construção e a ampliação da sua casa. A linha de Financiamento de Material de Construção (Fimac), que já havia sido aprovada mas aguardava liberação, entrou em vigor em novembro com condições atraentes. Os juros nominais são de 0,85% ao mês e o prazo para pagamento chega a dez anos.

O empréstimo é limitado a 20.000 reais e o valor do imóvel que recebe a renovação não pode ultrapassar 500.000. Para um Brasil que comemora o aumento do número de trabalhadores com carteira assinada, é uma notícia e tanto. A taxa de desemprego em setembro, de 5,4%, foi a menor registrada desde 2002.

Além disso, o governo federal reduziu o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para os materiais de construção até o dia 31 de dezembro. A alíquota, que antes era de 4% a 15%, está entre zero e 10%. Há uma boa chance de o governo prorrogar a redução do IPI da construção.

Mas é preciso acalmar os ânimos antes de correr ao banco, porque crédito fácil mais juros menores reforçam a necessidade de um planejamento minucioso para que a reforma não resulte em rombo no orçamento. O analista de informações gerenciais Felippe Singh, de 25 anos, e a esposa, a secretária Joice Veronez Singh, de 29, previram um gasto de 50.000 reais na reforma e, para economizar, dispensaram o arquiteto.

“Não foi um bom negócio, porque a falta de conhecimento técnico gerou custos maiores”, diz Felippe. “Não sabíamos, por exemplo, que paredes deveríamos preservar para não comprometer a estrutura da casa.” Sem controle nem ajuda de um profissional, eles já desembolsaram 70.000.

Como não tinham reservas antes de começar a obra, usaram o cartão de crédito para pagar todo o material — assim ganhavam pontos no programa de milhagem da operadora — e pediram um empréstimo de 35.000 para cobrir a dívida. O dinheiro já acabou, mas as faturas continuaram a chegar. O limite do cheque especial virou um mal necessário e, como ainda faltam pintura e instalação da parte elétrica, mais dor de cabeça vem por aí. 


O analgésico da história é que ambos trabalham em empresas que têm programa de participação nos lucros e a quantia que receberam trouxe um alívio. “São necessários três meses de planejamento antes de começar uma obra. Sem organização, o custo pode ser até 35% maior”, afirma Cláudio Conz, presidente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco).

Facilita começar da seguinte forma: anote em uma planilha qual é a quantia disponível. Se for financiar, acrescente o valor das parcelas, seu custo fixo mensal e o salário para saber se as contas vão fechar. “Em seguida, busque a orientação de um profissional para determinar os gastos previstos com mão de obra e material”, diz Mauro Calil, autor do livro A Receita do Bolo (Ed. Clube de Autores).

Segundo Fernando Okimoto, professor e chefe do departamento de planejamento, urbanismo e ambiente da Universidade Estadual Paulista, se você não fizer grandes alterações na estrutura física da casa e focar na mudança dos ambientes internos, como trocar o azulejo, renovar a pintura ou derrubar uma ou outra parede, o arquiteto será suficiente.

“Ele é quem vai elaborar o projeto, que custa a partir de 2% do valor da reforma, e fiscalizar o andamento”, afirma. O valor do metro quadrado para construir ou modificar áreas como lavanderia, banheiro e cozinha pode variar entre 1.000 e 2.000 reais. Já para a reforma de salas e corredores, fica entre 500 e 1.000 reais.

“Aproximadamente um terço do valor paga a mão de obra, e dois terços, os materiais”, diz Khaled Ghoubar, professor de arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. É bom lembrar que imprevistos acontecem. Mesmo que o planejamento seja seguido à risca, os especialistas recomendam reservar, em média, 20% do valor total para gastos extras.

Remédio contra dor

Se reforma viesse com bula, a parte das advertências conteria dois alertas importantes. Primeiro, buscar referências antes de contratar profissionais — e visitar obras em que eles trabalham. Segundo, fazer a compra inteligente de materiais de construção. Pesquise em pelo menos quatro lojas diferentes, porque a economia pode chegar a 25%. 


É possível também aproveitar as promoções para comprar produtos que não serão usados imediatamente. “Nesse caso, a redução dos preços alcança 30%”, diz Mauro Calil. Em geral, uma reforma demora de seis meses a um ano para ser concluída. “O cimento tem prazo de validade de 90 dias, mas o resto dura mais”, afirma Cláudio, da Anamaco.

No site de alguns fabricantes de tintas e pisos dá para calcular as quantidades necessárias de acordo com a metragem. O casal de administradores Fábio Afonso, de 32 anos, e Fernanda de Lima, de 33, seguiu as boas recomendações antes de iniciar a reforma do apartamento de 85 metros quadrados. Procuraram um empreiteiro de confiança para listar os materiais de construção e o custo com a mão de obra, e orçaram os preços em três lugares.

O gasto foi estimado em 30.000 reais. No fim das contas, a despesa ficou em 22.000. “Compramos os materiais em quantidades pequenas, porque achamos que o pedreiro não usaria tudo o que listou. Foi exatamente o que aconteceu”, diz Fábio. “Por exemplo, ele estimou 28 caixas de pastilhas para o banheiro, mas utilizou apenas 20.”

Precavidos, juntaram 15.000 reais antes de encarar a obra e parcelaram o restante no cartão de crédito. Do total desembolsado, 30% foram destinados para o pagamento da mão de obra e o restante para a compra de material. “Não enfrentei problemas porque não tenho pressa para acabar. Prefiro qualidade à rapidez.” gasto extra