9 dicas para se desintoxicar do mundo digital e aproveitar o dia

Profissionais estão restringindo o uso da internet para reduzir a ansiedade de querer saber de tudo o que acontece e poder curtir mais os momentos offline

Assim que deixa o escritório do Google, em São Paulo, a primeira providência de Vinícius Malinoski é colocar o smartphone em modo avião — e o celular só vai voltar ao estado-padrão no dia seguinte, quando o diretor do The Zoo, área de criatividade do Google, sair de casa para ir ao trabalho.

Sem notificações nem a necessidade de checar e responder às mensagens, Vinícius fica longe de interrupções e sentimentos como ansiedade, o que o ajuda a desopilar e a encontrar tempo para apreciar momentos em que possa se fazer presente de maneira mais intensa.

Aos 37 anos, os últimos quatro dedicados à multinacional de tecnologia mais valiosa do planeta, ele adotou essa postura por notar que a hiperconectividade pode ser prejudicial.

“Percebi que era mais saudável não estar conectado o tempo todo, que precisava sair um pouco desse círculo virtual e aproveitar para relaxar”, diz.

“Nas manhãs corro, nado, faço ioga ou jogo tênis. Depois, vou de bicicleta até o trabalho, onde fico das 9 às 18 horas. Deixo 30 minutos do meu almoço para meditar e, à noite, depois de jantar com minha esposa, leio um livro ou estudo música”, conta.

E essa postura se reflete em sua equipe, composta de quatro profissionais. “Tento preservar, pois tenho pessoas no meu time que preferem adotar um horário diferente do meu para estar com a família.”

O comportamento de Vinícius — e de outros que, como ele, estão sentindo prazer em ficar longe da internet — já tem nome: Jomo, acrônimo de joy of ­missing out, que significa algo como “alegria em ficar por fora”. 

A atitude, que surgiu dentro das empresas de tecnologia, é um contraponto ao Fomo (fear of missing out), que, segundo o dicionário Oxford, pode ser traduzido como “ansiedade gerada pela possibilidade de um evento emocionante ou interessante estar acontecendo em outros lugares, muitas vezes despertada pelas redes sociais”.

Basicamente, enquanto o Fomo representa o desespero em saber de tudo o que acontece no mundo digital e o pavor de ficar de fora de todo o burburinho das redes sociais, o Jomo vai no caminho contrário e estimula as pessoas a se desconectarem para que possam experimentar intensamente alguma coisa no mundo offline.

“Na busca pela consciência sobre os próprios desejos e com vontade de viver o momento presente e usufruir dele, as pessoas têm se questionado sobre o uso da internet e suas funções.

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Por estarem mais criteriosas e selecionando melhor o que fazem e as informações que consomem, elas acabam dando espaço ao Jomo”, diz Karen Vogel, psicóloga e professora da The School of Life, de São Paulo.

Essas são preocupações importan­tes em tempos atuais. Segundo uma pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas de São Paulo, o Brasil conta hoje com 230 milhões de celulares ativos.

Computadores, notebooks e tablets somam 180 milhões. Já o ­Cetic.br,­ responsável pela produção de indicadores e estatísticas sobre disponibilidade e uso da internet no Brasil, aponta que, em 2017, mais da metade da população brasileira já tinha acesso à rede mundial de computadores.

Os números expressivos fizeram o governo olhar o assunto com atenção.

Em julho deste ano, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos anunciou um programa de “detox digital”, o Reconecte, que, além de alertar a população para os riscos do uso excessivo da tecnologia, propõe um desafio ao público: trocar, durante um dia inteiro, o tempo gasto com celulares, computadores e outros dispositivos eletrônicos por atividades offline.

E o Instagram, que, segundo uma pesquisa do Reino Unido, é a rede social mais prejudicial para a saúde mental, está escondendo o número de curtidas nas fotos. Segundo a empresa, isso é feito para “aliviar a pressão” que as pessoas sentem ao postar uma imagem.

Impactos na carreira

Mas nem todos parecem entender a necessidade de ter momentos de prazer fora da internet. A pressão por resultados, a facilidade de falar com subordinados e colegas em grupos corporativos do WhatsApp e do Telegram e de acessar o e-mail do trabalho pelo celular estariam dificultando o processo de desconexão por parte dos empregados não só nos fins de semana e feriados mas também nas férias.

Uma pesquisa do LinkedIn realizada em 2018 demonstra isso. De acordo com o estudo, 70% dos consultados admitiram não se desligarem do emprego nas férias.

A prática de não aproveitar o período de descanso para se desconectar e recarregar as energias, apesar de comum, tem consequências bem negativas: estresse, ansiedade, queda do potencial produtivo, diminuição da criatividade e baixa capacidade de inovação.

“A redução da concentração e da inventividade pode afetar a produtividade em setores em que a criação é importante. O acesso digital excessivo também pode limitar vivências não previstas ou que não tenham sido filtradas por dispositivos digitais”, diz Anderson Sant’Anna, professor adjunto da FGV-Eaesp.

“Daí a importância de praticar momentos de oxigenação que possam colocar o indivíduo em contato com diferenças, inovações e possibilidades de surgimento do novo, fora do controle dos algoritmos.”

Foi o que percebeu a publicitária Cláudia Gambaroni, de 40 anos. Depois de meses vivenciando uma exaustiva rotina digital, sentiu que era hora de repensar seus hábitos e suas relações pessoais após um alerta feito por sua mãe.

“Ela disse que, quando eu a visitava ou estava em momentos de lazer com familiares, ficava apenas no celular. Que era como se eu não estivesse ali e que sentia falta da minha presença. Aquilo me fez refletir”, afirma a empresária.

Durante quase um ano, enquanto coordenava diversas equipes e redes sociais, Cláudia chegou a trabalhar por até 20 horas seguidas hiperconectada. Ela teve problemas de ansiedade, estresse, insônia e irritação depois de assumir a liderança de uma grande campanha de marketing político na internet.

“Estava com os nervos à flor da pele. Falava com muitas pessoas, avaliava informações o tempo todo e até dormia com o celular embaixo do travesseiro para responder às mensagens da equipe. Só percebi que algo não ia bem, entretanto, quando, após o término da campanha, com o alerta da minha mãe, notei que estava condicionada a olhar a internet de maneira agressiva mesmo sem estar trabalhando”, diz.

Vinícius Malinoski, diretor do The Zoo, do Google: celular em modo avião quando sai do escritório e ioga para relaxar | Germano Lüders

A mudança de comportamento ocorreu de forma mais drástica num primeiro momento. “Fiquei fora das redes sociais por quatro meses e passei a investir esse tempo em atividades físicas e a me dedicar a meus relacionamentos presenciais, com amigos e familiares. Não queria nada mais a distância.

Também estabeleci uma meta diária e hoje uso menos a internet, apenas no escritório. Nos fins de semana, acesso a rede por apenas 15 minutos para ver coisas pessoais ­— e só”, diz Cláudia, que controla as horas que gasta na web depois de instalar um app com essa finalidade.

“Não foi fácil no começo, mas encontrei uma maneira mais saudável de viver cuidando da mente, do corpo e do espírito. Passei a usar meu tempo para ler, praticar esportes e estar com minha família. Ganhei qualidade de vida.”

Mais equilíbrio

De acordo com o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do Núcleo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, o Brasil é o segundo país do mundo no ranking de navegação na internet.

Segundo ele, cada usuário gasta, em média, 9 horas e 29 minutos por dia na rede. E, apesar de não haver um estudo que mostre o percentual de dependentes tecnológicos no Brasil, a premissa internacional aponta que 10% dos usuários de computadores e smart­phones estão sujeitos a algum grau de vício em internet.

Cláudia Gambaroni (ao centro), publicitária: nos fins de semana, ela navega durante, no máximo, 15 minutos | Daniela Toviansky

O impacto na saúde dos funcionários poderia ser menor, principalmente se as empresas já trabalhassem com políticas corporativas de bem-estar digital para despertar hábitos online mais conscientes nas equipes e, claro, se os profissionais não acreditassem que o comportamento multitarefa é positivo para o currículo.

“Ser multitarefa não é melhor para a produtividade. Ao contrário, o cérebro não é multitarefa, é programado para focar uma coisa por vez. Ele trabalha com o único propósito de finalizar o que foi iniciado”, explica Cristiano.

Se soubesse disso, o advogado e especialista em direito do consumidor Marco Antônio Araújo Júnior, de 44 anos, teria evitado um ciclo tecnológico de 16 horas diárias na internet a partir de 2013, prática que afetou seu foco e sua produtividade.

Para dar conta das duas funções que exercia na época, a de diretor executivo de um grupo educacional e a de professor de direito em um curso preparatório para o exame da OAB, e despachar o que era preciso, Marco se valeu dos benefícios da internet, mas logo passou a ter problemas.

“No home office respondia a mais de 400 e-mails por dia, fazia reuniões online e, mesmo trabalhando das 7 às 23 horas, acordava de madrugada para responder a dúvidas de alunos pelas redes sociais. Eram cerca de 500 mensagens por dia”, conta.

Com um horário hiperextendido de trabalho e sem conseguir um equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, Marco passou a não se alimentar direito, permanecia longos períodos sentado e tinha menos interações com a família.

A consequência veio no ano seguinte: uma hérnia, resultado de meses de uma postura indevida no uso de dispositivos digitais.

Apesar dos tratamentos médicos aos quais foi submetido para o problema na coluna, o detox das redes, entretanto, só aconteceu anos mais tarde.

“Em 2018 percebi que não estava sendo realmente produtivo por causa da internet. Foi então que comecei a aplicar algumas técnicas de coaching que aprendi no dia a dia e a mudar meus hábitos”, explica Marco, que começou a monitorar o tempo gasto na rede de computadores e estabeleceu metas pessoais.

“O início foi difícil. Eu queria saber o que estava acontecendo nas redes o tempo todo, mas logo consegui organizar as tarefas com a ajuda de estratégias.”

Hoje, além da prática de exercícios e de fazer seu horário de almoço sem o celular, Marco trabalha 1h30 sem as distrações da internet e faz uma pausa de 30 minutos para responder aos e-mails e às mensagens profissionais.

Sua meta é chegar a 3 horas ininterruptas, o que ele garante que conseguirá em breve. A organização trouxe uma rotina diferente para sua vida.

“Ganhei tempo de qualidade com minha família, fora da internet, e com base em minha experiência pude ensinar táticas a meus alunos para se concentrarem mais nos estudos fazendo menos uso do celular”, diz o profissional, que administra uma plataforma de cursos preparatórios online chamada Meu Curso.